A fé cristã possui uma dimensão política que lhe é constitutiva. Dizendo de forma concreta, não se pode ser cristão à margem das questões sociopolíticas que emergem do lugar onde o cristão está inserido. Um divórcio entre fé e política provocaria graves consequências para a concretização da vida cristã. Como esta dimensão vem sendo vivida  pelos cristãos na Arquidiocese de Belo Horizonte?

O Observatório da Evangelização publicará, a partir de hoje, uma série de postagens sobre o conteúdo da importante pesquisa, sobre os grupos de fé e política da Arquidiocese de Belo Horizonte, desenvolvida pelo Núcleo de Estudos Sociopolíticos do ANIMA PUC Minas  – NESP:

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Cartaz do 3º Encontro Arquidiocesano de Fé e Política

Quando fé e política se encontram: apontamentos de pesquisa

Adriana Maria Brandão Penzim

Bruno Márcio de Castro Reis

Karina Pereira dos Santos

Robson Sávio Reis Souza

1ª PARTE

A pesquisa de que trata este texto foi desenvolvida pelo Núcleo de Estudos Sociopolíticos (Nesp)[1] da PUC Minas e da Arquidiocese de Belo Horizonte, com vistas a conhecer e caracterizar os grupos formados por leigos católicos que atuam em um campo que, em voz corrente, é designado “fé e política”. Resguardada sua diversidade, trata-se de coletivos oriundos dos setores da Igreja Católica que afirmam em suas práticas a integração entre fé e ação política como constitutiva do cotidiano cristão. Na voz de um dos membros desses grupos, fica bem claro o bom encontro:

Porque o que Jesus ensinou foi isto: estar preocupado com o ser humano e não simplesmente com a salvação da alma; estar preocupado com as questões da vida, do dia a dia. Que nós temos muitos desafios neste mundo […]. Desafio da violência, desafio da corrupção, desafio mesmo da globalização que traz muitos desafios pra gente […] A gente tem que estar preparado, tem que estar ligado no que está acontecendo no mundo de hoje […].

            Desde já, é importante sublinhar a concepção qualitativa da pesquisa realizada, cuja finalidade principal não se restringiu a um mero e objetivo levantamento de dados e informações mas, especialmente, tencionou estabelecer vínculos e estreitar laços de solidariedade entre o Nesp e os grupos participantes da pesquisa, e conhecer suas demandas de formação e aperfeiçoamento, à luz da reflexão crítica realizada por seus próprios membros[2].

            Certamente, tais finalidades realizam-se de modo gradual e resultam do avançar do trabalho e do amadurecimento das relações entre o Nesp e os grupos, uma vez que não se afirma aqui uma noção destes últimos como “objeto da pesquisa”, em uma postura que toma o sujeito (individual ou social) como coisa a ser examinada. Assim, privilegiou-se uma metodologia que, como caminho, levasse ao diálogo gerador de novos arranjos relacionais, nos quais pesquisador e pesquisado agem em conjunto.

Ao longo da investigação, procurou-se levantar o itinerário histórico percorrido pelos grupos desde seu surgimento, compreendendo suas trajetórias, características institucionais, modos de funcionamento, estratégias e táticas de atuação, vínculos e parcerias que estabelecem, elementos facilitadores e dificultadores à ação e os resultados que vêm obtendo.

Denominado “Mapeamento de Grupos e Práticas de Fé e Política Presentes na Arquidiocese de Belo Horizonte”, o estudo teve início em meados de 2009, tendo se estendido até o início de 2013.

A adoção do termo “prática”, presente no título da pesquisa, não se deu aleatoriamente. “A prática não é uma instância misteriosa, um subsolo da história, um motor oculto:  é o que fazem as pessoas (a palavra significa exatamente o que se diz)”, ensina-nos o historiador Paul Veyne (1982, p.159). Simples, porém de enorme grandeza e com repercussões importantes, uma vez que são as práticas que adotamos em nosso viver que, associadas aos discursos, estabelecem modos de existência. Modos esses que tanto podem trazer a novidade e promover a transformação quanto insistir na reprodução de relações que sustentam a exploração, a dominação e a mistificação — situações que impedem a realização da vida em plenitude. É por meio de nossas práticas que podemos tentar construir um mundo mais de acordo com os nossos desejos e concepções de vida. Práticas são, portanto, escolhas éticas que tomam forma e se concretizam.

