1446072449_attach90

Gustavo Gutierrez

O teólogo Gustavo Gutierrez começou a sua conferência diferenciando o valor do cultivo da memória e a experiência do saudosismo de um passado idealizado. Enquanto este fixa-se no lamento pela perda, aquele, ao contrário, fecunda o presente e mobiliza nossas energias e criatividade para o futuro. Por isso expressou a sua alegria de encontrar no congresso tantos/as companheiros/as de caminhada e fazer memória dos passos percorridos.

Em seguida, lembrou-se de um poeta que dizia entender, na experiência cristã tanto a fé em Deus quanto a práxis da caridade, mas não a esperança. Gutierrez convidou os ouvintes a pensar de forma paralela: há uma densidade positiva tanto em nossa relação de fé com o Deus Criador e Pai de todos nós quanto na relação com o Filho Jesus como aquele que encarna a práxis do amor e da justiça, mas temos dificuldade de colocar a nossa esperança confiante na presença do Espírito. Nas ações evangelizadoras disse que deveríamos descontruir essa mentalidade equivocada, pois Deus é uma unidade trinitária.

1446072477_attach69

Gutierrez explicitou a seguir, as três partes de sua reflexão. Na primeira, que ele denominou reflexões sobre o Viver segundo o Espírito, disse que abordaria o tema da missão. Para ele, teologicamente, um dos textos mais profundos sobre missão é o que se encontra nos cinco primeiros números do documento Ad Gentes, do Concílio Vaticano II, pois, explicita a da missão do Filho e do Espírito Santo. O texto declara que o cristianismo nasceu dessas duas missões. Quanto ao Espírito, o define como o paráclito, aquele que está ao lado, o defensor e consolador. Durante os debates na elaboração do texto da Ad Gentes, muitos não queriam que se falasse do Espírito como aquele que promove e ajuda a discernir os sinais do tempo, mas, para Gutierrez, é exatamente isso que significa viver segundo o Espírito.

Em seguida, disse que entende a espiritualidade cristã como o próprio seguimento de Jesus. Portanto, seria equivocada o cultivo de qualquer prática considerada como espiritualidade sem a busca do seguimento de Jesus.

1446072455_attach41

Mostrou também, depois disso, que para Paulo, como explicitou na sua carta aos Gálatas, onde está o Espírito, aí está a liberdade. E o sentido dessa liberdade é a capacidade de autodeterminação para colocar-se a serviço. Lembrou que Jesus, ao prometer enviar que o Espírito, disse que o paráclito ajudaria a recordar as palavras dele e orientaria o que eles deveriam dizer e fazer. Concluiu a primeira parte recordando dois textos bíblicos que expressam o sentido de viver segundo o Espírito. O primeiro está no livro dos Reis, capítulo 19, versículos 9 a 18, quando a Palavra de Iahweh dirige-se ao profeta Elias e Deus disse-lhe que passaria por ele. O profeta reconhece a presença divina no murmúrio da brisa suave, e não no furação, no terremoto ou no fogo. O segundo está no livro do Apocalipse, quando fala sobre a Igreja de Laodicéia. No capítulo 3, versículo 20 diz assim: “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo”. Os dois textos revelam um Deus discreto e humilde, que respeita a sacralidade da autonomia humana.

