Os missionários combonianos pautam seu testemunho “a serviço da Vida e do Evangelho” e vivem sua missão como religiosos ou missionários leigos. Em Nova Contagem há uma comunidade de Leigas Missionárias Combonianas, bem como a de religiosos responsáveis pela Paróquia São Domingos. A experiência que vivem e conosco partilham neste mês dedicado às missões aquece o nosso coração e anima-nos a caminhar no seguimento ao Mestre de Nazaré:

 Leigos Missionários Combonianos

“A missão é uma paixão por Jesus e por seu povo.” (Papa Francisco)

Quando tudo parece ter fim…

Depois de anos na missão a gente parece perder o olhar romântico e ficar somente com o olhar humano e real das coisas. Nestes dias, via a parede dos fundos de nossa casa de missão sendo consumida pela erosão dos tempos, contas, pastoral, saúde, enfim… Por nos esquecermos de que a providência ainda é obra dos irmãos, que se assumem para fazer acontecer o milagre da partilha. Então vamos sendo envoltos no mistério da multiplicação, e não somente o alimento material cai, como o Manã no deserto, mas também irmãos partilhando o espiritual e o material.

Neste mês missionário, em que celebramos Santa Terezinha, São Daniel Comboni, São Francisco e Nossa Senhora Aparecida, tudo vai tomando o rosto deste Cristo missionário e as esperanças e certezas vão novamente seguindo nestas ruas do Ipê Amarelo. E com essa equipe das meninas aqui da casa de missão Santa Terezinha, da família Ramires em Venda Nova, Curitiba, Moçambique, Contagem, Petrolândia, Itaúna, Maranhão e Rondônia, tudo vai ganhando vida, olhar bonito e singelo do início, ressuscitando com força na caminhada e com as bênçãos destes santos.

LMC 1

“Nto nyuwa, Apwiya, mwa Atih’ihu, hiyo nri oloko, ti Nyuwo munòpale. Othene nòpiwe ni matat’anyu”

(Senhor é o nosso Pai, nós somos a argila e Tu és o nosso oleiro, todos nós somos obras de Tuas mãos)

(Is 64,7)

Por Lourdes, LMC

Missão é: Sair; encontrar; doar e servir

São dois anos que eu moro no Ipê Amarelo, Nova Contagem em Minas Gerais, dois anos de missão ad gentes. E neste tempo de caminhada estou descobrindo o significado dos verbos que constroem a missão: Sair; encontrar; doar e servir. Sair do país, sair de si mesma e do próprio egoísmo, sair das próprias seguranças, da própria cultura e encontrar. Encontrar os outros, encontrar e conhecer novas realidades, encontrar um jeito novo de ver as coisas, encontrar Deus, encontrar, também a si mesmo.

Neste encontro de doar-se, doamos a coisa mais preciosa que temos: a vida, para colocá-la a serviço dos outros. A missão nos transforma, se nos deixarmos ser transformados, para então descobrir a vida e o seu significado mais belo: o amar. Sair, encontrar, doar, servir para aprender a amar.

Dois anos de caminhada com altos e baixos, desafios e mudanças, revolução interior e descobertas, dois anos importantes vividos, com desejo, coragem e tenacidade, assim como Comboni ensinou.

Entre as várias atividades onde trabalho, a minha paixão é a Pastoral Carcerária, onde me encontrei. Toda terça e quarta-feira de manhã, com o grupo da Paróquia São Domingos, visito os pavilhões do presídio de segurança máxima, Nelson Hungria, localizado em Nova Contagem, com cerca de 2.000 detentos.

LMC 2A realidade prisional do Brasil, assim como em outras partes do mundo, sofre com a superlotação, devido a um sistema prisional com pouca atenção à recuperação dos detentos. As prisões de Minas Grais, por exemplo, podem receber 32.000 presos, divididos em 144 unidades prisionais, entretanto são 54.000 as pessoas reclusas nas várias unidades.

Esta situação só consegue agravar as condições de vida dos presos, visando mais o punir do que o reeducar e o ressocializar, com graves violações dos Direitos Humanos. O alvo da Pastoral Carcerária é acreditar em um trabalho que promova a dignidade humana, o respeito aos direitos humanos e a superação dos limites do sistema prisional atual, em favor de um modelo que permita a recuperação efetiva e a reintegração da pessoa do recluso.

