A fé cristã possui uma dimensão política que lhe é constitutiva. Dizendo de forma concreta, não se pode ser cristão à margem das questões sociopolíticas que emergem do lugar onde o cristão está inserido. Um divórcio entre fé e política provocaria graves consequências para a concretização da vida cristã. Como esta dimensão vem sendo vivida  pelos cristãos na Arquidiocese de Belo Horizonte?

O Observatório da Evangelização publica, a quarta postagem da importante pesquisa, sobre os grupos de fé e política da Arquidiocese de Belo Horizonte, desenvolvida pelo Núcleo de Estudos Sociopolíticos do ANIMA PUC Minas  – NESP:

Fé e política 2

Quando fé e política se encontram: apontamentos de pesquisa

Adriana Maria Brandão Penzim

Bruno Márcio de Castro Reis

Karina Pereira dos Santos

Robson Sávio Reis Souza

4ª PARTE

Sobre a participação das comunidades nos grupos de fé e política

 

 Os grupos atribuem extrema relevância à participação da comunidade nas práticas por eles desenvolvidas. Entendida como o território em que circulam diferentes sujeitos, grupos e organizações, atravessados por relações de força e interesses diversos, a comunidade é o espaço onde os grupos buscam adesão e parceria para avançar em sua luta e estabelecer diálogo com o poder público.

A adesão às atividades constitui fator que legitima, fortalece e facilita a ação grupal; seja práticas internas – para as quais a comunidade é convidada –, seja as externas – aquelas em que a comunidade é simultaneamente parceira e público da ação.

Nesse processo, os grupos desenvolvem diferentes estratégias de atuação. Integram-nas ações caracterizadas como de mobilização comunitária e social, as quais visam divulgar o próprio grupo e suas práticas, convocando os cidadãos a delas participarem. Convites são formulados por ocasião das missas e outras celebrações, panfletos e cartazes afixados no mural da paróquia e em outros pontos da comunidade, anúncios em rádios, jornais de bairro ou paroquiais, e os convites informais realizados no circuito de relações de seus membros.

 A despeito das múltiplas iniciativas para difundir seu trabalho e convidar os paroquianos a se juntarem a eles, os grupos apontam grande dificuldade em contar com a participação deles. Relações de maior aproximação e apoio têm sido experiência de poucos. A maior parte queixa-se de resistência popular quando o termo política é mencionado. A falta de credibilidade na política é um dos principais fatores citados pelos grupos ao se referirem aos entraves na mobilização.

Sabem que o grupo existe na paróquia, conhecem o trabalho do grupo na paróquia, mas não querem participar; não querem se envolver quando se fala fé e política. O paroquiano vai, assiste uma reunião e não volta. Porque quando ele vê que discute política, ele não tem interesse […]. “Ah, de política eu não quero saber”,“ah, não gostei por isso, isso e isso”, entendeu? Do trabalho do grupo em si, voltado para a comunidade, eles não falam nada, mas quando se fala em política… Eu acho que está faltando um trabalho de conscientização, que não tem nas paróquias.

É notória a ampliação das adesões em períodos eleitorais. Percebe-se que nas comunidades (tal como na sociedade de forma geral) tem-se associado política a um período muito restrito: o do voto, em detrimento do acompanhamento dos eleitos e outras estratégias que promovam um efetivo controle social do governo.

É frequente que pessoas se integrem aos grupos, participem de algumas atividades e não prossigam. Sua recusa é também fruto das dificuldades de alguns setores cristãos em associar suas experiências de fé à realidade em que vivem, por meio da política. A cultura voltada às orações, às práticas assistenciais e à vivência da religião como interioridade é referida pelos entrevistados como muito presente entre os católicos.

Como já dito, os coletivos contam com reduzido número de pessoas engajadas nas ações, especialmente naquelas de cunho organizativo, do que resulta que as mesmas pessoas participem de muitas atividades. Verifica-se que seus integrantes recorrentemente são lideranças comunitárias, muitos participam de outras atividades pastorais e trazem consigo um longo histórico de participação social na comunidade e para além dela, o que acaba por onerá-los e por limitar sua disponibilidade de tempo. A sobrecarga no tocante à participação paroquial e política tem, entre muitos, levado ao enfraquecimento, redução e até cancelamento das ações. O desafio de conseguir mobilizar novos participantes para integrarem os grupos de fé e política torna-se elemento de antiprodução: ao se perceber por demais atarefado, o grupo reflui.

