O Observatório de Evangelização, presente na Assembleia dos Presbíteros do Leste II, acontecida dos dias 17 a 19 de agosto do ano corrente, em Cachoeira do Campo, vem disponibilizar a participação dos mesmos através de algumas respostas dadas às perguntas dirigidas aos participantes no que se refere: à própria assembleia, à vida e missão do presbítero, aos desafios da evangelização e às interpelações do Papa Francisco. A referida assembleia é uma preparação do clero para a participação no ENP (Encontro Nacional dos Presbíteros) que ocorrerá em abril de 2016 em Aparecida.

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OE: Em que medida esta assembleia o motiva no cuidado de si mesmo e da sua missão evangelizadora?

Padres: Motiva e valoriza a comunhão presbiteral; a formação como colaboração no exercício da missão; situa-nos em relação às riquezas e desafios dos novos tempos abrindo perspectivas novas; as grandes mudanças acontecem a partir do interior da pessoa; é uma boa sacudida no ânimo pessoal e no compromisso com a caminhada e missão do presbítero; contribui para o autocuidado como princípio de bem estar; é um despertar para a colegialidade presbiteral; promove a agregação e fortalece a idéia do cuidado; tempo de revisar e acordar a esperança de que vale a pena; fortalece o desejo de continuar lutando, mesmo em tempo de crise de valores; ajuda-nos a olhar para nós mesmos, e permite-nos qualificar os esforços em relação à evangelização; motivação que nasce a partir da formação permanente levando-nos ao reencantamento; nesses tempos difíceis, ajuda-nos no cuidado e vigor vocacional; possibilita-nos a confraternizarmos e jamais vivermos isolados e sem comunhão; ajuda a olharmo-nos como pessoas e a comprometermo-nos com a  missão recebida.

OE: Os apelos que nascem das posturas do Papa Francisco o motivam a um renovado ardor evangelizador? Em quê?

Padres: Motiva a colocar Jesus Cristo como centro da  vida e da  vocação; inspira a ser despojado, simples, e valorizar cada pessoa que vem ao nosso encontro; seu jeito próprio de ser próximo às pessoas através da acolhida e solidariedade; sua postura profética diante do sofrimento de todos, sobretudo dos mais empobrecidos e excluídos, convida-nos a ser uma Igreja Samaritana e Missionária, e que testemunha, com prazer, a misericórdia do Pai; a saída do que é tradicional; o apelo à conquista de outros lugares e pessoas; incentiva minha ação no mundo, desperta-me para o estímulo e alegria em razão do ministério hoje; desmascara nossas hipocrisias por não darmos testemunho do que falamos; motiva-me ao autêntico seguimento de Jesus Cristo; despertar para o testemunho através do desapego e do acolhimento na alegria; o ardor missionário; inspira-me à vida simples, o encontro com as pessoas; sua atitude mais amorosa, misericordiosa e acolhedora de Jesus; um compromisso maior com os pobres, velhos, doentes, crianças.

OE: Quais os principais desafios de ser presbítero hoje?

Padres: A indiferença de muitos em relação à fé cristã; a estrutura atual da paróquia que faz com que muitas vezes o padre se torne apenas um administrador; viver à luz do ministério, com autenticidade, o discipulado missionário; não perder o encanto; não se deixar corromper pelos prazeres do bem-estar; interiorizar a Palavra e proclamá-la em meio a um povo disperso na pluralidade de valores que se distanciam do valor evangélico; permanecer na contracorrente; a rapidez em relação às mudanças que forçam o presbítero a estar atento para não refugiar-se no mundo da tecnologia; pessoais, estruturais e sociais; vulnerabilidade das pessoas frente à modernidade; imediatismo religioso; a diversidade de comportamentos dentro da mesma Igreja; exaltação da experiência religiosa e pouca experiência de Deus; falta de unidade entre os líderes da Igreja; tempo disponível para “estar com o Senhor”, conhecer Jesus e segui-lo mais de perto; ser homem de comunhão eclesial; ter espírito sacerdotal; saber trabalhar em equipe; a solidão que pesa; o trabalho burocrático, a rotina, a necessidade de descoberta de novas lideranças; dificuldade de muitas pessoas em aceitar as orientações do padre; sociedade relativista; indiferença religiosa; o trabalho com a juventude, a questão política e social; a questão do poder; questões emocionais e afetivas.

OE: Quais os maiores desafios de evangelizar no contexto atual?

