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A Igreja do Brasil perdeu, há 11 anos, no sábado de Natal, um de seus maiores expoentes: padre Alberto Antoniazzi. O Observatório da Evangelização em homenagem a ele, reproduz aqui, uma matéria especial publicada pelo Jornal de Opinião, com palavras nascidas nos corações de pessoas que com ele conviveram de perto e que o trazem em um lugar especial: no coração.

67 anos de vida, 40 de Brasil

Padre Alberto faleceu no dia 25 de dezembro, às 9 horas da manhã, no Hospital Madre Tereza, em Belo Horizonte, aos 67 anos. Italiano, nascido em Milão, em 17 de junho de 1937, padre Alberto era teólogo e estudioso de temas da religião, tendo sido assessor especial da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil nas últimas três décadas. Respeitado por bispos e teólogos de todo o país, teve participação central nos principais documentos publicados pela CNBB durante esse período.

Na Arquidiocese de Belo Horizonte, onde chegou em 1964, aos 27 anos, jovem italiano vindo de sua terra natal, padre Alberto destacou-se por sua inteligência e capacidade de coordenar projetos, pesquisas, iniciativas pastorais e, sobretudo, por sua capacidade analítica de compreender os cenários intra e extra-eclesiais.

Ao lado de seu permanente trabalho junto aos bispos, na CNBB, assumiu importantes funções nas áreas de formação e coordenação pastoral na Igreja de Belo Horizonte. Foi professor de teologia no Seminário da Arquidiocese, vice-reitor da PUC Minas nos anos 80 e a partir de 1990 dedicou-se inteiramente ao Projeto Pastoral Construir a Esperança (PPCE). As iniciativas nas áreas de ação pastoral e evangelizadora, particularmente os subsídios de formação para sacerdotes e leigos do PPCE, inspiraram os projetos “Rumo ao Novo Milênio” (1998-2000) e “Ser Igreja no Novo Milênio (2001-2003), da CNBB. Atualmente, padre Alberto era professor e diretor do Curso de Teologia da PUC Minas. Até o início de dezembro, mesmo doente, respondia pelo cargo de secretário executivo do PPCE.

Padre Alberto, nas palavras dos amigos:

NASCEU!

O sol já brilhava forte naquela manhã das celebrações e alegrias do Natal. Era 25, a manhã do Natal do Senhor. A esperança e a certeza de que “nasceu para nós um menino”, o Cristo e Senhor, ambientaram a notícia de que para ele havia nascido, definitivamente, passando pela irmã morte, nosso querido padre Alberto Antoniazzi.

As alegrias do tempo se acocharam nos limites estreitos do coração, como toda vez acontece quando se perde, particularmente quando se perde alguém que marcou vidas, fez história, amou e serviu com sua inteligência à missão evangelizadora da Igreja, de modo muito especial, em nossa amada Arquidiocese de Belo Horizonte e no Brasil.

Partiu aquele que sempre acolheu a todos, orientou a muitos, deu sustento a tantos, sendo terno e compassivo com os mais pobres, na mansidão de sua voz, com seu jeito discreto, pela agudeza de sua inteligência e pela força penetrante do seu olhar.

A perda é enorme com a partida do padre Alberto. No ar paira algum medo, temendo pela continuidade diante da grandeza de tanto trabalho prestado, ao se ter presente os horizontes abertos, as trilhas palmilhadas apontando a muitos e em muitos lugares os rumos novos de cada tempo, a tantos assegurando uma leitura correta para garantia dos passos novos.

É uma voz que não mais será ouvida! Um rosto que não mais será contemplado! Uma novidade de leitura e de interpretação, para estes caminhos novos, que não mais poderá ser esperada. Pode parecer o fim. Contudo, não é. Vale agora o que vale a vida de todos os que se oferecem, por amor e com fidelidade, na força dos carismas que de Deus receberam. Ele deixou-nos, para sua amada Igreja, uma inesgotável herança. Uma herança que o inscreve, com letras de ouro, na memória grata do coração da Igreja do Brasil. Capítulos variados, perspectivas múltiplas, escritos com porte de contemporaneidade, assessorias que permanecem atualizadas, métodos de trabalho que se tornaram escola compõem o inesgotável dessa herança. Resta aos que a receberam fidelidade, com ternura e simplicidade, especialmente neste tempo em que as sombras que estreitavam o humano passaram. Cada tempo com sua oferta, com sua riqueza. Agora é o novo tempo de fecundação. Uma fecundação que a fé garante ser feita com a invisibilidade da presença, jamais com a ausência de quem está em Deus, garantia invisível da presença.

