Na Laudato Si, Papa Francisco interroga: “Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão crescendo?” (160). Este questionamento é o âmago da encíclica, sobre o cuidado da casa comum, que prossegue: “Esta pergunta não toca apenas o meio ambiente de maneira isolada, porque não se pode pôr a questão de forma fragmentária”, e isso conduz a interpelar-se sobre o sentido da existência e sobre os valores que fundamentam a vida social: “Para que viemos a esta vida? Para que trabalhamos e lutamos? Que necessidade tem de nós esta terra?” E prossegue o Papa: “Se não pulsa nelas esta pergunta de fundo, não creio que as nossas preocupações ecológicas possam surtir efeitos importantes”.

Iluminados pelas provocações de Francisco, convém fundamentar mais e mais nossas reflexões no atual contexto de desafios históricos. Para isso propomos o texto abaixo que instiga-nos a pensar como “o consumo consome o consumidor e, junto a isso, como a economia ‘consome a natureza’ pondo a estabilidade climática à beira do precipício”.

poluição

Estupidez consumista

Marcus Eduardo de Oliveira

Desde que surgiu, em 1936, pelas mãos de John Maynard Keynes (1883-1946), a macroeconomia convencional tem como objetivo central buscar o crescimento econômico, sustentada numa elevada produção, visando atender aos sufocantes padrões de consumo, típico da industrialização feita à toque de caixa.

Esse sufocante padrão de consumo, na verdade, uma estupidez consumista, está intimamente relacionado ao credo de que a abundância material “produz”, essencialmente, bem-estar, melhorando assim a vida das pessoas.

A protagonista principal desse filme de “terror econômico”, cujo pano de fundo é a degradação ambiental, é a atividade econômica que faz girar com mais rapidez a “máquina de produzir” suntuosidades da economia global.

O enredo desse filme é bem conhecido: manda quem pode (as forças do mercado de consumo) e obedece quem tem juízo (os consumidores).

No afã em querer produzir a qualquer preço para o atendimento das propagadas “necessidades humanas” – cada vez mais ilimitadas – a racionalidade econômica faz o jogo do mercado, contribuindo para transformar artificialmente desejos em necessidades.

Dessa forma, cada vez mais a “roda da economia” gira com mais intensidade para alcançar taxas elevadas de produção de mercadorias; afinal, apoiada e sustentada pelo mercado publicitário, o consumo acontece para supremo regozijo da classe produtora.

O problema maior dessa “engrenagem mercadológica” são as consequências – cada vez piores – que recaem sobre o meio ambiente, pressionando os serviços ecossistêmicos até o esgotamento.

Em relação a isso, não há como escapar do seguinte argumento: para crescer economicamente é necessário usar o meio ambiente. Logo, “crescer” é sinônimo de “destruir”. Essa premissa pode ser reescrita da seguinte forma: Consome-se, logo, destrói-se. Aumenta-se a produção, agride-se o meio ambiente. Mais produtos, mais poluição, menos natureza.

Em sociedades cuja política econômica está centrada no uso e na força do dinheiro como mecanismo potencializador de qualquer tipo de consumo, uma verdade se torna inquestionável: o consumo consome o consumidor.

Diante disso, uma pergunta se apresenta como pertinente: como produzir mais para satisfazer desejos e necessidades de consumo ilimitadas se há visivelmente limites e pré-condições impostas pela natureza que impossibilitam essa produção em escala crescente?

Como existe o desejo em prontamente atender às necessidades mercadológicas impostas pelo apelo consumista – por sinal, cada vez mais vorazes -, primeiramente, em respeito ao bom senso, deve-se ter em conta aquilo que Clóvis Cavalcanti, estudioso da economia ecológica, chama a atenção com bastante veemência: “mais economia implica menos ambiente”.