Paralelamente, ponto de grande importância no estudo, foram também levantadas as concepções de fé e de política circulantes no interior de tais grupos, visando compreender como na conexão entre fé e política ordenam-se as práticas que realizam. Mais adiante, tais questões serão discutidas com mais vagar, a partir das narrativas dos entrevistados.

Para realização da pesquisa foi constituída uma pequena equipe integrada por professores e alunos da PUC Minas, que contou também com a colaboração eventual dos representantes das regiões episcopais no Nesp[3].

Em uma fase preliminar interna, que consistiu no treinamento do grupo de pesquisadores, foram realizados estudos teóricos e metodológicos, visando à construção de um plano de trabalho e à definição de instrumentos de pesquisa. Concluída essa fase, deu-se início ao trabalho de campo.

No primeiro momento, foi preciso localizar os grupos, dispersos em paróquias e comunidades, o que se fez por meio de busca ativa, acionada de variadas maneiras. De pronto buscamos informações com lideranças comunitárias nas diversas regiões episcopais da Arquidiocese e, a partir de então, se foi constituindo uma rede de informações sobre a existência de tais grupos, ou seja, um que indicava outro, que ouvira falar de outro, e assim sucessivamente.

De inspiração multidisciplinar, a investigação fez-se à luz de muitos autores[4], com ênfase metodológica na construção da história oral, por meio da realização de entrevistas individuais e coletivas com os membros dos grupos. Trabalhando com roteiros abertos, as pessoas podiam se manifestar de forma livre, em ricas narrativas.

O recurso à oralidade constitui meio que permite privilegiar a memória e a narrativa dos acontecimentos tomados na perspectiva da experiência.

A narrativa mergulha as coisas na vida do narrador para depois as ir aí buscar de novo. Por isso a narrativa tem gravadas as marcas do narrador, tal como o vaso de barro traz as marcas da mão do oleiro que o modelou. (BENJAMIN, 1992, p.37).

Contrapondo-se à mera informação, a narrativa, em sua natureza dialógica, atualiza a experiência, à medida que promove a retomada da dinâmica histórica, social e política do grupo, favorecendo a reflexão coletiva sobre seus próprios caminhos.

            Nessa linha de pensamento, não se pretendeu, pois, interpretar as falas dos narradores, mas apenas alcançar uma compreensão mais precisa sobre os grupos cujas concepções de fé e de política encontram-se em seu cotidiano engendrando ações transformadoras.

Paralelamente, buscou-se reunir documentos escritos e registros diversos — panfletos, cartilhas, fotos, atas, jornais, etc. — produzidos pelos grupos ao longo de sua caminhada, uma vez que também esses materiais contam um pouco da história dos grupos. Entretanto, foram poucos os materiais coletados, tendo-se percebido ao longo dos trabalhos que a maioria dos grupos não tem registro de suas atividades e não costuma guardar os materiais que porventura tenha produzido.

Na concepção de que retornar aos grupos um saber produzido por eles próprios é um procedimento necessário e um dispositivo importante para se instaurar possíveis processos analíticos, ao final dos trabalhos, em cada região episcopal[5], os resultados obtidos na pesquisa, compilados e organizados, foram restituídos e discutidos com os grupos que assim o desejaram. Isso objetivou a fomentar uma análise coletiva acerca do próprio percurso e a promover uma ampla discussão intra e intergrupal, que pudesse fortalecer suas ações, tomados seus limites e possibilidades, com vistas ao aprimoramento de sua atuação presente e futura.

