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Victor Codina

O teólogo boliviano Victor Codina iniciou a sua conferência dizendo que, por mais que se fale do Espírito Santo e de espiritualidade cristã, o esquema básico da teologia ocidental pode ser expresso assim: Deus-Cristo-Igreja. É conhecida a crítica da Igreja oriental que acusa a Igreja do ocidente de uma espécie de “cristomonismo” e de esquecimento do Espírito. Lembrou a denúncia do teólogo Y. Congar de que o Espírito Santo, na prática da Igreja, foi substituído por Maria, pela Eucaristia e pelo Papa. Lembrou que o teólogo J. B. Libanio também chamou a atenção, em 1992, de que a própria Teologia da Libertação, ao longo dos anos 70 a 90, não desenvolveu a sua Pneumatologia, mas dado ênfase quase exclusiva à Cristologia e à Eclesiologia.

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Em seguida, mostrou o ponto de partida da Pneumatologia latinoamericana elaborada partir dos anos 90: a própria experiência espiritual do povo latino-americano e caribenho desde os anos 70. Nesse tempo, engendrou-se em nosso continente uma recepção criativa do Concílio Vaticano II, um autêntico momento estelar da humanidade. Para caracterizar esse momento elencou sete dados significativos: 1. O surgimento de muitos bispos comparáveis aos santos padres, tais como Helder Câmara, Oscar Romero, Luciano Mendes, Leônidas Praño, Pedro Casaldaglia, dentre tantos outros, que lutaram contra as injustiças, próximos aos povo, verdadeiros pastores; 2. O surgimento das comunidades eclesiais de base com suas práticas participativas unindo fé e vida; 3. A irrupção dos pobres na sociedade e na Igreja através de movimentos sociais com forte consciência sociopolítica e eclesial; 4. O protagonismo da mulher: empoderamento, protagonismo e avanços significativos na conquista da cidadania; 5. A vida religiosa inserida e inculturada no meio do povo; 6. Os inúmeros mártires que fecundaram, com seu sangue, a nossa terra de testemunho evangélico autêntico; 7. O movimento pentecostal evangélico e católico, ainda que cheio de ambivalência, o maior movimento eclesial desde a Reforma.

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Continuou a sua reflexão com o seguinte discernimento: quem lhes deu força para esse verdadeiro tempo de kairós, senão o Espírito Santo? Isso porque o Espírito é aquele que atua desde o avesso da história, desde baixo, desde os excluídos e descartados, desde a impotência, desde os crucificados da história, desde os últimos, desde os porões da humanidade. Esse atuar desde baixo, mais que uma geografia, é um lugar teológico, concluiu. Aqui encontra-se o critério de uma autêntica Pneumatologia latinoamericana. E explicitou, a seguir, os fundamentos bíblicos dessa compreensão: a) O Espírito revela-se criador e doador da vida: aquele que faz os ossos voltarem a vida, que faz mulheres estéreis conceberem… que ressuscita Jesus. b) O Espírito que anuncia a esperança de um tempo novo… que anuncia a chegada do Reino, que transforma discípulos amedrontados em homens capazes de dar a vida pelo anúncio; c) Um Espírito que se revela como a mãe dos pobres.

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Continuou a sua reflexão mostrando que a tradição eclesial fala do Espírito, mas sem o conectar com os pobres. Na época medieval também falava-se dos dons do Espírito, mas sem percebê-los como dons para a prática da justiça. Na tradição oriental há grande sensibilidade para o Espírito, mas sem conectá-lo com o mundo, tornando-o uma realidade reduzida, muitas vezes, ao âmbito litúrgico. No movimento monaquista, nas ordens mendicantes, na era do Espírito de Joaquim de Fiori e na Reforma igualmente aparece a figura do Espírito, mas distante de qualquer relação com a realidade dos pobres.

Depois dessa análise histórica, defendeu que a originalidade da Pneumatologia latino-americana foi a captar que o Espírito atua desde baixo, desde os pobres. Essa pode ser considerada a sua característica profética. Mostrou, em seguida, algumas consequências pastorais: 1. A Pneumatologia latino-americana não nasce da especulação teológica, mas do caos, da crise social, da miséria com fonte de transformação e libertação para a vida digna para todos. 2. Provoca a necessidade de discernir o que brota realmente do Espírito ou como resultante do pecado social. Disse que o critério para esse discernimento é a prática libertadora de Jesus de Nazaré. 3. As duas mãos do Pai, o Filho e o Espírito, atuam desde baixo. Portanto, a opção pelos pobres está implícita na experiência cristã pneumatológica.

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Para terminar, disse que a gramática da tradição que considera o Espírito como Aquele que procede do Pai e do Filho, deve ser matizada com a que considera o protagonismo do Espírito no acontecimento da fé cristã, Espírito, Pai e Filho, evitando assim tanto o cristomonismo quanto o pneumonismo. Finalizou, evocando o Papa Francisco que ao confirmar a tese de que o Espírito atua desde baixo, fez a seguinte prece: “Vem Espírito Santo e transforma a face da terra”.

Para assistir à palestra na íntegra, acesse aqui:

Por Edward Neves M. B. Guimarães

Secretário Executivo do Observatório

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