A equipe executiva do Observatório da Evangelização teve a oportunidade de conhecer de perto, no âmbito de suas atividades, uma comunidade quilombola. Convivemos, partilhamos a vida e celebramos a fé com moradores da comunidade Chacrinha dos Pretos. Neste relato, você conhecerá um pouco da história, das características e da religiosidade dessa comunidade.

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Origem da comunidade Chacrinha dos Pretos

Localizada a aproximadamente 8 km da sede do município de Belo Vale e a 80 km de Belo Horizonte, entre a Serra da Moeda e a dos Mascates, no precioso vale do Rio Paraopeba, está a Chacrinha dos Pretos. A origem da comunidade que ali vive remonta ao ciclo do ouro, no início do século XVIII. O nome “chacrinha”, de acordo com os moradores, decorre de uma pequena chácara que existia na antiga fazenda, com uma grande variedade de frutas, tais como jabuticaba, manga, abacate, laranja, mexerica etc. Já a designação “dos pretos” foi difundida pela população urbana branca de Belo Vale, quando se referia aos moradores da Chacrinha – “aquela, dos pretos”, referindo-se aos descendentes de escravos negros que ali seguiam vivendo desde os tempos da escravidão.

Isso porque, desde os primórdios da constituição dessa comunidade, composta em sua maioria por descendentes diretos de escravos, ela se territorializou no seio da antiga fazenda do barão português José de Paula Peixoto, conhecido como milhão e meio, apelido recebido por causa da fortuna acumulada por este fazendeiro.

Ocupa centralidade simbólica na Chacrinha as ruínas da casa grande dessa fazenda. O Barão tomou por esposa uma de suas escravas e seu patrimônio, não tendo deixando descendentes diretos, ficou para ela. Esta, após a morte do marido, alforriou os escravos, favorecendo, desse modo, a formação da Chacrinha dos Pretos em torno da antiga casa grande.

A narrativa desses acontecimentos está muito presente no imaginário coletivo dos moradores da Chacrinha, como fonte de memória, identidade e profecia.

Atualmente, a Chacrinha dos Pretos conta com cerca de 140 remanescentes desses escravos e foi reconhecida, em 2007, como comunidade quilombola pela Fundação Palmares.

Janela das ruinas

Uma história de opressão, resistência e algumas conquistas

A comunidade da Chacrinha dos Pretos possui uma história de opressão e resistência muito semelhante à de outras comunidades quilombolas. De todos os lados, o terreno onde vivem, no caso, o da antiga fazenda herdada pela viúva do Barão, foi sendo invadido e tomado por pessoas politicamente influentes que não reconheciam, e muitos ainda não reconhecem, a dignidade e a cidadania daqueles que construíram e ainda sustentam a construção, com intrepidez e teimosia, da comunidade da Chacrinha.

Trem

No início do século XX, por exemplo, praticamente o centro do terreno dessa comunidade foi invadido, de forma opressiva e desumana, sem qualquer diálogo, desapropriação ou indenização, para a construção da ferrovia da RFFSA, ramal Belo Horizonte-Rio, que atualmente é administrada pela mineradora MRS. Os trens vão e voltam, noite e dia sem parar, com um barulho ensurdecedor e fazendo tudo tremer na casa dos moradores. Para se ter ideia do barulho cotidiano provocado pelos trens sugerimos assistir o vídeo que gravamos durante a nossa visita:

Além de atrapalhar, pela poluição sonora, a comunicação entre as pessoas, no vídeo a seguir uma moradora da Chacrinha dos Pretos avalia os efeitos do trem sobre as ruínas, patrimônio histórico da comunidade.

Como se não bastasse, até os dias de hoje, a comunidade ainda é vítima de preconceitos. Grande parte do território histórico original da comunidade foi ocupada por fazendeiros para produção de eucalipto, de mexerica e para a criação de gado. Suas terras continuam a ser objeto de insaciável cobiça, a ser invadidas e apropriadas indevidamente. Isso acontece, especialmente, por elas não serem demarcadas e nem sua propriedade ser reconhecida pelo poder público. Até quando, tais violações continuarão impunes?

Na Chacrinha, o saneamento básico local é bastante precário, a água consumida pelos moradores encontra-se bastante poluída em função da irresponsabilidade ambiental das atividades das mineradoras da região e, até hoje, não há posto de saúde no local. O meio de transporte dos moradores, geralmente, é a bicicleta, carona amiga ou a caminhada, forma usual dos moradores resolverem suas demandas cotidianas. Quase não existem carros ou motos na comunidade. Atualmente, o transporte público escolar permite que as crianças frequentem a escola de Belo Vale, pois, a antiga escola da comunidade não pode mais funcionar.

Durante muito tempo, a comunidade quilombola da Chacrinha dos Pretos teve dificuldade de alimentar os horizontes de esperança para um futuro melhor, sobretudo, para as novas gerações. Muitos jovens, por falta de perspectivas, acabaram deixando a comunidade.

De fora, vários moradores de Belo Vale olhavam para a Chacrinha, com certo desdém, como um lugar improdutivo. Depois de bastante luta, persistência, superação e criatividade, com o apoio de líderes da Associação do Patrimônio Histórico, Artístico e Ambiental de Belo Vale, APHAA-BV, formou-se a Associação Comunitária da Chacrinha, ACC.  Em seguida, conseguiu-se identificar e mobilizar os moradores para buscar melhor qualidade de vida e soluções para os desafios da comunidade. Assim, em 2009, conquistaram a aprovação, junto à Secretaria de Cultura do Estado de Minas Gerais, do primeiro projeto cultural denominado “Ponto de Cultura Quilombo Chacrinha”. Esta conquista proporcionou inúmeros outros passos, tais como o “Projeto Ação Griô Nacional”, do Ministério da Cultura, que propiciou muitas ações no Quilombo Chacrinha.