Estou aprendendo muito com essa pastoral que é testemunho de um Deus que não discrimina ninguém, em um lugar marcado pelo desprezo, preconceito e violência,fazendo nossas as palavras do Evangelho: “Estive preso e foste me visitar”. É a pedagogia de Jesus, método, modelo, passo que direciona o caminho dessa pastoral, reconhecendo o rosto de Deus em cada pessoa, mesmo nos presos.

Atuação singela, apertando mãos, encontrando rostos concretos, escutando as histórias de vida dos que estão do outro lado das grades, com vista a testemunhar a justiça e a dignidade de cada ser humano porque, como nos diz o evangelho: “Nisso que reconhecerão que sois meus discípulos: no amor que tiverdes uns para os outros” (Jo 13, 35). Esta é a missão!

Porque o seu exemplo vale mais que mil palavras

Dia 10 de outubro, São Daniel Comboni, juntos como Família Comboniana ousamos dizer obrigado ao homem que nos ensinou a amar a missão e como fazê-la. Bate no peito aquele Amor que nos leva a sair do nosso egoísmo impulsionando-nos às periferias do mundo para sermos simples testemunhas, para estarmos com o outro e no meio do outro, para compartilhar, participar, conhecer, lutar e amar.

Apaixonados pela Vida, por Comboni, por Deus, e por toda a humanidade. É este amor que guia os nossos passos e as nossas escolhas, é este amor que nos faz caminhar neste mundo com coragem, determinação, tenacidade e paixão. É o amor que cura as nossas feridas, que nos revoluciona internamente, e nos leva a enfrentar desafios e novos caminhos.

LMC 3.

Comboni no coração, Comboni em cada dia, Comboni em nossas escolhas. Graças, Daniel!

Por Emma Chiolini, LMC

A transcendência nossa de cada dia

Sobre ser estrangeira no próprio país, de fato é tudo muito diferente. Simplifico esses sentimentos nas palavras de Mateus, uma criança da catequese que dentre tantas com a mesma pergunta disse: – por que você fala assim “TU”? eu não esperava, tão pouco ensaiei uma resposta, só disse: – por que sou lá do Maranhão, no Nordeste, ele rapidamente questionou: – e em qual planeta fica? A gargalhada foi inevitável.

Outro dia, fomos à Casa de Apoio do Ipê, para assistirmos uma peça de teatro que, de forma cômica e encantadora, abordou o tema dos nossos medos. Foi gratificante ver os olhares curiosos dos meninos e meninas da catequese. Sou suspeita para falar do poder transcendente que o teatro e a música possuem.

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Falar de crianças, não é definir como um futuro, e, sim, falar de presente: um presente Divino, um presente do hoje, do agora, é a mais bela expressão do amor de Deus. A simplicidade e curiosidade das crianças me encantam, são tão pequenas e mesmo assim são as que possuem maiores capacidades de compreensão e respeito, mesmo não entendendo de qual “planeta” viemos nos acolhem com amor e carinho.

Com essa experiência missionária na casa de formação, estou tendo a oportunidade de acompanhar a caminhada da juventude. Desde que cheguei venho ouvindo seus anseios, em contrapartida percebo muitas luzes através de seus sonhos, aventuras e ousadias. É bonito e enriquecedor ver a juventude trabalhando pela construção da tão sonhada civilização do amor.

Por Raylene Bananeira, LMC em formação

COMBONIAR-ME…

Quase dois meses que cheguei ao Ipê Amarelo. Meus pensamentos e emoções são uma grande mistura de belezas e surpresas, de anseios e acolhida da realidade encontrada aqui. Fazer comunidade encanta-me! Os desafios que encontramos quando nos dispomos a viver com outras pessoas, o deixar um pouquinho de si mesma para acolher a companheira de caminhada, a renúncia de tantos costumes, jeitos e egoísmos que guardamos internamente e dificultam o caminhar com, o estar com, o fazer-se família.

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Cada comunidade exige-nos uma renúncia diferente e leva-nos a um aprendizado novo e isso é bonito; é bonito perceber que sempre temos algo a aprender e a descobrir sobre nós mesmas. Tudo isso me leva à gratidão ao bom Deus! Gratidão por permitir-me mergulhar nesta comunidade formativa-missionária e re-descobrir-me dia a dia paralelamente à descoberta, ao conhecimento de quem caminha a meu lado e me ensina este jeito comboniano de pisar a terra sagrada de cada ser.