O caminho continuará. Com a herança deixada, os tempos novos serão fecundados. A fidelidade das respostas é que gerará o novo que vai nascer do grão de trigo caído na terra, garantia da produção dos novos frutos que virão. A nuvem de tristeza que entremeou o sol brilhante do Natal, naquela manhã, vai clarear, sempre mais lucidamente, os dias vindouros. Todos reconhecerão que nunca alguém tenha se oferecido em vão e nem a morte, a doce irmã morte que chega para todos, cedo ou tarde, venceu definitivamente.

Dos corações agradecidos, para perpetuar a memória, com ternura, brotará, como canto novo, um louvor, dizendo: “Obrigado padre Alberto! Descanse em paz até nosso novo e definitivo encontro no coração amoroso do Pai, para acompanharmos, sustentando, em cada tempo por mãos diferentes, a missão evangelizadora de nossa Igreja, no desejo ardente e no permanente empenho de sermos, agora e depois, a Igreja Viva, Povo de Deus em Comunhão”.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo – Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

Doação à Igreja e aos pobres

Ao pensar em padre Alberto, penso imediatamente no sentido da doação. Doação de uma vida inteira à Igreja e doação aos mais pobres. Durante os 40 anos de presença na Arquidiocese de Belo Horizonte, mostrou-se sempre disponível e pronto para colaborar naquilo em que fosse chamado. Padre Alberto jamais me negou qualquer coisa, qualquer de meus pedidos e solicitações. Recentemente descobri que padre Alberto nunca negou nada a ninguém, especialmente aos mais pobres. Tudo que ele ganhava dividia com os pobres. E isso quase ninguém sabia.

Padre Alberto desempenhou um papel fundamental na formação e atualização sacerdotal, tanto na Igreja de Belo Horizonte quanto em nível nacional. Era presença constante nos Encontros Nacionais de Presbíteros. Sempre morou no seminário arquidiocesano e foi braço direito dos reitores. Desde 1990 esteve inteiramente dedicado ao Projeto Pastoral Construir a Esperança. Eu diria, na verdade, que padre Alberto foi a mente e o coração do PPCE.

A Igreja no Brasil lhe deve muito. Muitíssimo! Todos os documentos da CNBB, nos últimos 30 anos, têm a participação de padre Alberto. Seu trabalho no PPCE, inclusive, inspirou a CNBB nos projetos de evangelização nos períodos de 1998-2000 e 2001-2003.

Da mesma forma como ele conseguia mobilizar a Igreja através de seus pensamentos e palavras, também agora, com sua morte, ele conseguiu sacudir o país inteiro. Desde o dia de sua morte, venho recebendo mensagens e telefonemas dos quatro cantos do Brasil, de pessoas que o admiravam, que o tinham como amigo, que lhe queriam bem.

Vejo sua partida, no dia de Natal, como um gesto de ternura de Deus. Assim como o Pai presenteou o mundo com seu Filho, no Natal, assim também, padre Alberto, que sempre foi só doação, foi o presente de Natal que o mundo devolveu a Deus.

Cardeal Dom Serafim Fernandes de Araújo – Arcebispo Emérito de Belo Horizonte

Doação na alegria e gratuidade

Conheço padre Alberto Antoniazzi desde 1978, quando era diretor do Departamento de Filosofia e teologia da PUC Minas. Tive a felicidade de cursar teologia enquanto ele foi o diretor do departamento e professor de diversas disciplinas.

Sempre o admirei muito pela sua inteligência, amplo conhecimento e domínio em todas as disciplinas. Tive o privilégio de tê-lo como meu orientador de estudos e do trabalho de síntese para o bacharelado em teologia. Sempre cordial, prestativo, sábio, disponível e muito crítico, isso me infundia muita confiança e segurança.

Em todos os projetos apostólicos do Serviço de Animação Bíblica, dava com alegria suas contribuições e valiosas sugestões. Padre Alberto, sou muito agradecida pela sua vida doada na alegria e gratuidade. O seu testemunho ficará impresso na nossa memória e no nosso coração. Com certeza, você está na LUZ de Deus e continua irradiando sobre nós a sua presença amiga, terna e firme.

Ir. Romi Auth, fsp

Inteligência, serviço e humildade

O que posso dizer sobre padre Alberto Antoniazzi, em primeiro lugar, é que, da segunda metade do século passado para cá, principalmente a partir da década de 1970, não houve nenhum padre a quem a Igreja Católica no Brasil deva tanto. Digo isso porque acompanhei de perto a participação dele nos trabalhos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), nos principais momentos de reflexão e redação dos mais importantes documentos produzidos nesse período.