1446072469_attach98

Na segunda parte, intitulada “pobres em espírito”, expressão extraída do Evangelho de Mateus. É a primeira bem-aventurança do Sermão da Montanha. Que significar considerar como bem-aventurança o ser pobre em espírito? Para Gutierrez, trata-se de algo tremendamente anti-idolátrico, ou seja, significa ter a Deus como único fundamento absoluto. Esse é o primeiro sentido: aquele que coloca a vida nas mãos de Deus. Como desdobramento poderíamos até pensar, segundo Gutierrez, no desapego das coisas materiais, mas como atitude consequente. De fato, a constante tentação da idolatria que temos é a de colocar a nossa esperança ou segurança em algo diferente de Deus. É nesse sentido que o Evangelho louva a postura da criança que vive em total confiança nos pais. Colocar a vida nas mãos de Deus significa tornar-se discípulo de Jesus. Em seguida, destacou o número 98 do Documento de Aparecida que, ao abordar sobre a situação da Igreja Católica na América Latina e no Caribe nesta hora histórica de desafios, reconhece que tem dado “testemunho de Cristo, anunciado o Evangelho e oferecido seu serviço de caridade aos mais pobres, no esfoço de promover sua dignidade… promovendo a justiça, os direitos humanos. Seu empenho a favor dos mais pobres e sua luta pela dignidade de cada ser humano tem ocasionado, em muitos casos, a perseguição e inclusive a morte de alguns de seus membros, os quais consideramos testemunhas da fé… Esse testemunho valente de nossos santos e santas, e aqueles que, inclusive sem terem sido canonizados, viveram com radicalidade o Evangelho e ofereceram a sua vida por Cristo, pela Igreja e por seu povo. Lembrou que Romero é um testemunho paradigmático desse ideal cristão. Deu também outro exemplo de dois mártires que viveram essa bem-aventurança. Primeiro, o padre negro brasileiro, Antônio Henrique Pereira, ordenado por Dom Helder Câmara. Em maio de 1969, ele sequestrado, espancado, queimado e assassinado em Recife, aos 29 anos, por sua luta contra a violência da ditadura militar. Segundo, o escritor e antropólogo peruano José Maria Arquedas, alguém que tentou viver para servir aos outros e visceralmente identificado com a causa indígena. Em dezembro de 1969, aos 58 anos, foi encontrado morto depois de numerosos estudos sobre a beleza e dignidade dos povos indígenas da América Latina.

1446072428_attach43

Já na terceira parte, intitulada Em busca dos pobres de Jesus Cristo – esse é o nome de um dos livros do conferencista escrito em 1992 – iniciou explicando que a origem deste título vem de uma carta em forma de livro, escrita por um índio peruano, Guamán Poma de Ayala, ao Rei da Espanha Felipe II, no início do século XVII. Nesta ele denunciou as injustiças praticadas contra os índios na América, seguida de violência e morte prematura dos indígenas.

Segundo Gutierrez, a lei mais violentada em nosso continente é a lei de Newton, a da gravidade, pois, o Espírito age de baixo para cima, desde os pobres. Para ele, pobres são os insignificantes e invisibilizados, aqueles que não têm direito de ter direitos, disse citando Hanna Harent. Pobreza, em última instância, é o que atenta contra a vida, é a morte por fome ou por violência, morte física e morte cultural pela exclusão. Para esclarecer o sentido de buscar os pobres de Jesus Cristo, evocou a parábola do bom samaritano. Um samaritano se faz próximo do homem anônimo que ficou meio morto, caído pelo caminho. Se nos aproximamos do outro que sofre fazemos a vontade de Deus tal como é compreendida por Jesus. Em seguida, aprofundou o sentido teológico da opção pelos pobres. Disse que não se trata de ser a voz dos sem voz, mas de favorecer que os pobres sejam sujeitos de suas próprias vida, que assumam as rédeas de sua vida. E distinguiu três dimensões importantes da concretização da opção pelos pobres: 1. A espiritualidade passa a ser compreendida como um estilo de vida, um modo de ser cristão na qual os pobres adquirem centralidade; 2. A teologia passa a ser entendida como uma reflexão que parte da realidade dos pobres. Trata-se de uma hermenêutica da esperança desde o contexto dos pobres. Disse que a grande pergunta torna-se: que estamos fazendo para alimentar a esperança dos pobres? Quais as razões de fé para a nossa esperança? 3. A evangelização passa a perceber que não é aleatório a prática de Jesus partir da Galileia e não da Judeia. Evangelizar, portanto, passa a ser pensada a partir do reverso da história, desde baixo, desde a periferia. Evangelizar significa compartilhar a espiritualidade e a teologia com os pobres. Para terminar, lembrou que em Gálatas, Paulo diz que Cristo nos libertou para sermos livres para servir. Evangelizar, então, é tornar-se livre para servir. Não se trata de poder de dominação, mas de servir. No fundo significa se perguntar: como dizer ao pobre que Deus o ama?

Para assistir a palestra na íntegra clique aqui:

Por Edward Guimarães

Secretário Executivo do Observatório

Anúncios