(Primeira Parte)

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Antoniazzi e Igreja: dois nomes que soam bem próximos

Por João Batista Libanio

Não o compreendo a não ser metido na múltipla tarefa de pensar uma eclesiologia atualizada, os ministérios condizentes com ela e os leigos envolvidos numa pastoral viva. Sua obra se ilumina com base em opções fundamentais feitas por ele na sua vida. Italiano, milanês de nascimento, consagrou-se ao Brasil. Primeiro ponto esclarecedor. Veio jovem e mergulhou com generosidade numa realidade que não era sua. E talvez por isso a tenha conhecido melhor que muitos brasileiros. A distância de nacionalidade permitiu-lhe um olhar crítico que é dificultado pela proximidade nativa.

Conservou um traço de erudição e cultura italianas que lhe possibilitou comparações enriquecedoras. Visitava com frequência a Itália, de onde trazia informações teóricas e práticas sobre a vida da Igreja, adquiridas pela riqueza de contatos mantidos. Com uma bagagem teológica sempre renovada na preciosa fonte europeia, adentrava-se na realidade pastoral. Conhecia como ninguém os meandros da vida eclesiástica brasileira por meio de longa assessoria na CNBB. Na Arquidiocese de Belo Horizonte, seu conhecimento circulava por curvas pouco conhecidas.

Intérprete agudo de dados estatísticos

O Pe. Alberto, por mais que valorizasse os contatos e os conhecimentos da realidade pela via da experiência concreta, desconfiava, porém, de certo primitivismo pastoral. Por isso, visitava assiduamente pesquisas sobre a vida religiosa e civil do povo brasileiro, sobre as radiografias espirituais e sociais das cidades. Interrelacionava com maestria esses dois tipos de conhecimento. Os seus trabalhos manifestam constante preocupação com um duplo movimento. Hauria, quanto podia, reflexões teológicas e pastorais dos dados empíricos das pesquisas que frequentava. Mas também buscava neles a justificativa de posições teológicas bebidas em fontes de livros. A circularidade entre dados estatísticos e considerações teológico-pastorais atravessa praticamente toda sua obra. Daí lhe vêm consistência e atualidade, superando os simplismos comuns aos pastoralistas apressados.

Não é fácil manejar dados estatísticos. O Pe. Alberto possuía excelente capacidade e crescente preparo nessa tarefa. Seu último livro, publicado poucos dias antes de sua morte (ANTONIAZZI, A. et al. Nem anjos nem demônios: interpretações sociológicas do Pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.), manifesta eximiamente esse seu perfil intelectual próximo dos dados e lúcido nas explicações e conclusões pastorais.

Ao referir-se ao Censo 2000 do IBGE, estranha como teólogos e homens de Igreja não se debruçaram sobre ele para retirar lições dos números. Um primeiro dado salta aos olhos. O Brasil, que em 1970 era um país em que a religião católica monopolizava crenças e atitudes religiosas, começa, a partir de 1980, um processo crescente de diversificação religiosa, a ponto de, em 2000, a cota de católicos cair para 73,9%. Cresceram as igrejas evangélicas e os “sem religião”, e Rondônia e o Norte do País atingem as maiores taxas de diversidade assim como o Rio de Janeiro e o Espírito Santo. As regiões metropolitanas sofrem bem mais o impacto de tal fenômeno. Antoniazzi estuda minuciosamente o mapa religioso do País.

Diante dele armou hipóteses. O tamanho das paróquias urbanas, mais extenso do que a já alta média nacional, o esgotamento prematuro das forças físicas e espirituais do clero dificultam atendimento adequado dos fiéis. A freqüência dos 20% a 30% dos católicos permite ao clero a sensação de um serviço absorvente, vedando-lhe preocupar-se com as exigências do público potencial e assumir tarefas inovadoras. Numa palavra: o problema pastoral urbano se agrava porque os padres se restringem e se satisfazem com o número dos fiéis que já frequentam as igrejas. Uma vez que eles consomem com a parcela praticante toda a energia disponível, carecendo então de criatividade e renovação pastoral. Faltam à Igreja católica dinamismo, capacidade de mobilização e estratégia de evangelização que as igrejas pentecostais e neopentecostais têm e por isso crescem muito mais rapidamente. Além disso, observa Antoniazzi, citando Ricardo Mariano, que o pentecostalismo aproveita das raízes religiosas populares, como a crença em Jesus, demônios, milagres, mitos bíblicos, pecado, curas, intervenções sobrenaturais, feitiçarias, concepções escatológicas. Servem-se também de técnicas de marketing e de cunho empresarial.

