Disponibilizamos a seguir uma reflexão que julgamos pertinente sobre os desafios da família, em toda sociedade, discernir e cultivar os valores humanos fundamentais, aqueles que expressam e garantam a dignidade de cada pessoa humana. O autor explicita  diferenças estruturantes entre a realidade familiar que encontramos na Bíblia e no contexto atual. Ao apontar as profundas transformações ocorridas no interior realidade familiar do contexto bíblico até os nossos dias, ajuda-nos a perceber os valores humanos fundamentais que não podem faltar independente da configuração histórica da família. Desejamos que a leitura alimente o horizonte da reflexão contemporânea sobre os desafios de bem cuidarmos da dignidade da família, tema central do Sínodo ocorrido na Igreja Católica em outubro.

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FAMÍLIAS NA BÍBLIA E HOJE: tomando as devidas distâncias

Por: Paulo Sérgio Soares

A questão central que nos interessa abordar nestas poucas linhas não é, propriamente, o conceito de família na Bíblia, mas, sim, em que medida modelos de família – e também de qualquer outra instituição humana – retratados na Bíblia, podem ou não ser aplicados aos dias de hoje.

Para início de conversa, se os tempos mudam e novas necessidades surgem, é natural que também se busquem novas respostas e ordenamentos na sociedade, em vista da organização sempre melhor do convívio social. Isso comporta a revisão, a adequação e, às vezes, a total rejeição daquelas instituições que, mesmo tendo sido adotadas na Bíblia, tornaram-se obsoletas e mesmo inaceitáveis, como é o caso, por exemplo, da escravidão e, na maioria dos países, hoje, a pena de morte. O que dizer, então, da instituição familiar na Bíblia? Sem pretender esgotar o assunto, bastante complexo, podemos assegurar, de imediato: há muitas diferenças em relação a hoje! Estas apontam para o cuidado que devemos ter de não transpor, tal e qual, um modelo bíblico de família para os nossos dias. Quais são as principais diferenças?

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Diferenças importantes do contexto familiar encontrado ao longo da Bíblia e o atual

Em primeiro lugar, embora casais monogâmicos fossem bem mais comuns, a poligamia e o concubinato eram aceitos legalmente. Por isso, não era imoral o homem casar-se com mais de uma mulher, desde que pudesse manter todas elas com dignidade. Esse é o caso de Lamec (Gn 4,19), de Esaú (Gn 26, 34), de Jacó (Gn 29,15-30), de Elcana, pai de Samuel (1 Sm 1,2.19-20) e outros tantos. Inicialmente, o homem podia ter uma concubina apenas quando sua esposa não lhe desse filhos. Essa lei já existia no Código de Hammurabi, cerca de 1700 anos antes da Era Comum (a.E.C.).[1] Nesses casos, a mulher costumava entregar uma escrava sua ao marido, como concubina, e considerar o filho desta como seu próprio, como aconteceu com Sara e Abraão e também com Raquel e Jacó (cf. Gn 16,1-2; 30,1-8). Aliás, ter muitas esposas era sinônimo de riqueza, poder e status social. No caso dos reis, os casamentos com uma filha do rei vizinho era a forma normal de se estabelecer pactos de mútua cooperação e paz. Salomão, por exemplo, teve nada menos que setecentas esposas, além de trezentas concubinas (1 Re 11,1-3)! No mundo de hoje, a poligamia só é legalmente aceita em alguns países, especialmente entre os muçulmanos.

A maior diferença, entretanto, está no papel social da família apresentado na Bíblia. A família israelita era patriarcal, onde o homem era proprietário não apenas dos bens materiais, mas, também da(s) mulher(es) e do(s) filho(s), além dos eventuais escravos e escravas (cf. Ex 20,17). Ele podia dispor desses bens como bem entendesse, inclusive vender uma filha como escrava, geralmente para pagar dívidas financeiras (cf. Ex 21,7). Quanto à(s) esposa(s), o marido não podia vendê-la(s) como escrava, mas, poderia repudiá-la(s), entregando-lhe(s) uma carta de divórcio (cf. Dt 24,1). Constituir família, portanto, não era apenas uma questão de um homem e uma mulher se realizarem no amor, gerando filhos, mas, também e em grande escala, era uma empreitada econômica: casar-se era a forma regular de um homem se dar bem na vida. Para a mulher, significava garantir sustento e amparo.

De fato, do ponto de vista da subsistência, a família israelita era também uma unidade produtiva, pastoril ou agrária, ou ambas. Nela, a esposa e os filhos e filhas eram a principal mão de obra, pois representava custo zero, como ainda acontece até hoje em muitas famílias rurais mais simples. Daí, quanto mais filhos, maior a possibilidade de aumento da produção e de riqueza, embora isso dependesse também de outros fatores, como o clima, as condições de comercialização dos produtos e, principalmente, o acesso à terra, maior meio de produção e fonte de riqueza. Sabe-se que esses fatores muitas vezes tornaram a vida em Israel muito dura.

