A fé cristã possui uma dimensão política que lhe é constitutiva. Dizendo de forma concreta, não se pode ser cristão à margem das questões sociopolíticas que emergem do lugar onde o cristão está inserido. Um divórcio entre fé e política provocaria graves consequências para a concretização da vida cristã. Como esta dimensão vem sendo vivida  pelos cristãos na Arquidiocese de Belo Horizonte?

O Observatório da Evangelização publica, a quinta postagem da importante pesquisa, sobre os grupos de fé e política da Arquidiocese de Belo Horizonte, desenvolvida pelo Núcleo de Estudos Sociopolíticos do ANIMA PUC Minas  – NESP:

Quando fé e política se encontram: apontamentos de pesquisa

Adriana Maria Brandão Penzim

Bruno Márcio de Castro Reis

Karina Pereira dos Santos

Robson Sávio Reis Souza

5ª PARTE

Sobre a contribuição dos presbíteros aos grupos de fé e política

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Em todas as entrevistas, nota-se o destaque atribuído à contribuição dos presbíteros no trabalho grupal. Acredita-se que a tentativa de mobilização realizada pelo sacerdote tem maiores chances de êxito e a dificuldade em obter adesão dos paroquianos é associada ao frágil apoio da liderança eclesial, uma vez que reforça o entendimento de que fé e política não se misturam. A ausência de apoio efetivo por parte dos padres é apontada como um dos maiores desafios enfrentados por muitos grupos.

Se os párocos acompanham, oferecem apoio, abertura e incentivo às ações, o movimento de fé e política tende a tornar-se mais consistente e tem melhor aceitação pela comunidade. Alguns grupos fizeram referência à iniciativa ou mediação das lideranças eclesiais para a criação, ou mesmo a retomada, do movimento na paróquia ou região. Quando isso ocorre, a participação de presbíteros dá-se, em geral, no período de formação do grupo; passada essa fase, observa-se uma redução de sua presença nas atividades. Em outros grupos, poucos, foram relatadas a presença constante e a participação permanente e ativa de padres em suas práticas; especialmente nas internas, espaço privilegiado para o planejamento de ações e estudo sobre a Doutrina Social da Igreja, quando o padre exerce o papel de orientador.

Além disso, há padres mencionados como protagonistas na defesa de direitos e sua presença é considerada relevante em mobilizações comunitárias, na criação e funcionamento de conselhos municipais e pastorais sociais. Alguns grupos explicitam a diferenciação que fazem no que concerne ao apoio verbalizado pelos padres e um “apoio prático”, que se traduz em iniciativas concretas de mobilizar a comunidade, problematizar a relação entre fé e política e intervir no coletivo.

Bahia - 7o 4 dia
Frei Gilvander celebra missa, animando a resistência de famílias cristãs em situação de ocupação urbana pela falta de políticas públicas de inclusão diante da ameaça de despejo.

Além dos padres, seminaristas, missionários e religiosos consagrados são também mencionados como importantes agentes no processo de formação e acompanhamento do movimento de fé e política nas paróquias. A presença de congregações religiosas com carismas e propostas de trabalho voltados para o campo social e político em algumas paróquias favorece o trabalho tanto dos grupos de fé e política quanto das pastorais sociais.

Todas as ações que nós temos hoje dentro da paróquia é por causa dos Combonianos, da caminhada que eles têm de discípulos missionários. Então, a gente conseguiu crescer muito com isso de trabalhar em equipe, de ter mais união, de enxergar o outro, a necessidade do outro, de trabalhar pelo outro. Eles vão nessa linha, juntando a palavra de Deus, pois a palavra de Deus é ação.

Os entrevistados citam ainda pronunciamentos dos papas, dos bispos e de outros membros da hierarquia católica como orientadores de sua ação. Atribuem grande importância aos programas na mídia católica, nos quais são promovidas discussões sobre fé e política, e dizem que a participação dos padres e bispos nesses programas os fortalece na caminhada. É conferido valor positivo aos comunicados de apoio por parte dos bispos e sublinhada a necessidade de que ocorram com maior frequência, considerando que os meios de comunicação têm grande alcance entre diferentes setores católicos.

Vários grupos atribuem seu surgimento às iniciativas da Arquidiocese de Belo Horizonte, por meio de declarações, especialmente dos bispos, na Rádio América, incentivando as reflexões e outras práticas cristãs no plano dos compromissos de cidadania. Falam ainda sobre os materiais enviados às comunidades para a formação de novos grupos, como as produções da CNBB e do Nesp. Nesse sentido, utilizaram-se das entrevistas como oportunidade para expressar reivindicações sobre as atividades de educação popular, indicando a demanda por ações que julgam necessárias: “[…] nós queremos que […] traga as coisas para mais perto da periferia, igual trouxeram essa PUC aí […]. O conhecimento do fé e política é que está pequeno. ”, diz a integrante de um grupo.

