(1ª Parte)

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Peregrino da esperança: Alberto Antoniazzi

Por Mauro Passos

A atuação de Alberto Antoniazzi foi muito significativa para o catolicismo brasileiro. Chega em Belo Horizonte no ano de 1964, em pleno período do Concílio Vaticano II, época de grandes transformações no campo religioso católico. O cenário religioso brasileiro abrigou muitas mudanças, questionamentos e chega aos anos 1970 com uma ousada reflexão e posição. Transcrevo uma observação feita por ele no livro de K. Rahner, Vaticano II:

Fica nítido, nesse período, o impulso renovador do catolicismo brasileiro. Movimento interno e externo revelador de busca de reconstrução da própria identidade e presença na sociedade brasileira. Momento para se repensar a vida e a atuação da Igreja à luz das grandes Constituições sobre a Revelação, a Liturgia, a Igreja, a Igreja no mundo de hoje. Nunca, talvez, na história, ocorreu tão sério exame de consciência, visando despojar-se de tudo a favor da pureza do evangelho. Onda de seiva vigorosa. (RAHNER, 1966, p. 6-7)

Em vários encontros e palestras, podia-se ouvir do Antoniazzi a referência ao Concílio. Para ele, esse acontecimento, por si só, era bastante significativo. Esse livro está cheio de observações, notas, citações de documentos. Era leitor e estudioso de grandes expoentes da teologia e comentadores do Concílio Vati- cano II. Em outra folha, faz a seguinte observação:

“Paulo VI traz duas novidades. Uma interna – a instituição do Sínodo dos Bispos – e outra externa – a aceitação de visitar a sede da ONU, no XX aniversário de sua fundação”.

Esses escritos já assinalam sua capacidade analítica de compreender cenários intra e extra-eclesiais.

Em sua produção científica e intelectual, pode-se perceber grande relação entre história, sociedade, experiência vivida e religião. Suas reflexões sobre religião estavam sempre em diálogo com os aspectos sociais e culturais. Os sinais mais nítidos dessa aproximação estão nos seus últimos escritos. Era um peregrino da cultura. Seu percurso cultural demonstra que lia obras diversas – História, Sociologia, Economia, Literatura, Filosofia etc. A Livraria Paulus, na PUC Minas, era sempre visitada, como também a biblioteca. Sua biblioteca é uma verdadeira história de vida. As obras que deixou e os registros de sua experiência constituem variada e rica fonte de informação. As anotações pessoais permitem outra leitura e se tornam, assim, fonte de estudo e pesquisa. Além dos livros, assinava várias revistas, jornais e possuía grande número de separatas. Lia (e falava) em várias línguas modernas, como conhecia bem o latim e o grego. Valho- me, neste momento, de uma citação de Clarice Lispector que afirma: “Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho”. Era um leitor ativo e metódico. A presença e os gestos de Alberto Antoniazzi eram como coisa viva, atuante e dinâmica. Daí seu interesse por qualquer tempo – o de ontem e o de hoje. Buscava o humano em sua inteireza. Era alguém em busca do significativo. Essa era sua nota característica como professor, intelectual, pensador e religioso. Soube assimilar esse lugar movente e suas diferentes mediações. Conjugava sua grande capacidade intelectual com disponibilidade para o serviço e para a simplicidade.

Completando esse quadro, é importante afirmar que, em seu ambiente de trabalho, estavam fotos de família e outros objetos carregados de representação. Lembro-me de que, em fevereiro de 2001, me mostrou a foto e um cartão de uma criança que sua família adotara. Sua mesa, computador, estantes, pastas com- punham o seu trabalho. Compareciam no dia-a-dia para ajudar a recompor esse ambiente, como se estivessem aguardando seu dono. E, assim, com simplicidade, hospedavam-no no silêncio.

Na sua busca e na construção das palavras. O folheamento de vários significados seriam tecidos em palavras, artigos, projetos, pesquisas, livros e leituras.

A esta altura, penso já ter indicado suficientes provas sobre esse jovem italiano/brasileiro. Estava sempre aberto ao diálogo. Forma de estreitar relações com o outro, o mundo, o diferente. Com um conjunto de qualidades humanas, impressionava a todos. Conseguia revelar a densidade contida em suas ideias e em seus projetos. De forma especial, Alberto Antoniazzi projetou-se e tornou-se fonte para o estudo do catolicismo brasileiro. Isso se deu pelo seu empenho em construir um conhecimento capaz de historiar um período da Igreja no Brasil e instrumentalizar as ideias necessárias à aceleração do tempo. É uma figura marcante, tanto na Igreja de Belo Horizonte quanto em nível nacional. Nos últimos 30 anos, os documentos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) têm a força de seu pensamento. Para ilustrar esses dados, Alberto Antoniazzi faz o seguinte comentário em um trabalho que escrevemos juntos:

A mentalidade religiosa no limiar do novo milênio não é mais a dos anos 1970 e 1980, que deram origem, no Brasil, a uma intensa renovação bíblica e litúrgica. Cresceram, nas pessoas, o individualismo, o subjetivismo, o emocionalismo. Enfraqueceu-se o sentido da história da salvação. Predomina, como critério determinante das escolhas religiosas, o gosto pessoal. […] Daí alguns desafios para os nossos programas de evangelização. […] Afinal, tudo isso não estará separado do esforço a que a Igreja é chamada hoje (e sempre mais no futuro) a fazer, testemunhando a mensagem evangélica na plena fidelidade à pessoa de Jesus e ao projeto de Deus, mas de forma e com uma linguagem que a torne significativa para as novas gerações e a nova cultura, pluralista e dinâmica, que o início do Terceiro Milênio cristão anuncia. (PASSOS, 1999, p. 207-208)

Mais que julgar, ele tenta interpretar o tempo presente, resultante de condicionamentos e da vontade e do poder de ação das pessoas. Procura entender o social e o cultural e a influência que exercem na experiência religiosa.

Fonte:

Revista Horizonte

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