Com alegria e esperança, compartilhamos aqui no Observatório da Evangelização a carta de Celio Turino, publicada no site Outras Palavras. Boa leitura!!!

Cultura cidadã, agora projeto mundial

Num convênio firmado com Francisco, ideia radical: e se milhões de jovens trocarem o serviço militar por um ano de ações em Cultura, Artes e Comunicação?

Por Celio Turino

“You may say, I´m a dreamer
But I´m not only one
I hope someday you´ll join us
And the world will live as one.”

(John Lennon)

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Imagine.

E se, para além de jovens recrutas em formação militar, o mundo também oferecesse formação civil, cidadã? Imagine jovens de todo o mundo, durante um ano, se exercitando em um serviço-aprendizagem nos campos da cultura, artes, comunicação, educação popular, ambiente, lazer, cidadania; 24 horas de atividade por semana (12 em formação específica e 12 em trabalho comunitário), durante 12 meses, recebendo o mesmo soldo de um recruta militar e trabalhando para suas próprias comunidades. No lugar de quartéis teriam a formação em organizações comunitárias espalhadas pelo mundo. Imagine se este programa envolvesse 10 milhões de jovens por ano, em todos os países; e para que estes milhões de jovens percebessem que não estão sós, também haveria encontros criativos entre eles e entre as entidades. E no ano seguinte mais 10 milhões, e mais dez…; em 20 anos seriam 200 milhões de pessoas preparadas, envolvidas e comprometidas com uma nova lógica de cooperação e criatividade. Imaginou?

Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz, felizes por saberem quem são, por conhecerem a sua potência e vivenciá-la em uma rede de afetos, exercitada por meio da arte, do respeito à natureza e ao próximo e do compromisso cidadão. Isso muda o mundo. E é possível. E para já!

Em 3 de fevereiro, tive a honra de assinar convênio neste sentido, junto ao programa Pontifício Scholas Occurrentes. Foi no Vaticano, sob a inspiração e presença do Papa Francisco. Para além de intenções, é um convênio prático. E com propostas experimentadas. Em 2004, o governo do Brasil iniciava o programa Cultura Viva e os Pontos de Cultura, potencializando mais de 3.000 entidades culturais com base comunitária, atuando pelos mais distantes rincões deste vasto país, de aldeias indígenas a grupos comunitários em favelas, assentamentos rurais, coletivos artísticos, jovens da cultura digital, bibliotecas e museus comunitários. Em cada Ponto, 3.000 pessoas eram beneficiadas diretamente, sendo 300 em atividades regulares. Em paralelo, coletivos culturais da América Latina iniciavam uma rede para Arte e Transformação Social, depois, Plataforma Puente, se encontraram. A partir de 2011, começa o movimento Cultura Viva Comunitária, hoje presente em 19 países, congregando milhares de entidades e milhões de pessoas, já tendo realizado dois congressos latino-americanos, inúmeros intercâmbios e aprovação de leis. O Scholas Occurrentes também vem de uma experiência prática, a Escola de Vizinhos, implantada na periferia de Buenos Aires, na época em que Jorge Bergoglio era arcebispo. O convênio não implica em uma fusão institucional, até porque as redes e entidades seguem autônomas e só participarão se assim desejarem, mas se inspira nas múltiplas experiências, teoria e prática do Cultura Viva.

Imagine todas as pessoas partilhando todo o mundo, via Pontos de Encontro, Agentes Jovens de Cultura Cidadã e Entornos Criativos para novas pedagogias, cruzando educação formal e não formal. Este é o objetivo do convênio. Um convênio sustentado em teoria e prática testada e comprovada, experimentada em milhares de comunidades, algumas com práticas consagradas e seculares. Práticas tradicionais ou contemporâneas, alicerçadas em ideias construídas desde baixo, pela solidariedade, pelo encantamento da arte (e, por que não, pelo reencantamento do mundo), pela generosidade e inventividade da alma popular. Por isso tudo, é possível afirmar com segurança: vai dar certo!

O custo médio para cada Ponto de Encontro, com capacidade para estruturação, formação e acompanhamento do serviço-aprendizagem de 50 Agentes Jovens de Cultura Cidadã, durante o período de um ano é de US$ 45 mil (US$ 3.750/mês). Para os Agentes Jovens de Cultura Cidadã, o custo unitário médio mundial (com variação por país) será de US$ 150/mês (US$ 5/dia), totalizando US$ 1.800/ano. Aos Entornos Criativos ainda se estuda um custo.