Foram relatadas práticas de assessoria por padres vinculados ao Instituto Santo Inácio e à Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia aos grupos de fé e política. Além disso, tanto nas entrevistas com os leigos membros dos grupos quanto naquelas realizadas com padres que participam e têm conhecimentos sobre o histórico dos coletivos, foram mencionadas muitas experiências, especialmente em Belo Horizonte, de parceria com padres comprometidos com a vivência política da fé, que expressam “querer viver um cristianismo social”.

A Arquidiocese de Belo Horizonte é também mencionada como espaço historicamente propício ao encontro de forças potencializadoras da complementaridade entre fé e política.

Então, uma das coisas fundamentais e interessante na Igreja de Belo Horizonte foi o pluralismo de forças, às vezes, até, quase opostas na Igreja. […] Então, Belo Horizonte permitiu uma tolerância até muito grande e nós percebemos isso dentro da cidade […] e isso era a política.

Muitos grupos demandam do padre um modo democrático de liderança e participação. Sua receptividade às ideias, sugestões e queixas dos membros dos coletivos é tida como imprescindível para um trabalho profícuo. Há também grupos em que se constata ansiarem por uma liderança que respeite e incentive a capacidade de decisão dos leigos, porém, demandam também do padre que exerça papel de porta-voz dos seus anseios e definidor de regras grupais.

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Pe. Piggi, ao centro, na Câmera Municipal. 50 anos de luta pelo acesso do mais pobres a moradia digna.

Atribui-se, em alguns casos, ao pároco, a importante função de não permitir que o grupo seja alvo de iniciativas próprias à política partidária. Por vezes, os grupos de fé e política são vistos como espaços de ressonância de campanhas políticas de candidatos a cargos públicos. Para alguns coletivos, nessas ocasiões, é ao padre que se recorre para que não ocorra o uso oportunista do espaço grupal. “Não faltam interesseiros, isso não falta. Mas isso nós falamos com o padre para não aprovar. ”, diz o participante de um grupo. Outros adotam diferente modo de regulação da política partidária em seu interior. Para eles, o campo decisório e as pontuações a esse respeito situam-se no âmbito coletivo e são de responsabilidade de todos os seus integrantes.

Circulando entre os papéis de liderança e porta-voz do grupo, os padres são chamados à função profética de denúncia das questões que escondem e promovem a manutenção de hierarquias de poder, afetando negativamente a vida em sociedade.

Às vezes, a gente tinha uma postura dentro do fé e política de denúncia, uma coisa profética de denunciar algumas questões políticas que não estavam sendo discutidas, tão bem debatidas, e que geravam uma opressão; e, às vezes, isso não encontrava eco, não ecoava dentro da paróquia, da Igreja […]. Alguns padres que passaram por aqui, que tinham uma postura dentro dessa linha, até colaboravam com isso. Eu cito aqui, do meu tempo, um padre que colaborava, […], ele era até muitas vezes criticado por ter uma postura profética nesse sentido. […] para quem estava nos grupos era um motivador, […] tipo assim: “a gente não está sozinho. ”  

Há casos em que padres assumem a coordenação do grupo de fé e política, o que é visto de forma muito positiva pelos participantes. Mas, há também coletivos que afirmem a importância da organização dos próprios leigos em orquestrar seus movimentos, de modo que se interessam menos por formatos em que seja o pároco a figura central responsável pelo grupo. Esses acreditam que ao padre caberia facilitar a participação, deixando aos leigos a tarefa de modular sua implicação com os afazeres do grupo. Nessa linha de pensamento, a função do padre seria formar os cristãos para que vivam os sacramentos nas múltiplas dimensões da vida.

Eu trabalho aqui na minha paróquia com 21 comunidades. Todas […] têm consciência que elas pertencem a uma rede, não é nem a ideia de paróquia; porque a paróquia dá ideia de elite, de pirâmide, então estou tentando destruir a ideia de pirâmide para fazer circular. Para ser uma ideia de CEBs, tem que circular. E quando se trabalha em círculo, significa o quê? Que o padre não é o mais importante, o padre é mais uma pessoa que está junto. Sentamos juntos, vamos caminhar juntos e buscar solução juntos e trabalhar bem a ideia de conselhos, porque são os conselhos comunitários que fazem toda a gestão. Tentam reunir o trabalho religioso dentro da comunidade e as demandas sociais próximas dali. […] É isso que a gente propõe, embora seja lento, mas a ideia de construir rede é assim. Para não ficar um conselho para discutir só coisas religiosas ou eventos, ou padroeiros, que também faz parte, é claro; mas isso tudo tem que ser iluminado com a luta do dia a dia da própria comunidade e devagarzinho ela vai tendo sua consciência.