Ao término da pesquisa de campo, com a ajuda de líderes e agentes dos próprios grupos, foi feita uma listagem geral dos grupos (ou, como se verá mais adiante, de pessoas que atuavam isoladamente) identificados em cada região episcopal, para verificar se algum ainda ficara de fora. Não obstante tal cuidado, cada vez que pensávamos ter concluído, recebíamos informações sobre a existência de outros grupos.  E, mais uma vez, voltávamos. Ainda assim, sabemos — e não há em definitivo intenção de completude — que se trata de uma conclusão provisória, historicamente marcada. Contudo, tem-se aí o caminho aberto que nos poderá levar sempre a novos encontros.

Deve-se ressaltar que, ao longo do trabalho investigativo, muitas ações de incentivo à formação de grupos de fé e política foram e têm sido empreendidas, não somente pelo Nesp, mas por outros setores da Arquidiocese. Disso resulta a possibilidade de permanente criação de novos grupos e novas práticas.

Vale, por fim, dizer que em uma igreja tão plural como a que forma a Arquidiocese de Belo Horizonte, a concepção de grupos de fé e política se espraia em múltiplas formas de manifestação, tais como ações pastorais e variados movimentos que não foram abordados nesta pesquisa, ainda que reconheçamos a sua importância.

Notas:

[1] O Núcleo de Estudos Sociopolíticos da PUC Minas e da Arquidiocese de Belo Horizonte foi criado em 2005, quando se comemoravam os 40 anos de publicação da Constituição Pastoral Gaudium et Spes que, atualíssima, lembra aos cristãos a importância de sua ação no mundo, visando à construção do bem comum e à promoção da justiça e da paz. O Nesp dedica-se à educação política de grupos e coletivos que, engajados em movimentos sociais, pastorais e nas mais variadas atividades da sociedade civil organizada, têm buscado “cooperar na solução das principais questões do seu tempo.” (GS,10) e, ao longo desses anos, na interface entre ensino, pesquisa e extensão, tem direcionado suas ações à formação, à capacitação, à pesquisa e à produção de conhecimentos que possam auxiliar tais grupos em sua atuação social e política, tendo como horizonte o advento de práticas transformadoras.

[2] Vale lembrar que, quando de sua fundação, o Nesp teve a estimular suas ações uma demanda expressa pelos participantes da 2ª Assembleia do Povo de Deus que, alinhados em uma clara opção pelos pobres, apontaram a importância de uma práxis cristã transformadora. No documento denominado “Igreja Viva: povo de Deus em comunhão”, que registra as “Decisões e Práticas sobre a Inserção Social” tomadas naquela assembleia, tais grupos afirmam a necessidade de aprofundar seus conhecimentos no âmbito social e político, visando ao fortalecimento de suas ações e, para tanto, propõem o estabelecimento de uma parceria com a PUC Minas e a criação de um núcleo de estudos voltado para a formação de seus membros.

[3] Participaram da pesquisa os professores Adriana Maria Brandão Penzim (coordenadora) e Robson Sávio Reis Souza e os alunos estagiários Bruno Márcio de Castro Reis e Karina Pereira dos Santos; na etapa inicial participaram Luzia do Carmo Barcelos (RENSE) e Flávio Lúcio Pinto. Os mapas foram realizados pela equipe do CEGIPAR, sob a coordenação de Izabella Carvalho.

[4] Muitos foram os autores estudados, destacando-se, no que tange às concepções de prática, Paul Veyne, Michel Foucault e Michel de Certeau; no âmbito da história oral, Paul Thompson e Alessandro Portelli; em educação popular, William Castilho Pereira; no estudo dos movimentos sociais, Maria da Glória Gohn; e, por fim, as propostas institucionalistas de René Lourau, em especial no que concerne à noção de restituição.

[5] A Arquidiocese de Belo Horizonte abrange 272 paróquias, sendo 266 delas territoriais, distribuídas em 28 municípios. As paróquias são organizadas em 37 foranias que, por sua vez, estão agrupadas em quatro regiões episcopais.

Fonte:

Núcleo de Estudos Sociopolíticos – NESP

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