Padres: As diversas propostas religiosas; a evangelização no contexto urbano; a renovação e conversão da paróquia; o trabalho social com os marginalizados e excluídos; despertar os cristãos para uma vivência mais profunda da fé; fusão entre fé e vida, e abertura dos cristãos à dimensão social da evangelização; encontrar-se com os afastados; multiplicidade de informações sem fundamentação bíblica; falta coragem para atualizar a proposta do evangelho; repensar a questão ministerial; indiferentismo religioso em razão do desenvolvimento científico e tecnológico gerando arrogâncias, autossuficiência; busca em um Deus da resolução de problemas causados pelo homem; teologia da prosperidade; competição religiosa; fé mercantilizada; falta de conservação dos valores perenes; o contexto sócio-politico-cultural-religioso plural que encontramos.

O documento 100 da CNBB “Comunidade de comunidades: uma nova paróquia” colocou o dedo na ferida ou não? Como avalia esse documento?

Padres: O documento apresentou muitos balizamentos de grande ajuda, mas é preciso o passo da conversão pastoral e do compromisso; dificuldade da conversão, principalmente quando nos desinstala dos nossos esquemas pastorais; o documento é bom, mas corre-se o risco de passar batido com o volume de coisas; o povo, em geral, está não apenas lendo, mas deixando que a palavra ilumine as redes de comunidades; deve ser aplicado melhor em nossas paróquias, dioceses e comunidades; atraso da Igreja em relação à proposta de conversão pastoral e paroquial; o resultado dependerá da conversão de quem está à frente da comunidade; devemos ter cuidado na apresentação desta proposta, ter bom senso; o documento é bom, mas se acontecerá na prática, o tempo dirá; estão faltando atitudes, novas posturas que sejam cristãs de fato; documento desafiador que, por sua vez, exige uma revisão do ministério do presbítero e dos leigos; trata-se de uma grande contribuição para o nosso tempo.

OE: Como avalia a caminhada da Igreja do Brasil: em que estamos acertando e em que não?

Padres: O caminho está sendo positivo; há um esforço em ser uma Igreja orante e libertadora; é preciso organizar os passos para evangelizar estabelecendo prioridades devido à densidade do calendário ao longo do ano e às outras tarefas também necessárias; a Palavra de Deus deve estar no centro; acerta-se o caminho quando se busca através da formação atualizar, mas erra-se quando se mantém e insiste na burocracia; penso que a Igreja está piorando quando os profetas de referência estão morrendo ou sendo sufocados; a Igreja está muito omissa frente aos graves problemas sociais e ecológicos; não há vestígios de transformação; modelos que perduram são os neopentecostais à base de uma fé emocional. Caminhamos entre luzes e sombras; o contexto em que vivemos, o Papa, as diretrizes da Igreja, o doc. 100, enfim, tudo tem contribuído para o dinamismo da Igreja, é tempo de esperança; acertamos na reflexão, na valorização dos leigos, no retorno à fonte, à experiência da Igreja primitiva; a Igreja no Brasil está buscando ser uma voz profética visando uma mudança na sociedade brasileira; estamos a caminho, muito se fez, muito se tem para fazer; é preciso olhar para além das nossas sacristias; a missão é permanente; é preciso investir nas lideranças leigas; valorização do trabalho da evangelização em comunidades; sermos uma Igreja em saída.

Destacamos que a Assembleia dos Presbíteros Leste II foi muito participativa e envolvente. Ajudou-nos a refletir as questões relacionadas ao presbítero, ao povo de Deus e à missão da/na Igreja. Foram momentos de intensa partilha e fraternidade, nos quais foi possível perceber como os presbíteros encaram os rumos da ação evangelizadora da Igreja, os desafios encontrados no exercício do seu ministério, e as interpelações do Papa Francisco. Sabe-se que o momento é complexo, mas cheio de esperança. O “novo” desponta com força e dinamismo, exigindo a conversão pessoal e eclesial com renovado ardor missionário. As reflexões realizadas nessa Assembleia propiciaram o desencadeamento de implicações na vida do ministro ordenado. Este é aquele que motiva, lidera e direciona o serviço missionário da Igreja em corresponsabilidade com os leigos a partir de um novo impulso missionário. Aguardamos o Encontro Nacional dos Presbíteros.

Pela Equipe do Observatório da Evangelização – Pe. Joel Maria dos Santos.

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