[…] iniciou com doze elementos. Hoje, eu estou sozinha, sabe. Eles foram saindo…  Acho que faltou um pouco de estímulo para o pessoal. […] E eu passei, então, a frequentar o Nesp, porque eu me sentia sozinha aqui […]. E a gente frequenta outros movimentos também, mais ou menos desse estilo.

Ao relatarem suas dificuldades no tocante à relação com as comunidades, os grupos indicavam concebê-las como espaço profícuo à constituição de poder local a partir do pertencimento ao próprio bairro ou região, e ao sentimento de ser cristão. Ora, participar de uma ação reivindicativa ou de articulação com o poder público estatal é potencializar as demandas locais, aumentar suas chances de êxito e escapar às tentativas de captura pelos discursos disseminadores de saídas individuais e da abstenção em participar da política de maneira ativa.

A difundida e pejorativa concepção de política associada a avaliações negativas, como lugar de espertos e corruptos, afeta sobremaneira os grupos de fé e política. Com ares de decepção, nas entrevistas, eles falam de seu desapontamento com os rumos da política governamental; especialmente quando lideranças populares históricas ascenderam ao poder e, mesmo tendo ampliado os espaços de negociação, participação e promovido reformas, não conseguiram atender às expectativas de mudanças no plano da ação ética. Paralelamente, a timidez das conquistas na esfera social implica também em desinteresse e descrédito.

[…] o que dificulta é a falta de credibilidade a partir da atuação regional. A comunidade não acredita na instituição; tão importante que é a política, administração da pólis […]. Acho que há um pequeno descaso. Tudo agora é Copa 2014, não pode ser! E depois, como é que vai ficar? 

Os grupos de fé e política percebem e enunciam o individualismo como obstáculo à ação coletiva. Em um contexto de organização dos modos de vida pautados pelas transformações da era da globalização capitalista, os indivíduos centram-se em seus próprios interesses, desprezando as demandas coletivas que forçam a existência de limites individuais. Convergindo ao modelo individual de pensar e agir, estabelece-se um imperativo de que as conquistas tenham que se dar de forma imediata. Entretanto, no campo social e político, tratando-se de mudanças desejáveis e possíveis, não se pode prescindir da compreensão processual das transformações.

Na medida em que eu fui à missa e a missa serviu para que eu preocupasse em naquele dia participar da discussão, daquele seminário para discutir políticas públicas, pegando como exemplo o Bolsa Família, eu estaria completando a minha ação de cristão. […] quando o cristão chega na porta da casa dele e alguém pede um pão porque está com fome e ele dá aquele pão, ele está fazendo uma caridade. Mas existe um milhão de pessoas como aquela precisando ganhar um pão, e ele não vai dar conta de distribuir um pão para cada uma desse um milhão de pessoas. Se ele faz parte de uma discussão política, e naquela discussão ele provoca um projeto político em que atendesse um milhão de pessoas, ele está dentro de vários grupos, de várias pessoas que participaram da discussão, promovendo a justiça social.

Observa-se com certa regularidade que, pertencer ao grupo de fé e política e estar vinculado a outros grupos pastorais, é tática de ampliação do trabalho e enfrentamento da resistência da comunidade e demais lideranças pouco receptivas às atividades que associam as dimensões de espiritualidade à política. Dessa forma, os integrantes dos movimentos buscam propagar em outros espaços seus pensamentos e propostas.

Os vínculos são porque são várias pastorais e a ideia é que cada pastoral tenha um participante desse grupo […]. Que cada pastoral tenha seu representante nesse grupo. Porque, quando tiver um dia de formação, “você da pastoral da crisma, eu da pastoral do dízimo, outro da pastoral da catequese, outro da pastoral dos círculos bíblicos”, cada um, depois de ouvir aqui, levar para o seu grupo.

A vinculação a diferentes trabalhos pastorais parece potencializar a ação dos grupos mapeados, favorecendo maior difusão de suas ideias e ações. Há muitos relatos de práticas que envolvem fé e política a partir de pessoas que articulam trabalhos com associações, movimentos sociais e outras organizações locais. Dessa maneira, alguns grupos relatam conseguir atingir um maior contingente de pessoas em suas atividades.

Em face das adversidades, captam as mensagens de resistência da comunidade e com elas constroem novas táticas para prosseguirem. Como visto, uma delas é a retirada do termo política do nome do grupo, substituindo-o por cidadania, reflexão, compromisso, entre outros.