Em outros estudos sobre o mesmo Censo 2000, ele levanta a suspeita de que, sob o rótulo de católico, se esconde dupla ou mais pertença dos fiéis a outras expressões religiosas. Isso se conjuga bem com a tendência geral da modernização dos hábitos da população brasileira na direção do crescimento do individualismo e do subjetivismo que se manifestam na desinstitucionalização da religião e na conseqüente privatização das suas formas. Cresce a religiosidade do povo brasileiro, e diminuem as práticas das religiões institucionais. Há mais expressões religiosas que as pessoas podem escolher, não seguindo a religião antes praticada por tradição familiar. Isso traz a consequência positiva de que os católicos praticantes o fazem por convicção e já não simplesmente por inércia cultural.

Antoniazzi, com os dados estatísticos, refuta a posição de certos conservadores que acusavam as CEBs e a Teologia da Libertação pela politização da fé e, por conseguinte, pela queda da frequência religiosa. Três dados desmentem tal afirmação: onde as CEBs estão mais ativas aí a presença católica se conserva melhor, os anos de maior êxodo da Igreja não coincidem com o tempo forte da Teologia da Libertação, mas com o da Renovação Carismática e dos padres cantores, pop-stars de televisão, e, finalmente, acrescenta ele, o Rio de Janeiro, que teve uma pastoral conservadora e centralizada, arredia à libertação, foi onde a queda de frequência católica se fez mais expressiva.

Em outro momento, debruçou-se sobre o fenômeno pentecostal e neopentecostal, que, a partir da década de 1980, começou a preocupar a Igreja, depois que ela deixara o túnel escuro da repressão. Ademais, observa ele, esfriara o interesse do episcopado e das dioceses pelo diálogo ecumênico. E tal afirmação vinha confirmada por uma pesquisa interna da CNBB que constatava o ecumenismo não ser prioridade nos planos pastorais em nenhuma diocese. Percebeu que sociologicamente a expansão do pentecostalismo é fruto de uma conjuntura sociocultural que afeta toda a sociedade brasileira e, nela, a própria Igreja católica. Esses mesmos fatores que “favorecem a expansão do pentecostalismo criam o terreno propício ao crescimento da Renovação Carismática Católica, a qual – apesar das diferenças doutrinais ou teóricas – apresenta na prática fortes analogias com o pentecostalismo de matriz protestante”. Esses rápidos flashes dos estudos de Antoniazzi mostram seu interesse e acuidade em analisar os dados estatísticos em relação com a pastoral.

Há escritores que se resumem na vida ao que publicaram. Sua presença e influência reduzem-se aos escritos. Atingem até lá onde chegam as letras lidas. O Pe. Alberto é bem diferente. Deixou o legado escrito que continuará sua presença entre nós, como escritor. Tornar-se-á, esperamos, objeto de pesquisa sobre a vida da Igreja do Brasil e, de modo especial, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Excelente campo para dissertações e teses. Que algum estudante se anime!

Mas ele foi também homem incansável de reuniões de pastoral. E nelas, com a maior naturalidade e inteligente sagacidade, punha-se a secretariar. Nesse trabalho pesado e cansativo, marcava com sua pena culta os textos que se iam redigindo. Nunca se conseguirá saber realmente o alcance da presença de seu pensamento nas atas, na redação dos documentos da CNBB, na seleção e incorporação das emendas dos bispos, na produção dos subsídios do Projeto Pastoral Construir a Esperança e na preparação e realização das Assembleias do Povo de Deus (APD) na Arquidiocese de Belo Horizonte. Embora já enfermo e não tivesse estado presente na II APD, deixara na preparação marca indiscutível.

Incansável também foi a sua presença em outra instituição importante da Igreja: Instituto Nacional de Pastoral da CNBB. Organizou cursos para bispos, produziu trabalhos de qualidade assessorou encontros diversificados de pastoral, colaborou na publicação de documentos e estudos da CNBB. Em todo esse longo período de atividade, a pessoa do Pe. Alberto esteve presente e ativa. Nada praticamente se fez sem que ele desse alguma contribuição.

Se, usando a metodologia alemã clássica de exegese, lermos a vasta publicação oficial e oficiosa da Igreja do Brasil e de Belo Horizonte das últimas décadas, analisando-a quanto à história da tradição, da forma e da redação, encontraremos o Pe. Alberto presente nos três momentos. De sua cabeça, nasceram muitas das ideias (história da tradição); de seus múltiplos textos-rascunhos, teceram-se documentos-base (história das formas) e, por fim, por meio do seu retoque redacional (história da redação), elaborou-se sua redação final. Unicamente um estudo bem pormenorizado das camadas dos textos, talvez muito difícil, se não impossível, possibilitar-nos-ia perceber a influência decisiva do Pe. Alberto. Só o testemunho de muitos de nós que trabalhamos com ele em certos momentos da produção dos textos permitirá dar-nos conta de sua relevância. Dom Celso, ex-secretário-geral da CNBB e atual vice-presidente, afirma que “com exceção das Diretrizes da Ação Evangelizadora de 1975, ele (Pe. Alberto) participou das redações de todas as outras produzidas nessas últimas décadas”.

Fonte:

Revista Horizonte

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