A relação social em que o homem-patriarca exerce o poder de forma assimétrica sobre outros homens e mulheres, por seu status que o define como kyrios, baseada no patrimônio, é chamada de “kiriarcal”.[2] Por isso, é mais exato falar de família “kiriarcal” na Bíblia, mais do que patriarcal. Esse poder do homem era vitalício e passava para o filho mais velho, o primogênito, quando o patriarca morresse. Esse modelo de família, em que o homem é quem manda e pode fazer o que quiser, enquanto a mulher e os filhos lhe devem obediência irrestrita, é o que prevalece culturalmente em muitas sociedades, ainda hoje. Ele reforça o machismo e é retroalimentado por ele. Com as conquistas de direitos pelas mulheres e as mudanças nas relações intrafamilares, esse padrão cultural é simplesmente inaceitável hoje em dia.

Nesse contexto, fica claro que a família-padrão na sociedade israelita era aquela que possibilitava a geração de filhos. Isso só era possível por meio do casamento entre um homem e uma mulher. Não obstante, havia famílias vivendo situações à margem do modelo kiriarcal: casais sem filhos, como Abraão e Sara, no início (cf. Gn 15,2) e Zacarias e Isabel, também inicialmente (cf. Lc 1,5-7); mães criando seus filhos sozinhas, sem o pai, como a escrava Agar, mandada embora por Abraão, com seu filho Ismael (cf. Gn 16,1s) ou como Noemi, viúva, com seus dois filhos, que depois também morreram (cf. Rt 1,3.5.18-19); ou ainda como Tamar, nora de Judá, que usou de um expediente de prostituição para ter seu filho com o próprio sogro, sendo depois esquecida por este (cf. Gn 38). E os casos da mulher prostituída e da vítima de estupro? Será que os filhos nascidos dessa forma não tinham família? Claro que sim! É emblemático, nesse sentido, o caso de Raab, a prostituta cananéia que, por ter salvo a vida dos espiões israelitas em Jericó, foi poupada, com toda a família de seu pai, do extermínio na conquista da cidade. Não há dúvida de que seus descendentes puderam viver em paz no meio do povo de Deus (cf. Js 2,12; 6,25). Também ela e Tamar entraram na genealogia do Messias, onde Raab é apresentada como mãe de Booz, aquele que se casara com Rute (cf. Mt 1,5). Isso comprova que Deus não faz questão de seguir os cânones da sociedade kiriarcal.

A realidade hoje é bem diferente. Acima de tudo, isso se deve não apenas às descobertas científicas e inovações tecnológicas, mas, à mudança de paradigma que essas transformações acarretaram para as sociedades contemporâneas. Passou-se do paradigma sacralizado das sociedades pré-industriais, estáticas, tradicionais, agrícolas, patriarcais, autoritárias e heterônomas para o das sociedades dessacralizadas, industrializadas e de inovação.[3] Com isso, as instituições sociais também passaram por grandes e profundas transformações. No último século, sobretudo, a instituição familiar vem se configurando de formas diversas, com novos modelos de família, antes impensáveis. Como afirmamos anteriormente, algumas instituições que eram socialmente aceitas na Bíblia, hoje deixaram de ser praticadas. Por esse raciocínio, não nos parece acertado simplesmente adotar um modelo bíblico de família, que, como vimos, nem na própria Bíblia ficou livre de revisões e aplicá-lo, tal e qual, aos tempos atuais. O que continua perene, naquele tempo e ainda hoje, são os valores fundamentais da pessoa humana: a fé (como confiança no Absoluto, não como crença em doutrinas)[4], a vida, o amor, a fraternidade, a solidariedade, o respeito, o perdão, a justiça, a paz. Valores, enfim, que as histórias bíblicas querem, de forma bem concreta, nos ensinar, mesmo que, muitas vezes, nos pareçam estranhas.

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[1] Cf. ENCICLOPEDIA DE LA BIBLIA. 2. ed. Navarra: Verbo Divino; Madrid: Paulinas, 1987, p. 198.

[2]Kyrios” (grego): senhor, dono, proprietário. Cf. SCHÜSSLER-FIORENZA, 2009, p. 120.

[3] Cf. CORBÍ, Mariàn. Para uma espiritualidade leiga: sem crenças, sem religião, sem deuses.Trad.: Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Paulus, 2010, p. 177.

[4] Cf. CORBÍ, op. cit.

(Os grifos são nossos)

Sobre o autor:

servletrecuperafotoPaulo Sérgio Soares Possui Mestrado em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico (Roma, 1994) e Doutorado em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás, na linha de pesquisa da Religião e Literatura Sagrada (2015). É assessor no Centro de Geoprocessamento de Informações e Pesquisas Pastorais e Religiosas (Cegipar), que integra o Anima/PUC Minas – Serviço Avançado de Formação, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, onde atua como analista de pesquisas sobre religião. Também nessa instituição de ensino é colaborador do Observatório da Evangelização. Tem experiência de docência na área de Exegese e Teologia Bíblica, Teologia Pastoral e outras aplicações afins da hermenêutica bíblica, inclusive com artigos e livros publicados nessa área. Atua também como palestrante e assessor nestas e em outras áreas do campo religioso, como Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), missões / Santas Missões Populares, evangelização, espiritualidade, Teologia da Libertação, antropologia teológica etc. Tem experiência na área da Comunicação, tendo atuado por vários anos na Rádio América de Belo Horizonte, como apresentador ou co-apresentador de programa voltado para a evangelização. É professor em vários cursos do Serviço de Animação Bíblica (SAB), das Edições Paulinas. É assessor pastoral no Vicariato Episcopal para a Ação Pastoral (VEAP), da Arquidiocese de Belo Horizonte.

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