imagem para rede de comunidades Paróquia S. Domingos

Paulo Sérgio Soares

Nos relatos, testemunhos e entrevistas sobre a caminhada de evangelização da Paróquia São Domingos, em Contagem, MG, levantados pelo Observatório da Evangelização, destacaria dois aspectos que, após 29 anos de ministério pastoral exercido em várias paróquias da Arquidiocese de Belo Horizonte, vi se consolidarem como imprescindíveis para que a organização paroquial passe de uma mera estrutura burocrática, fria, isolada e impessoal, para um instrumento vivo e eficaz de evangelização.

Refiro-me ao grande investimento dessa Paróquia na formação do seu laicato e na sua organização em comunidades menores articuladas em rede. É notável quanto aí os leigos e leigas são valorizados, não apenas sendo cobrados para se engajarem na vida paroquial e na missão eclesial mais ampla, mas, em primeiro lugar, sendo-lhes oferecidas diversas oportunidades de se prepararem para isso. De fato, vê-se que o engajamento dos leigos e leigas numa pastoral ou num serviço eclesial específico é, muito mais, consequência de seu crescimento como pessoas, como cristãos e membros de uma comunidade do que de um apelo vindo de fora (ou de cima!), como sói acontecer em nossas paróquias. No processo da formação que lhes é oferecida, eles e elas se descobrem corresponsáveis na missão da Igreja e tomam mais conscientemente a decisão de assumir seu papel na evangelização.

Evidentemente, não se trata apenas de formação teórica. Pude perceber, sobretudo pelos testemunhos dados, o quanto os diversos cursos ministrados na Paróquia primam pelo aspecto pastoral, fazendo sempre a ligação entre fé e vida, conhecimento e realidade, teoria e práxis, bem ao estilo das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), inspiradoras do modo de ser Igreja adotado pela Paróquia. Destaca-se a formação bíblica, ponto de partida irrenunciável para qualquer atuação cristã, quer como indivíduos, quer como grupo pastoral ou uma inteira comunidade paroquial. Aí são fundamentais os Círculos Bíblicos, verdadeiras células-tronco da vida comunitária, capazes de gerar e desenvolver, nas pessoas que deles participam, o espírito filial, pelo qual descobrem o quanto são amadas por Deus, o espírito missionário, pelo qual percebem a necessidade de transformar o mundo à sua volta, e o espírito comunitário, pelo qual se conscientizam de que a obra do Reino de Deus é tarefa de muitos que se unem num ideal comum de libertação integral de todos os seres humanos.

É preciso, entretanto, garantir que a Palavra de Deus continue sendo a fonte da espiritualidade que nutre e sustenta toda a ação eclesial, não se restringindo a um curso que se encerra com um diploma. Os cursos, necessariamente, têm seu programa e conteúdos pré-definidos, repetindo-se para cada nova turma que começa o processo de formação. Mas, a atualidade e centralidade da Palavra exigem o contínuo retorno a ela, seu uso constante na oração e na vida do dia-a-dia, para que não se torne letra morta. Chamaria a atenção, ainda, para a importância de se conhecer os diversos métodos de leitura da Bíblia, ampliando suas possibilidades hermenêuticas. Por fim, ressalto que a preocupação da Paróquia em preparar seu laicato não apenas no aspecto bíblico, mas também sacramental, litúrgico, social etc., atende adequadamente ao anseio – repetidamente cobrado nas Assembleias do Povo de Deus (APD) – de uma formação teológico-pastoral de qualidade, garantindo, assim, aos leigos e leigas o pleno exercício de sua “cidadania eclesial”.

