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Johan Konings, professor de Bíblia da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, trabalhou com e era amigo de Alberto Antoniazzi.

OE: Como foi a sua convivência pessoal, social e eclesial, com Alberto Antoniazzi? 

Conheci o Pe. Antoniazzi logo depois de minha chegada ao Brasil em 1972, no quadro da pastoral das universidades católicas e soube que saí da mesma raiz missionária que ele, os padres Fidei Donum, ou seja, padres diocesanos europeus que eram enviados aos outros continentes onde havia falta de padres, no caso, a América Latina. Com o cimento que foi a renovação alimentada pelo Concílio Vaticano II, nossa amizade estava selada.

OE: Por que Alberto Antoniazzi foi escolhido para dar nome ao grupo de reflexão interdisciplinar que você criou e coordena?

Porque Alberto Antoniazzi foi um exemplo desigual de interesse amplo – filosofia, teologia, Bíblia, história da Igreja, sociologia e mesmo economia. Por esta razão lhe foi dedicada a Biblioteca da PUC-Minas. Com aquele espírito aberto e competente, ele combinava profundo senso pastoral, total disponibilidade e radical generosidade e desapego material. Era o homem que indicava o rumo em que o Concílio Vaticano II, pelo menos logo depois de sua conclusão, devia induzir à Igreja, em diálogo com o mundo, sobretudo, intelectual.

OE: Para a caminhada da Arquidiocese de Belo Horizonte, qual a importância de Alberto Antoniazzi?

Foi o homem da pastoral de conjunto da Arquidiocese, dos planos pastorais – Projeto Pastoral Construir a Esperança, das pesquisas sociopastorais, das publicações bíblico -pastorais, do Jornal de Opinião, além de amigo de muitos padres e leigos. Além disso, sua presença simultânea no Seminário e na PUC fazia com que sua atuação e conselhos atingiam amplos setores da Igreja local.

OE: Poderíamos dizer que a ação eclesial do Pe. Antoniazzi foi fruto do Concílio Vaticano II?

A meu ver, ele foi a encarnação concreta do Vaticano II em Belo Horizonte. Não em última instância porque, antes de sua chegada ao Brasil, em 1964, ele vivera o ambiente do Concílio e foi amigo pessoal do seu arcebispo em Milão, Giovanni Battista Montini, que em 1963 assumiria o papado e a responsabilidade de levar o Concílio a termo, sob o nome de Paulo VI.

OE: Quais foram as maiores contribuições do Pe. Alberto para a vida da Igreja?

À primeira vista, suas publicações, geralmente de cunho sociopastoral, e também suas numerosas colaborações com a CNBB e com a Arquidiocese. Mas creio que mais escondidamente ele exerceu enorme influência por seus contatos pessoais, sua amizade, sua capacidade articuladora e, se preciso, suas críticas competentes e consistentes.

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Alberto Antoniazzi, 1937-2004, uma vida a serviço do povo de Deus.

OE: Pe. Alberto Antoniazzi produziu muitas reflexões sobre a realidade dos presbíteros. Há razões que expliquem todo esse esforço intelectual?

Ele dirigia o Seminário, presidiu o Instituto de Teologia, atuava na Comissão Nacional de Presbíteros e no Instituto Nacional de Pastoral. E talvez emblematicamente, era coadjutor dominical na paróquia Cura d’Ars. O presbiterado era seu contexto cotidiano, além do cuidado que ele mesmo dedicava à sua espiritualidade presbiteral. Ele respirava responsabilidade presbiteral. Mas não era clerical, nem queria que o clero o fosse.

OE: Sobre evangelização, podemos dizer que há uma grande atualidade na reflexão do Pe. Alberto Antoniazzi?

Seu conceito de evangelização era o mesmo da Constituição conciliar Gaudium et Spes: levar ao mundo a Boa-nova a partir de dentro, a partir da presença no mundo secular, mas, naturalmente, com o espírito voltado para Jesus Cristo. Uma evangelização profundamente humanista, não considerando estranho nada do que é bom na humanidade. Eu não conseguiria descrever isso aqui em palavras, mas eu creio que o Papa Francisco representa a evangelização com que o Pe. Alberto sonhava.

OE: Ao evocar o nome de Alberto Antoniazzi, depois de mais de uma década desde a sua morte, o que de mais significativo vem em sua mente?

É o que eu apontava: dez anos depois de sua morte está se reavivando na Igreja o seu projeto de evangelização na linha do Concílio Vaticano II, mas em circunstâncias totalmente novas, que exigem também uma releitura do Concílio. O grão caído na terra começa a produzir fruto. A visão de Pe. Alberto, aparentemente tão facilmente esquecida, se confirmou. Mas devemos ainda fazer um enorme esforço para chegarmos novamente ao nível de consciência cristã crítica – sobretudo entre os intelectuais e profissionais – em que ele atuava.

OE: Fechando a nossa conversa, o que mais você gostaria de dizer aos leitores do Observatório da Evangelização?

A evangelização começa na vida pessoal. Muitas vezes o único evangelho que seus amigos vão encontrar é você mesmo. Creio que isso é uma lição que o Pe. Alberto deixou para todos nós. Ele não era chamado aos diversos conselhos e institutos de que ele participou porque tinha diploma universitário. Pelo que me consta, nem era doutor em Teologia. Não teve tempo para isso. Mas ele era chamado para tudo o que é serviço, porque ele era: o amigo Alberto Antoniazzi.

Obs.: Pe. Konings, gentilmente, concedeu essa entrevista ao Observatório da Evangelização, por e-mail, no dia 26/02/2016.

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