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Segundo a coordenadora pedagógica do projeto, Lívia Leão, historiadora formada pela PUC-MG:

“A consciência negra é um grande desafio para a nação. É preciso reconhecer o passado de lutas e de glórias que teve esta raça desde a colonização do país. Mais que isso, é preciso reconhecer e se orgulhar, no presente, das vitórias e conquistas dos direitos alcançados pelos negros, que dia a dia se tornam mais livres.”

Para ela, o Ponto de Cultura pode ser considerado um autêntico divisor de águas, pois o mesmo oportunizou significativos avanços na comunidade, dentre os quais merecem menção:

  • aquisição de um telecentro comunitário em vista da inclusão digital;
  • educação não formal intensiva para crianças, adolescentes, jovens e adultos em vista da construção da identidade cultural;
  • consolidação do grupo de teatro que transmite a história da comunidade e a influência, papel, importância e história do negro na sociedade brasileira, contribuindo para a formação da identidade cultural das novas gerações;
  • concretização do Projeto Ecovila, em 2010;
  • ações de resgate da cultura local, a partir de 2011, através do intercâmbio de agentes sociais e oficineiros: aulas de capoeira, dança, teatro, artesanatos diversos;
  • implantação do Projeto de Tombamento das Ruínas da Chacrinha, iniciado em 2012, com o apoio da UFMG;

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Para melhor conhecer a realidade dessa comunidade quilombola sugerimos o vídeo do programa Triângulo das Gerais:

Costumes e religiosidade percebidos na Chacrinha dos Pretos

Atualmente residem na comunidade aproximadamente 35 famílias, sendo a maioria de seus habitantes composta por adolescentes e jovens, com fortes laços de afinidade. Procuram guardar tradições orais construtoras de afeto e identidade coletiva. A título de exemplo, o trecho de um canto ensinado por Vó Domingas, uma das matriarcas da comunidade:

No tempo do cativeiro, quando o senhor me batia, eu gritava por Nossa Senhora, ai meu Deus, como as pancadas doíam. Minha mãe, quando me teve me deu leite pra eu beber, antes me tivesse dado veneno, veneno pra eu morrer…” (Trecho do Canto do Cativeiro)

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Há uma mentalidade cultivada e compartilhada, segundo a qual todos são parentes devido à origem comum. Percebe-se, imediatamente, a presença de cumplicidade e intimidade solidária, reafirmada na convivência, na alegria compartilhada e, de um modo todo especial, no bate-papo à noite, à beira do fogão a lenha ou nos bancos, na porta das casas. Nessas ocasiões, conversam sobre vários assuntos, especialmente sobre “casos” do passado, geralmente, ouvidos com atenção e respeito pelas crianças, adolescentes e jovens. Os moradores guardam grande interesse pela arte: música, dança, teatro. E, estimulados pelos trabalhos do Ponto de Cultura, estão guardando suas tradições culinárias e medicinais.

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Os moradores de Chacrinha dos Pretos se mostram muito religiosos e festeiros. No final de nossa visita, participamos de uma celebração eucarística viva e participativa, animada por cânticos, danças e tambores, marcante pela vivacidade e alegria contagiante do axé. Durante os festejos, a comunidade se reúne e participa. Se há forte presença do cristianismo católico, também há igrejas evangélicas. E, como não poderia deixar de ser, constata-se a presença e influência da mentalidade religiosa veiculada pelos cultos de matriz africana. Esta última acontece de forma mais velada, devido aos fortes preconceitos do passado, que ainda estão presentes e atuantes na cabeça de muita gente.

No âmbito católico, a festa de Nossa Senhora do Bom Parto, padroeira da comunidade, ocupa centralidade. A devoção a São Sebastião também é cultivada. Funciona também, aos domingos, uma conferência vicentina no local. Na comunidade, acontecem missas mensais, celebrações da palavra, novenas e orações nas casas. De modo geral, eles são participativos, rezam em grupo, cantam e seguem a procissão com os santos. Organizam novenas, durante as quais recebem, a cada dia, uma comunidade distinta da paróquia de São Gonçalo de Belo Vale. Durante os festejos, há barraquinhas, leilões e bingos. Com o dinheiro arrecadado, cobrem as despesas dos festejos e levantam recursos para a manutenção da pequena igreja. Participam dos festejos religiosos, inclusive com apresentação de teatro, na cidade de Belo Vale, de forma especial, na Semana Santa e na festa do padroeiro São Gonçalo.

Os moradores da Chacrinha reconhecem a importância e acolhem a presença cristã. Percebem o sentido da religião em suas vidas. Por outro lado, ao que parece, muitos têm dificuldade em reconhecer a Igreja como uma instituição aliada, comprometida, atuante e presente nas lutas da comunidade: denúncia sobre a invasão de parte de suas terras, poluição promovida pelas mineradoras, conquista de melhorias na qualidade de vida e na cidadania, especialmente em relação à demarcação e ao reconhecimento das terras da Chacrinha.

Aguarde a nossa publicação sobre os desafios de evangelizar em contexto de comunidades quilombolas.

Edward Neves M. B. Guimarães

Secretário Executivo do Observatório da Evangelização

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