Quanto ao aspecto da rede de comunidades, ressaltaria apenas que esse é o modelo assumido e incentivado pela CNBB[1] para ser adotado no Brasil. Com suas 13 comunidades interligadas em rede, a Paróquia São Domingos dá mostras de vivenciar essa experiência já há duas décadas. A Arquidiocese de Belo Horizonte também já assumira, desde a sua 2ª APD, em 2004, o compromisso de organizar a rede de comunidades em suas paróquias, superando o modelo tradicional, a estrutura “matriz-capelas”. O modelo de rede de comunidades inspira-se igualmente nas CEBs, que surgiram exatamente como pequenas comunidades, distintas da “matriz”, muitas vezes distante delas, física e estruturalmente.  Nelas as pessoas convivem de forma bem mais próxima, enfrentam os mesmos problemas e partilham os mesmos sonhos, podendo refletir juntas, apoiar-se mutuamente e, principalmente, organizar-se para agir de forma mais eficaz no âmbito local, sem perder de vista o âmbito mais amplo da cidade, do Estado, do país e do continente. Hoje, graças à globalização da consciência planetária, catapultada pelas contradições econômicas e pelos problemas ambientais que todos vivenciamos, as pequenas comunidades vêm ampliando seu horizonte de compreensão da realidade, agindo localmente, mas, pensando globalmente.

Tendo já trabalhado em paróquias estruturadas em ambos os modelos, posso afirmar o quanto me alegro por conhecer, ainda que não diretamente, a experiência da paróquia São Domingos. Sinceramente, não vejo outro futuro para a continuidade da missão da paróquia como instrumento eficaz de evangelização a não ser como rede de comunidades. De fato, a cultura atual assegurou o lugar do indivíduo no mundo, como sujeito de direitos e deveres, como soberano em sua tomada de decisões e como partícipe livre e consciente nas ações que dizem respeito a si e aos outros. Ninguém quer viver sempre à sombra de outrem, dependente, submetido; muito menos quer ser tratado como de segunda ou terceira categoria nem ficar à margem da história, como se não tivesse com que contribuir. Nesse sentido, as antigas “capelas” sempre foram (e em muitos lugares, infelizmente, continuam a ser) relegadas a um papel subalterno, consideradas como comunidades dependentes da “matriz”, onde tudo se centraliza(va) e de onde partiam as decisões. Elas se contenta(va)m com as migalhas caídas da mesa – toda a vida paroquial é(era) em função do atendimento à e na “matriz”.

Por outro lado, vive-se, ainda hoje, a ilusão de que uma igreja com quinhentas, mil ou até mais pessoas numa celebração é sinal irrefutável de grande sucesso na missão. A maioria não pensa que, no âmbito paroquial (uma paróquia é delimitada também territorialmente, como área geográfica), no mínimo 80% dos católicos ali residentes não se envolvem diretamente com as atividades desenvolvidas, ainda que fossem apenas ir à missa. É comum sentar-se ao lado de pessoas, numa igreja, que nunca vimos antes e provavelmente nunca veremos depois. Nossa relação com elas se limitará ao aperto de mão na hora do “abraço da paz”, durante a missa… Como é possível sentir-me “sujeito”, ter uma “cidadania eclesial”, envolver-me numa missão que é comunitária, se sequer sei quem é essa pessoa que está do meu lado e não vou ter a chance de saber? Isso só é possível, em maior escala, na pequena comunidade.

Por isso, não vejo outra saída para a Igreja, se quer continuar evangelizando o mundo. Organizar-se em rede traz muitos desafios para as comunidades – multiplicar as celebrações? Ter mais padres? Criar mais ministérios leigos? Oportunizar os mesmos serviços em cada uma? Como administrar as finanças? Autonomia? Caixa único? – e muitos outros… Com certeza não há apenas uma forma de resolver cada um desses desafios, mas, não podemos vê-los apenas como problemas. Desafios, afinal, são estímulos a buscar soluções, a aventurar-se no novo, a crescer. Para tanto, precisam ser aceitos! Vejo na caminhada da Paróquia São Domingos um excelente exemplo de que é possível ser uma Igreja-Povo, comprometida com o Reino de Deus na história.

Paulo Sérgio Soares é Doutor em Ciências da Religião pela PUC de Goiás (Brasil) e Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico (Roma); trabalha com pesquisas no campo religioso pelo Cegipar – Centro de Geoprocessamento de Informações e Pesquisas Pastorais e Religiosas, da PUC Minas, e assessora diversas atividades de formação teológica, bíblica, missionária e pastoral. Exerceu o ministério presbiteral na Arquidiocese de Belo Horizonte por três décadas.

[1] Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que publicou em 2014 o Documento 100, “Comunidade de comunidades: uma nova paróquia. A conversão pastoral da paróquia”.

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