Com exceção das Diretrizes da Ação Evangelizadora de 1975, ele participou das redações de todas as outras produzidas nessas últimas décadas. Ele também ajudou a produzir a Coleção de Estudos da CNBB e participou bastante do trabalho do Instituto Nacional de Pastoral. Padre Antoniazzi também foi quem mais escreveu sobre a vida religiosa no Brasil, nos últimos dez anos. A problemática dos presbíteros no Brasil era um tema recorrente em seus estudos e artigos. Durante 30 anos, desde 1972, tive o prazer e a graça de passar o carnaval junto com padre Alberto, numa casa que minha família tem na Praia Grande (SP). Nas nossas caminhadas diárias, falávamos dos problemas que afligiam a Igreja e o Brasil como um todo. Na maior parte do tempo, no entanto, ficávamos trabalhando, fazendo um dos esboços do texto do tema central da Assembléia Geral dos Bispos.

Quando falava sobre padre Antoniazzi com algum amigo, eu sempre dizia que não conhecia uma pessoa com uma capacidade intelectual tão grande e, ao mesmo tempo, tão serviçal e humilde. A gente até conhece gente de grande inteligência e outros com muita disposição para o serviço e humildes, mas que congreguem essas duas qualidades é bem difícil. Com a morte de padre Antoniazzi, a Igreja no Brasil perde o seu maior teólogo pastoralista.

Durante o período de evolução de sua doença, visitei padre Alberto Antoniazzi por duas vezes, em Belo Horizonte. Três dias antes dele morrer, telefonei-lhe e tivemos uma das conversas mais breves e profundas que já me ocorreram. Cumprimentei-o e ele respondeu com uma voz fraca. Disse que queria que ele me sentisse ao seu lado, mandei-lhe um beijo no coração e despedi-me, porque não queria cansá-lo. Ele também se despediu e foi nosso último contato.

Dom Antônio Celso Queiróz – Vice-presidente da CNBB e bispo de Catanduva (SP)

Caminhamos juntos

Conheci padre Alberto Antoniazzi em 1965, no dia de sua ordenação presbiteral. Convivi com ele no seminário, de 1966 a 1970. Houve um partilhar de convivência e trabalho maior a partir de 1970, quando residimos na pequena Comunidade de Formação Sacerdotal.

Em 1976 e 1977, trabalhamos juntos na equipe de formação do Seminário Coração Eucarístico de Jesus. Nossos laços de amizade foram estreitando-se com o passar do tempo. Ano passado, após a primeira cirurgia, pediu para residir comigo na Casa Paroquial.

Durante todo esse tempo, posso testemunhar seu amor pela Igreja, manifestado em sua disponibilidade total para os serviços na CNBB e na Arquidiocese de Belo Horizonte. Nota marcante foi seu despojamento de bens materiais e, sobretudo, a ajuda aos necessitados. Deixa-nos como herança o exemplo de sua disponibilidade e gestos de caridade para com todos.

Monsenhor Éder Amantéa

Lucidez, labor e leveza

Deus o agraciou com um conjunto harmônico de qualidades humanas, ao lado de profunda espiritualidade cristã. Amigo simples, direto, de muita ajuda. Conviver com ele era um prazer. Unia a laboriosidade de filho de Milão com a leveza das terras tropicais.

De incansável atividade produtiva, deixou atrás de si muito mais escritos do que os que lhe levam o nome. Escriba fiel e humilde, escondeu-se com sua autoria intelectual atrás de muitos documentos da Igreja do Brasil. Toda ela lhe deve grandemente em seus últimos planos, projetos e diretrizes.

Lúcido e fino, propunha posições avançadas na pastoral de tal maneira transparente e evangélica que conseguia obter amplos consensos. Até os últimos dias de vida, extremamente fragilizado, permanecia contudo aceso e atento à vida da Igreja a qual consagrou o melhor de suas energias. A sua herança espiritual permanece luminosa, sobretudo para a Igreja de Belo Horizonte, quando ela enceta novo momento da sua trajetória pastoral.