A experiência da paróquia como rede de comunidades [1] integra as reflexões e os afazeres de alguns grupos, mas encontra dificuldades em se sustentar na maioria das vezes; e o pároco continua sendo convocado a assumir papéis de centralidade.

Depende do padre, porque o padre é o líder, o pastor; […] ele que preside aqui. […] Então, quem mantém a paróquia são os paroquianos, mas ele é o líder, ele é o pastor, ele é o coordenador, ele é o condutor. E é da maneira de ele conduzir a coisa, de ele estimular e tudo, depende muito dele. Eu sozinha, eu falar é uma coisa; o padre falar é outra.

Se a importância da participação e apoio dos padres constitui tema tratado com ênfase pelos grupos, destaca-se em suas falas, com frequência, a carência que vivenciam. São levantadas, pelos próprios entrevistados, hipóteses a respeito das dificuldades apresentadas por alguns padres em associar fé e ação política, entre as quais, questiona-se a formação presbiteral [2].

Eu creio que a Igreja tem um papel social, isso está na Doutrina Social da Igreja. Isso não é estar contra a Igreja. […] O fé e política é um dos meios para se conseguir avanços, para que a sociedade seja mais justa e fraterna, mas é muito pequeno, é dez por cento e por culpa da Igreja, que não dá oportunidade, […] ainda é fechada. Por que ela é fechada? Primeiro que não está tendo formação para a juventude e para as crianças; nem os padres estão conscientes disso, eles não têm formação política; eles estão perdidos e desorientados. 

Muitos grupos de fé e política sentem-se impedidos de agir quando suas ações não são compreendidas pelos párocos e lamentam a ausência de lideranças que transitem com maior desenvoltura entre a prática da fé no cotidiano. Acreditam haver fragilidade de conhecimentos e diretrizes para o posicionamento dos padres e afirmam que muitos deles têm dificuldade de compreender o grupo em seus objetivos e propostas e, consequentemente, de acompanhá-los.

Nossa relação com o padre era muito boa, ele respeita muito o grupo de fé e política. […] Tem que articular da Arquidiocese […] para que em todas as foranias os padres possam explicar o que é o fé e política. […] Eles não estão envolvendo, eles respeitam muito […], mas ele [o novo pároco] chegou aqui e ainda não está tendo iniciativa; essa iniciativa tem que vir da Arquidiocese.

É entendido que a ação política deve integrar efetivamente a agenda da Arquidiocese, como diz um entrevistado:

Os padres não trabalham isso como prioridade, como tema de relevância; então nós temos essa apatia, que isso não é pastoral, não está na agenda pastoral. […] Então, como eles vão falar de uma coisa que eles também não participam? Não vão. Entendeu? Não é um tema de interesse deles também; então, talvez seja isso, um reflexo […].

O apoio dos níveis mais elevados da hierarquia eclesial é citado como algo que facilitaria a participação dos padres. “Nós temos que ter o apoio do padre e ele tem que ter apoio da cúpula lá de cima, do clero, dos bispos. ”, diz a participante de um dos grupos; fala que vai ao encontro do relato da participante de outro grupo: “[…] nós queremos que os padres tenham autonomia mesmo para explicar o que é fé e política. Nós queremos abertura política que saia da Arquidiocese”.

Os grupos demonstram ter clareza dos atravessamentos institucionais no desenvolvimento das funções do pároco. No entanto, em sua dinâmica, alguns deles acabam por ficar à espera das decisões e atitudes do líder religioso para a realização de suas tarefas. Além de ressentirem-se da falta de apoio dos padres, muitos grupos sentem-se frágeis para prosseguirem sozinhos. Incapazes de alcançar autonomia, há aqueles que chegam a interromper suas atividades por esse motivo. Percebe-se, entretanto, que isso acontece não somente porque seus próprios participantes demandam orientações dos presbíteros, mas também – e isso na maioria dos casos observados – porque a comunidade não adere aos movimentos de fé e política se tal divulgação não se dá nos espaços institucionais legitimados, como as homilias. Por vezes, para além dos espaços da paróquia, os grupos convencem-se de que o convite precisa realizar-se na voz do padre, tamanha sua representatividade nas comunidades católicas.