É um sonho, tem custo e ele é viável. De onde viriam os recursos? Em 2014, o conjunto dos países do globo gastou a cifra recorde de US$ 1,8 trilhão (exatamente) em despesas militares. Se apenas 1,5% deste valor (apenas isso) fosse dedicado a este programa, teríamos um fundo global de US$ 27 bilhões/ano. Este valor seria suficiente para garantir o pagamento anual de 10 milhões de Agentes Jovens de Cultura Cidadã e 200.000 Pontos de Encontro a serem distribuídos por todo o mundo.

Imagine se, ao invés de Campos para Refugiados de Guerra ou Catástrofes Climáticas, em que multidões de desesperados, por vezes centenas de milhares de pessoas, aglomeradas e comprimidas e controlados por cercas e soldados, vivendo em guetos sem recurso algum, dependentes apenas de doações externas, fossem transformados em Assentamentos da Paz. Campos gestionados sob os princípios da autonomia, do protagonismo e do empoderamento social, com base na Permacultura, na cultura da permanência e na busca de recursos a partir do próprio ambiente em que as pessoas vivem, com produção local de energia, saneamento, produção de alimentos saudáveis (ao menos em parte), economia solidária, trabalho compartilhado e comércio justo. E isto em ambientes de acolhimento, cultura e alegria. Mesmo que provisórios, enquanto durarem os motivos para o refúgio, os Campos da Paz podem se transformar em ambientes de resiliência e experimentação para novos valores e práticas sociais. Os Pontos de Encontro e os Agentes Jovens de Cultura Cidadã funcionariam como potencializadores desta transformação.

Imagine se o Vale do Rio Doce, destruído pela ganância das mineradoras Samarco, Vale e BHP, pudesse contar imediatamente com a criatividade e potência de Agentes Jovens de Cultura Cidadã e Pontos de Encontro. Por exemplo: 10 mil Agentes Jovens de Cultura Cidadã e 200 Pontos de Encontro, com ênfase em ambiente e cultura; custo anual: US$ 27 milhões, muito pouco em relação a tudo que estas empresas deverão pagar ante a magnitude da catástrofe que provocaram. A proposta seria colocar os jovens e comunidades de áreas atingidas por catástrofe como agentes de sua própria recuperação. É tão possível e necessário que nem temos direito de perder mais tempo para colocá-la em prática.

E afora situações extremas, o programa tem que estar presente em todos os lugares, de favelas a universidades, de escolas a museus, de afastadas vilas a grandes metrópoles. E todas as soluções surgindo de baixo para cima, de dentro para fora, semeadas e cultivadas nas próprias comunidades e potencializadas na relação em rede. Imagine no que tudo isso despertará em termos de capacidades criativas. E o melhor de tudo, é viável.

Sem a necessidade de ganância ou fome, uma irmandade de homens e mulheres, é o que pretendemos. E vamos chegar lá!

O convênio assinado com a benção do Papa Francisco também prevê outras iniciativas. A primeira, igualmente assinada no encontro no Vaticano, prevê um filme documentário a ser dirigido por Silvio Tendler e um livro a registrar mais de perto 12 experiências emblemáticas, espalhadas por toda América Latina. Também haverá um encontro para a sistematização destas experiências, na cidade de Medellin, Colômbia; além de residências criativas entre os Pontos de Encontro. Em maio de 2017, o Congresso da Harmonia – a arte do encontro, a ser realizado na cidade do Vaticano, incluindo a Praça de São Pedro. Será um congresso de reflexão, análise e compromissos financeiros, políticos e práticos, com composição inter-religiosa, laica e convite a chefes de Estado e agentes de governo, incluindo ministros militares. E com encantamento, puro encantamento (quem participou das primeiras Teias dos Pontos de Cultura no Brasil, sabe a que me refiro)! Imaginem a Praça de São Pedro tomada por refugiados e artistas do mundo, gente do povo, jovens, peregrinos, moradores de Roma, turistas; uma Orquestra com músicos de diversos países, junto a músicos de rua e artistas populares, realizando a mais bela sinfonia, harmonizando sons e sentidos; jogos, brincadeiras, campo de futebol de rua, exposições; teatro, dança, circo; um cortejo de artistas, do Alasca à Patagônia, do Curdistão à terra Mapuche, da África, da Europa, da Oceania e Ásia, atravessando a avenida da Concórdia e adentrando na Praça de São Pedro para se darem as mãos em dança circular. Imaginem! É possível e vai acontecer.

PS – Escrevi este artigo em forma de carta porque, como em toda carta, espero resposta e espero que um dia você junte-se a nós e o mundo viverá como um só.

Fonte:

Outras Palavras

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