Entre as propostas de trabalho e pastoral, tenho tentado não me deixar levar pelo desejo “insano” de querer abraçar o mundo. Muitas vezes a pretensão de fazer muitas coisas pode atrapalhar mais que ajudar. Na Casa Comboniana, encontrei um espaço muito necessitado de atenção psicológica e gosto de pôr minha formação a serviço da missão. Gosto de estar lá e ouvir as pessoas que querem e precisam da terapia. Que Deus permita-me ter ouvidos sempre atentos e palavras certas para todas. Que Ele possa usar-me.

Também gosto do trabalho com as mulheres em situação de prostituição. É um grupo grande de mulheres que me chamou para estar com elas e fazer momentos de formação em direitos humanos, sexualidade, resgate da dignidade humana. Ouvi-las mexe com o profundo das minhas entranhas e leva-me a uma busca de abertura cada vez maior com as tantas realidades humanas. Elas ensinam-me mais que eu a elas e lhes sou muito grata.

Algumas vezes fui às casas visitar algumas famílias e quero fazer isso mais vezes; adentrar as casas sempre parece-me adentrar os corações, conhecer mais a realidade do bairro em que vivo, saber os nomes d@s vizinh@s. Outra coisa que me encantou nestes dois meses é a proposta de trabalhar na formação do Apostolado da Oração falando sobre a Espiritualidade do Coração de Jesus. Estar com as mulheres mais velhas, avozinhas me encanta; ouvir suas experiências de vida, a simplicidade que vivem sua própria espiritualidade e tentativas de aprender o que a Igreja pede. É uma experiência de poucos encontros, porém a troca de conhecimento com elas ensina-me muito.

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Para onde irei? Sim, às vezes essa pergunta me chega ao coração. Ainda guardo anseios de terras longínquas. Porém os anseios são plenos de uma tranquilidade de que toda terra é sagrada e deixar-me guiar é o mais bonito de todos os desafios. Não estou na formação/missão sozinha. Caminhar junto! Acolher o que Deus me dá através da comunidade em que me encontro e ser grata. Se eu conseguir desabitar-me um pouco para habitar as pessoas que se achegam a mim, posso estar aqui ou em qualquer outro lugar que já me basta porque, para mim, antes de sair geograficamente é preciso sair interiormente de si mesma sem perder-se. Sair-se e deixar a outra pessoa adentrar…

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Existem muitas outras coisas que acontecem e me encantam e desafiam. Tudo eu quero acolher e viver na profundidade da entrega missionária. Deixar-me conduzir, deixar-me modelar junto a este povo que me acolhe respeitando seus jeitos e cultura, seus costumes e pensamentos sem perder de vista o ponto de minha partida que é a Cruz de Cristo. Eu sou grata! Eu sou grata por tudo.

Comboniar-me a cada rosto altero

Que em passos lentos ou apressados

Se achegam a mim

Comboniar-me ao cair da tarde

Quando teus braços noturnos

Em sono leve vem me afagar

Comboniar-me quando a escuridão

O frio ou as trevas

Tentam de Ti me tirar

Comboniar-me quando livremente escolho

Deixar pai, mãe e amig@s

E só contigo contar

Comboniar-me é aventurar-me

Em teus passos deixando-me

Por Tuas mãos modelar

Comboniar-me tomando nas mãos

Feridas e espinhos

E em Teu amor deixar-me curar

Comboniar-me é…

Encontro de humanidades

Que se chegam

Chocam-se

Perdoam-se

Tocam-se

E… em comum-unidade

Entregam-se a Ti.

Por Priscila Garcia

“Pai Santo vós nos chamastes a missão no seio da Família Comboniana, suba até vós o nosso agradecimento” pela vida entregue à missão em especial neste mês missionário. Que nossas vivências inspiradas no testemunho de Cristo possa suscitar novas vidas para missão. Axé, Awerê, Aleluia, Amém!

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Casa de Formação e Missão, Leigos Missionários Combonianos

Nova Contagem, Contagem/MG – Outubro de 2015

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