Padre João Batista Libanio

Amigo bem- humorado

Gostaria de relevar o senso de humor de nosso amigo. Ambos missionários da Fidei Donum – ajuda de padres diocesanos ao Terceiro Mundo – nos conhecemos num encontro de universidades católicas em 1974, aqui em Belo Horizonte. Eu trabalhava na PUC de Porto Alegre. Ele me disse: “Você deveria vir trabalhar conosco”. Eu respondi: “Estou vendido aos gaúchos”. O assunto morreu por aí. Doze anos depois, fui mandado ao ISI, escola dos jesuítas, em Belo Horizonte, porque havia passado do clero diocesano para os jesuítas. Comentário do nosso amigo: “O preço foi alto, mas, afinal, você veio para Belo Horizonte…”.

O humor revela a sabedoria, a distância do imediato, a capacidade de relativizar. Por isso, nosso amigo não titubeou diante da morte. Continuou vivendo com a maior normalidade possível até o fim. Na antevéspera de Natal, sabendo que sua hora havia chegado, ele me perguntou a respeito das colaborações para um livrinho sobre o Concílio Vaticano II.

Sobre pessoas que se descuidam, ele me dissera uma vez: “Há pessoas que não querem viver”. Ele queria viver, para servir. Morreu servindo.

Padre Johan Konings, SJ

O teólogo dos bispos

A primeira vez que o vi – já o conhecia de nome e de algum texto – foi aqui no Paraná, se não me engano, na Diocese de Ponta Grossa, por ocasião de um encontro de formadores, quando ele era presidente da OSIB – Organização dos Seminários e Institutos Filosófico-Teológicos do Brasil. Isso foi lá pelos idos dos 70. Encontrei-o depois em Belo Horizonte, durante um curso de atualização em filosofia moderna ou contemporânea. O padre Antoniazzi – muitos não o sabem – era doutor em filosofia pela Università Cattolica del Sacro Cuore, de Milão. Na verdade, Antoniazzi transitava tão bem pela Sagrada Escritura, pela teologia, pela história, pela sociologia, pela filosofia, que era fácil enganar-se quanto à sua formação acadêmica. Depois disso, encontramo-nos em diversas outras ocasiões, em diferentes lugares.

O que considero mais admirável no padre Antoniazzi foi o seu serviço à Igreja no Brasil através da CNBB, especialmente à frente do Instituto Nacional de Pastoral. Foram vinte anos – pouco mais, pouco menos, não sei – de uma assessoria fecundíssima. Penso nas Diretrizes da Ação Pastoral da Igreja no Brasil, transformadas, na década dos 90, em Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil. Percorro mentalmente os inúmeros documentos que a CNBB publicou neste período sobre os mais diversos assuntos… Penso nos Projetos de Evangelização – o Rumo ao Novo Milênio e o Ser Igreja no Novo Milênio – com sua fundamentação multidisciplinar, suas propostas descortinadoras de amplos e novos horizontes, suas indicações de ação que não se esgotavam em atividades, mas geravam novos dinamismos. Não me canso de contemplar a riqueza do material subsidiário a esses dois projetos, elaborado por pessoas da maior competência e sempre passado pelo crivo do padre Alberto Antoniazzi e do padre Manoel de Godoy. Ainda vejo os dois, sentados à mesa da minúscula salinha, na verdade, potente laboratório, do Projeto na CNBB, confabulando, discutindo, revendo, pondo por escrito suas intuições, costurando sugestões vindas de toda parte… E em tudo isso – textos de estudo, relatórios de pesquisas, diretrizes, documentos, projetos, subsídios – esteve sempre presente o padre Antoniazzi. Suas mãos (demorou anos para aderir ao computador), suas melhores energias, sua mente, seu coração.

Nunca ouvi o padre Antoniazzi atribuir a si este ou aquele documento da CNBB – um parágrafo que fosse – para cuja redação seu papel fora, porém, decisivo. Ele trabalhava para uma conferência episcopal, ele trabalhava para a Igreja, deixando-se diminuir para que ela crescesse (cf. 3, 30). Antoniazzi sempre foi superior aos arabescos da estrutura ministerial da Igreja. Ele sabia que o ministério é muito mais essencial e, mesmo fundado sacramentalmente, totalmente funcional. A vida para ele era dom, dom recebido de Deus e dos irmãos, dom devolvido a Deus e aos irmãos, em Cristo Jesus (cf. Rm 6, 10-11), morto pela mesquinhez dos homens, morto para o bem dos homens, ressuscitado em glória (cf. Cl 3, 4) para nunca mais morrer.

Padre Antonio José de Almeida – Diocese de Apucarana – PR

Fonte: 
Matéria publicada na edição 815 (10 a 16 de janeiro de 2005) do Jornal de Opinião

 

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