jc
                               José Comblin 1923-2011

O Evangelho inaugura uma fase da história da humanidade em que os homens e as mulheres não se definem por uma cultura, nem por uma civilização, nem por uma estrutura social, mas por um movimento de libertação, de transformação e de superação.” José Comblin

Em sintonia com a Evangelii Nuntiandi de  Paulo VI, o Pe. José  Comblin era incansável no repetir: “evangelizar é o centro da missão da Igreja; ela existe para evangelizar“. A clareza solar da afirmativa desse renomado teólogo, que doou praticamente toda a sua vida a evangelização no Brasil, provocava a pergunta central da temática: mas, o que é evangelizar?

Com lucidez profética, Comblin nos ensinava que evangelizar é a ação de anunciar, testemunhar e encarnar, diante do clamor existencial suscitado em determinado contexto histórico, a resposta libertadora discernida à luz do Evangelho, pois, Deus quer chegar, com seu amor de Pai, ao coração de todos os homens e mulheres e transformá-los, amorosamente, em irmãos e irmãs para a convivência fraterna, numa caminhada pautada pela prática da justiça, da inclusão social dos marginalizados e empobrecidos, da misericórdia e conversão ao projeto de Deus. Trata-se de uma boa notícia da parte de Deus, em primeiro lugar, para quem, apesar de filho/a amado/a, é julgado ou se julga totalmente abandonado, perdido ou em trevas (cf. Mt 4, 16). O amor universal começa desde os últimos.

Para os diversos evangelhos, Jesus mesmo, em pessoa, é o conteúdo da boa nova de Deus para a humanidade. Isso porque ele, o evangelizador por excelência, encarnou de forma plena, por ensinamentos e práticas proféticas, a mensagem libertadora de Deus: o Reino está no meio de nós como um fermento transformador, abram o coração, acolham e convertam-se a essa boa notícia.

Podemos distinguir, de certa forma, três níveis de aprofundamento na compreensão de evangelização da parte dos discípulos: primeiro, no nível mais geral, evangelizar é anunciar o Evangelho de Deus, em cada tempo e lugar, como o fez Jesus em seu tempo (cf. 1 Cor 9, 16); segundo, para os próprios evangelhos, esse anúncio tem um conteúdo claro: a pessoa de Jesus, com seus gestos proféticos e ensinamentos, o enviado do Pai para fazer a vontade divina (cf. Mc 1,11; Lc 3, 22). Por isso os evangelhos anunciam Jesus como aquele que concretiza o Reino de Deus; terceiro, evangelizar é o mesmo anúncio, feito por Jesus, do advento do Reino do Pai, enquanto convite a conversão e acolhida do dinamismo transformador que promove, pela presença do Espírito Santo, o projeto salvífico do Pai e provoca a busca de vida em plenitude para todos, sobretudo, para quem está excluído da mesa da dignidade (cf Jo 10,10).

Nas palavras de José Comblin:

Jesus não veio fundar uma religião nova e sim salvar e levar à sua plenitude as religiões, as filosofias, as sabedorias de todos os povos… Ele anuncia a todos a libertação de todas as formas de dominação e escravidão que há em todas as religiões, todas as filosofias, todas as sabedorias… O Evangelho é a resposta do Pai ao clamor, implícito ou explítico, de cada povo que pede, suplica e aspira pela libertação.

Olhando mais de perto, percebemos que o projeto de evangelização é compreendido como projeto de Deus para a transformação da humanidade: primeiro, o Pai cria, em Cristo, pela força do Espírito Santo, a humanidade com um projeto salvífico universal; segundo o Pai envia, pela força do Espírito Santo, o Filho, que mostra o sentido último da criação e o caminho que concretiza o projeto salvífico do Pai pela prática do amor fraterno, da misericórdia e da justiça; terceiro, Pai e Filho enviam sobre nós o Espírito Santo para que tenhamos a coragem de discernir e a força para concretizar o projeto salvífico de Deus.

Segundo Pe. José Comblin:

Jesus não quis formular uma expressão única e definitiva da sua mensagem. Ele quis que os discípulos aplicassem o seu Evangelho às diversas situações em que se encontrassem. Importante lição para nós!“, pois, desse modo, podemos dizer que “o Evangelho tem um sentido particular e próprio para cada pessoa , com mais razão ainda para cada grupo, povo e civilização“.

Podemos dizer, então, que a tarefa do evangelizador cristão é a de encontrar, pela luz e força do Espírito Santo, no Evangelho de Deus, encarnado na vida de Jesus Cristo, a resposta concreta e vivencial aos apelos de libertação das pessoas, sempre inseridas dentro de um contexto, das quais acolhemos o clamor, damos atenção às aspirações mais profundas e nos fazemos fraternalmente próximos em sua realidade concreta (cf. Lc 10, 25-37).

Edward Guimarães

Secretário Executivo do Observatório

Referência:

COMBLIN, José. Evangelizar, São Paulo: Paulus, 2010.

Anúncios