“Se o padre não está envolvido, o pessoal esquece da Igreja. ”; há “uma rejeição notadamente dos leigos. ”, afirma um entrevistado, fala esta reiterada por muitos outros em diferentes momentos da pesquisa. E tal rejeição torna-se mais forte e mais explícita nos casos em que o padre não apoia, não convoca a comunidade para a participação, abstém-se de qualquer manifestação a respeito do grupo – postura acompanhada de justificativa relacionada às múltiplas tarefas que desenvolve –, ou posiciona-se contrariamente ao grupo e suas propostas.

Assim, em muitos grupos, a cadência dos trabalhos grupais acompanha o grau de envolvimento do pároco em suas diferentes práticas. As mudanças de párocos têm reflexo no funcionamento do grupo.

Teve um adormecimento com a saída do padre […]. É comum quando chega uma pessoa para administrar uma paróquia que coloque os católicos mais desenvolvidos. Como o padre […] é uma pessoa muito ocupada, ele não mora lá na nossa paróquia. Ele administra a paróquia […] Antes do padre […] sair, o grupo era mais forte.

Com a vinda do padre […] a questão dele é mais o eixo espiritual, o que não impede, e nos deu a liberdade de estar trabalhando a questão social; só que ele deixou bem nítido para gente que ele não tinha condições de estar acompanhando junto de nós.

 

As dificuldades em reorganizar-se por ocasião da mudança de pároco denotam, além de uma possível relação de dependência da figura do líder, pouca capacidade de resistência e rearticulação grupal. Contudo, quando questionados sobre quais seriam as dificuldades enfrentadas pelos grupos para prosseguirem de modo mais independente, alguns grupos apontam com clareza entraves concretos:

Eu até fico, assim, um pouco triste de ver como tem, assim, uma regressão quando tira uma liderança, não é uma pessoa que está manipulando e tal, não. Mas, é porque a gente tem que ter uma referência, porque se eu tenho que fazer uma reunião, eu tenho que pedir autorização do padre. Se eu preciso fazer alguma computação, eu preciso estar ligando para a secretaria para poder estar deixando à disposição as pessoas para estarem indo, então tudo isso nos envolve a ter uma pessoa com esse compromisso igual Jesus Cristo fez. Não adianta ficar só rezando, tem que estar atuando também.

Na minha paróquia, não tem divulgação. Porque agora a gente é até proibido de dar recado, só o padre pode dar os recados. Nós estamos com um padre novo lá, novo até de padre mesmo, sabe? Então, está proibido de dar recados.

Um dos padres entrevistados reconhece os pontos críticos na formação presbiteral, mas chama a atenção para seu papel no que tange à caminhada dos grupos e ao olhar sobre as questões sociais e políticas.

Eu acho que a função nossa não é maior nem melhor, é ser fermento junto dos cristãos e cristãs, é ser companheiro, ser incentivador e […] celebrar sacramentalmente as lutas do povo. Eucaristia é isso, o pão que é repartido é o pão de quem está lutando por trabalho, pelo salário, pelos direitos humanos, pelos quilombolas e suas terras, índios e suas terras. Isso é repartir o pão eucarístico. […]. E de onde vem o pão eucarístico? Da terra, da natureza, do trabalho do homem e da mulher; como é que esse pão chega no altar? Passando pelo trabalho […], pelo salário do homem e da mulher, passa pelo assédio sexual no trabalho, pelas mulheres que trabalham igual homem e ganham menos. […]. Nós, presbíteros da Igreja Católica, temos um papel muito bonito que é celebrar as lutas do povo […].

Notas:

[1]  A concepção de “paróquia como rede de comunidades e grupos” está expressa no Documento de Aparecida (cap.5, 172).

[2] Também os presbíteros sinalizam insuficiências em sua formação. A partir de narrativas de padres, levantadas nos encontros da Comissão Nacional de Presbíteros, Pereira (2013) aborda aspectos como a formação filosófica e teológica deficientes, e a pouca atenção à formação permanente da categoria. No levantamento, evidencia-se a demanda por formação, queixa insistente entre os padres presentes nos referidos encontros e que corresponde à dimensão das relações humano-afetivas, como também à relação entre Igreja e sociedade. Os padres apontam preocupação e despreparo para lidar com questões de impacto no mundo contemporâneo, mais especificamente às relacionadas aos direitos humanos e à bioética.

Fonte:

Núcleo de Estudos Sociopolíticos – NESP

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