Como é verossímil o fato de que o consumo consome o consumidor, a macroeconomia do consumo também consome a natureza e, por esse “consumismo” desenfreado de recursos naturais e energéticos (limitados, finitos) em breve não haverá mais natureza, não haverá mais economia, mais mercado, mais produtos, mais consumidor, e muito menos, vida.

Mais produção material se traduz, por conseguinte, em mais emissões de gases de efeito estufa (GEE), contribuindo para aquecer ainda mais o planeta. Quanto a isso, é imprescindível conter o total dessas emissões, caso contrário, elevando-se a temperatura média do planeta teremos mais enchentes, derretimento de geleiras, mais secas.

Aprofundando essa análise, a economia tradicional beira a cegueira e incorre no crasso e estúpido erro ao não diferenciar crescimento (quantidade) de desenvolvimento (qualidade).

De um lado, têm-se a receita tradicional da macroeconomia keynesiana: buscar o crescimento econômico para atenuar os desequilíbrios em relação à taxa de emprego, renda e outras grandezas econômicas.

Do outro, têm-se a questão ecológica que ressalta a não existência de recursos naturais em quantidades disponíveis para a ocorrência desse tal crescimento.

Entretanto, o que não se coloca de forma clara nesse debate é que crescimento econômico, como diz Ricardo Abramovay em “Muito Além da Economia Verde”, não é uma fórmula universal para se chegar ao bem-estar.

Ademais, não se nega a importância do crescimento da economia; o que não se pode é fazer dele uma “finalidade”, pois o mesmo é apenas um “meio” para que a vida econômica prospere.

Inequivocamente, uma maior produção econômica irá derrubar mais florestas, agredir o solo, usar-se-á mais água, ar, energia, e teremos, com isso, mais aumentos de GEE, colocando a vida em risco face ao desequilíbrio climático.

A insistência em fazer crescer a atividade econômico-produtiva além dos limites significa aumentar o intercâmbio global de produtos, base do atual e avassalador modelo de globalização que recomenda, na ponta final, que a “receita para o sucesso” é ter sempre a geladeira repleta de produtos, de preferência importados.

Ora, é simplesmente insano fazer com que um ketchup, por exemplo, vindo dos Estados Unidos “viaje”, às vezes, mais de 10 mil quilômetros para chegar ao mercado brasileiro quando o mesmo poderia ser produzido domesticamente e “viajar” menos de 1.000 km para chegar às mesas dos brasileiros.

No entanto, para esse modelo de globalização que corre às soltas atestando que o produto importado é a característica mais visível da modernidade, pouca relevância tem o gasto energético intenso envolvido nessa “viagem” do ketchup. Pouco importa, assim, se isso é altamente agressivo sobre o meio ambiente e potencialmente gerador de CO2.

Nessa mesma linha de raciocínio, vejamos outro exemplo de como o consumo consome o consumidor e, junto a isso, como a economia “consome a natureza” pondo a estabilidade climática à beira do precipício: a fruta nectarina produzida em Badajoz, na Espanha, “viaja” quase 400 quilômetros de caminhão queimando combustível até chegar a Portugal, no Porto de Lisboa.

De lá vem ao Brasil, chegando ao Porto de Santos vinte dias depois. Alguém consegue imaginar o quanto foi gasto em termos energéticos nesse processo? Isso é inadmissível numa sociedade que já consome em energia e recursos o equivalente a um planeta e mais 30% dele.

Acatar esse modelo de consumo desenfreado “patrocinado” pela macroeconomia da destruição da base natural e “propagandeado” por uma estrutura midiática que movimenta bilhões de dólares, legitimada por altos lucros, é continuar jogando terra sobre a capacidade de se obter desenvolvimento sustentável.

Ao contrário: isso apenas reforça a ideia mercadológica e potencializa o triste fato do consumo consumir o consumidor, possibilitando a chegada mais rápida da era do caos em termos de qualidade de vida relacionada aos serviços ecossistêmicos.

Fonte: http://domtotal.com

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