Um dos fóruns temáticos do terceiro dia do “Simpósio FAJE-PUC Minas – Religiões para a paz ou para a guerra? Diálogos Transdisciplinares”, com o tema “Violência e Religião: o caso do cristianismo”, foi coordenado pela professora Maria Clara Bingemer, doutora em Teologia Sistemática e professora associada no Departamento de Teologia da PUC-Rio.

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O Observatório da Evangelização acompanhou a segunda parte do fórum, ocasião na qual a palestrante tratou especificamente de discutir a questão da violência e da paz na perspectiva cristã, a partir de uma análise do Sermão da Montanha.

Antes, porém, Bingemer apontou que a paz (shalom), na perspectiva evangélica, não é a ausência da guerra, do conflito, da violência. “Ao contrário, trata-se de descobrir, na dinâmica da violência, algo de positivo e não o afastamento do negativo”.

Maria Clara lembrou que Jesus encarnou-se num mundo absolutamente violento e conflitivo: ocupação romana em seu país; João Batista sendo perseguido; a fuga de seus pais para que ele não fosse morto (que, em certa medida, lembra o drama dos refugiados na contemporaneidade), os conflitos políticos e religiosos entre o sinédrio e os romanos, entre outros. Ou seja, o Jesus histórico viveu num ambiente de muita luta, de conflitos e sofrimentos.

O cerne do Segundo Testamento é, justamente, a execução violentíssima do Filho de Deus: “trata-se de uma violência em ato”. Este evento, mobilizador, impulsiona a vida dos discípulos e, a partir de então, o cristianismo é apresentado como uma proposta de superação da violência e construção paz, mesmo partindo de um evento altamente violento: a morte de um inocente na cruz.

Jesus também foi confrontado, em inúmeros momentos e de diversos modos, pela violência. Registre-se, inicialmente, que seus discípulos não eram “mansas pombas”. Alguns deles tinham seus “compromissos com a violência”: havia cobradores de impostos; um, era acusado de ser ladrão; os irmãos Boanerges (Tiago e João) eram os “filhos do trovão” e outros se gabavam de possuir “espadas”.

É por isso que os evangelhos atestam, em variados momentos, o estranhamento dos discípulos, inseridos e acostumados a viver numa situação de violência, em relação à práxis não-violenta de Jesus. Não é à toa, também registram os Evangelhos, que se esperava um Deus-guerreiro e vingativo para restaurar Israel.

Um dos textos paradigmáticos que aponta a proposta cristã em relação à violência e à paz é o Sermão da Montanha (Mt, 5, 4 – 47). Trata-se de uma contundente lição de Jesus de como imitar o Deus-amor; ir além dos problemas e da violência; amar sem limites… Mostra que Jesus é um reflexo do Pai (misericordioso; que não exige sacrifícios) e que, por derivação, os cristãos deveriam imitar Jesus.

Foram destacadas algumas perícopes do Sermão da Montanha:

  1. a) “Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra”: os mansos são os não-violentos. Caracterizam-se pela humildade. Jesus é considerado “manso e humilde de coração”. Quem seriam os mansos na nossa contemporaneidade? Podemos nos referir aos pobres das comunidades religiosas das periferias urbanas, por exemplo. Apesar de fracos e oprimidos, não se tornam revoltados e agressivos. Não se revoltam com a vida. Vivem num espírito de solidariedade e partilha. Por isso, são os “herdeiros da terra”, porque nessa vida não se apossaram como donos da criação.
  2. b) “Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus”: os cristãos devem ser construtores da paz. Não há nenhum limite ao perdão (não somente perdoar os amigos, mas, fundamentalmente, perdoar os inimigos. Isso é revolucionário). O amor que leva ao perdão não é afetivo; é efetivo. Os construtores da paz são eleitos de Deus; imitam a misericórdia do Deus-perdão.
  3. c) “Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus”: Jesus é o justo. Sendo inocente, foi perseguido. A história do cristianismo é uma gloriosa lição de martírios daqueles e daquelas que são perseguidos por causa da justiça. Por confiarem sem limites em Deus, sofrem todo o tipo de calúnias, perseguições e violências. Jesus mostra que a antítese da injúria não é retribuir a violência com mais violência. Ao contrário:

“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente!’ Eu, porém, lhes digo: não se vinguem de quem fez o mal a vocês. Pelo contrário: se alguém lhe dá um tapa na face direita, ofereça também a esquerda! Se alguém faz um processo para tomar de você a túnica, deixe também o manto! Se alguém obriga você a andar um quilômetro, caminhe dois quilômetros com ele! Dê a quem lhe pedir, e não vire as costas a quem lhe pedir emprestado.” “Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo, e odeie o seu inimigo!’ Eu, porém, lhes digo: amem os seus inimigos, e rezem por aqueles que perseguem vocês! Assim vocês se tornarão filhos do Pai que está no céu, porque ele faz o sol nascer sobre maus e bons, e a chuva cair sobre justos e injustos. Pois, se vocês amam somente aqueles que os amam, que recompensa vocês terão? Os cobradores de impostos não fazem a mesma coisa? E se vocês cumprimentam somente seus irmãos, o que é que vocês fazem de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa? Portanto, sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês que está no céu” (Mt 5, 38-48).

Esta passagem mostra que toda agressão ao outro é uma agressão à vida. Portanto, para Jesus nenhuma agressão é lícita. A vida deve ser respeitada em toda a sua inteireza e integridade. Toda manifestação de cólera, mesmo quando se tem razão, é violenta e atenta contra a vida. Neste sentido, não há limites para a misericórdia.

Neste ponto, Bingemer falou sobre as várias frentes de atuação desenvolvidas pelo Papa Francisco, em prol de uma sociedade menos violenta e desigual. Um líder religioso que se desponta no cenário internacional também como um habilidoso mediador da paz entre nações.

A justiça dos cristãos não pode ser como a dos pagãos ou gentios. Não é uma justiça retributiva; trata-se de uma justiça restaurativa. Não é uma justiça do merecimento, mas daquilo que é preciso ser dado àquele que pede ou precisa. Neste sentido, o construtor da paz rompe com a espiral da violência e da morte. Não para acalmar os ânimos, mas para interromper as dinâmicas da violência e fazer surgir as dinâmicas vitais.

Concluindo o segundo dia do fórum temático, Maria Clara afirmou: “o Deus de Jesus não é violento. Sofre com as vítimas; é desarmado”. Acontece que o Amor é vulnerável, sofre com o outro, não se impõe, identifica-se com a vítima e o sofredor. Por isso, não se trata de um Deus vingativo.

Jesus é um Deus desarmado e desarmante. Não está em sintonia com a violência em nenhum aspecto. É um Deus que caminha ao lado dos construtores da paz.

O cristianismo é, fundamentalmente, uma religião da paz. Do Deus da não-violência. Assim, os cristãos têm um compromisso com o amor, a misericórdia, a paz e a justiça restaurativa.

Robson Sávio Reis Souza

Membro da equipe executiva do Observatório da Evangelização

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