Alguns entrevistados assinalam que os segmentos católicos mais tradicionais são compostos também por pessoas jovens; entretanto, é bastante reduzido o número de jovens que compõem os grupos de fé e política. Quando participam são, em sua maioria, universitários, e integram também as pastorais da juventude. Diante dessa constatação, há alguns grupos que definiram os jovens como público prioritário em suas ações, considerando-os potenciais parceiros e acreditando na maior possibilidade que possuem para a participação política de variadas e inovadoras maneiras.

Na tarefa de mobilização, um dos desafios colocados é o de fomentar valores de democracia, solidariedade, cooperação. A participação em práticas coletivas de defesa e exercício da cidadania, a difusão de informações e inserção em meios de comunicação são ações de resistência à tendência de criminalizar ou de empurrar para a invisibilidade os movimentos sociais.

Teve respostas […]. Teve sim. Pessoas que… às vezes, a gente soltava um texto […]; depois, por causa disto, elas vieram participar do grupo. E então vinham falar que nunca tinham lido ou interessado de saber sobre isso. Teve uma resposta. Não foi uma coisa assim… Mas teve.

Diante dos percalços na relação com as comunidades, os grupos demandam a estruturação de novas estratégias de difusão de suas práticas. Encontram dificuldades para tornar visível aos paroquianos e demais cidadãos a relação existente entre fé e política, e para discutir temáticas políticas, além de sentirem falta de uma melhor definição sobre o papel de um grupo dessa natureza na Igreja e na sociedade. Reconhecem a complexidade inerente à articulação entre as duas categorias e buscam formas de instigar as comunidades a aproximarem-se de tal campo.

Apesar dos inúmeros pontos de resistência e a despeito das dificuldades enfrentadas, alguns grupos percebem que, quando seu trabalho gera resultados positivos para as comunidades, ganham reconhecimento e apoio e passam a ser vistos como referência, tanto nas ações assistenciais quanto naquelas de caráter propriamente emancipatório. De um discurso que os aponta como “mais um grupinho”, passa-se a maior aceitação e há engajamento dos leigos. “No início, essa turma [de uma das associações do bairro] falou: tem um grupinho lá em cima. Mas o grupinho foi crescendo…”, assinala uma participante, segundo a qual o movimento ganhou novos membros a partir do surgimento dos resultados de sua ação no entorno da paróquia.

O grupo de fé e política contagia na realidade toda a paróquia, em apoiar uma reforma e ampliação que a gente precisava do posto de saúde […] e de uma reforma e ampliação do parque das águas. Então, o grupo de fé e política organizou eventos aonde toda a paróquia se mobilizou para estar nesses espaços, para conhecer esses espaços.

Quando a gente faz uma intervenção como, por exemplo, a realização de uma audiência pública, um movimento social para conseguir um banco e um correio ou um passeio ciclístico pela paz, a gente movimenta, e isso é perceptível nas lideranças da comunidade; a gente movimenta a paróquia inteira. […]. Por exemplo, nos correios e no banco foi interessante que a gente conseguiu envolver todos os segmentos […].  

Há relatos de que a partir do reconhecimento da efetividade da ação grupal, subgrupos se formaram e passaram a tratar de questões específicas, por exemplo, a saúde pública. O mesmo ocorreu com subgrupos que se formaram no interior de um grupo de fé e política e posteriormente passaram a atuar em outras comunidades como grupos autônomos.

Observar, escutar e colocar em operação demandas do território é não somente objetivo, mas faz parte de uma estratégia de mobilizar a comunidade para a reflexão e ação política. A legitimidade do grupo passa pelo seu trabalho e pelos efeitos por ele produzidos.

Na geração de renda, o que a gente fez? A gente ouve a comunidade. Eles pediram uma horta comunitária […]. Então, fui à secretaria, pedi algumas sementes […] e nós conseguimos fazer uma horta comunitária. E dentro desta horta as pessoas que estavam mais vulneráveis conseguiram dinheiro para também estar ajudando outras […].

Ainda que muitos se queixem da pouca habilidade em impulsionar a participação da comunidade e lamentem a forte resistência aos investimentos grupais, é possível perceber que gradativamente alguns grupos começam a ganhar abertura entre as comunidades, que começam a tomá-los como espaço de que se podem apropriar para acessar e produzir conhecimentos sobre assuntos políticos e embasar sua participação.

Fonte:

Núcleo de Estudos Sociopolíticos – NESP

Anúncios