A fé cristã possui uma dimensão política que lhe é constitutiva. Dizendo de forma concreta, não se pode ser cristão à margem das questões sociopolíticas que emergem do lugar onde o cristão está inserido. Um divórcio entre fé e política provocaria graves consequências para a concretização da vida cristã. Como esta dimensão vem sendo vivida pelos cristãos na Arquidiocese de Belo Horizonte?

O Observatório da Evangelização publica, a sexta postagem da importante pesquisa, sobre os grupos de fé e política da Arquidiocese de Belo Horizonte, desenvolvida pelo Núcleo de Estudos Sociopolíticos do ANIMA PUC Minas – NESP:

Quando fé e política se encontram: apontamentos de pesquisa

Adriana Maria Brandão Penzim

Bruno Márcio de Castro Reis

Karina Pereira dos Santos

Robson Sávio Reis Souza

6ª PARTE

38a_romaria_da_terra

Sobre a compreensão de fé e de política dos membros dos grupos de fé e política

A) O que os membros dos grupos entendem por fé?

Comumente, ao iniciarem seus relatos, os entrevistados demonstravam dificuldades para expressarem suas concepções de fé. Aparentando certo constrangimento, por vezes mantinham longo e reflexivo silêncio, o diálogo se interrompia, e os olhos se fechavam em uma busca interior por respostas.

Alguns divagavam em pensamentos e falas sobre a religião; outros faziam menções a passagens bíblicas, aos ensinamentos e à vida de Jesus Cristo, ou faziam referências a documentos da Igreja[1].

Em algumas situações, a fé era mencionada como algo intimamente relacionado à vida de oração e à interioridade; para outros, liga-se aos aspectos do culto, da religião e dos ritos, ao cumprimento de alguns deveres cristãos, como participar dos sacramentos, frequentar as missas dominicais, comparecer às festividades religiosas. Expressando sua dificuldade para dizer em palavras sua fé, outros a definiam como “acreditar”, “acreditar em Deus”, “acreditar em um ser superior que nos guia”. Por fim, a fé surge como desejo e esperança, como força interior. “Fé é um desejo, uma esperança, uma coisa que vem de dentro.”.

Ao associar desejo e esperança, em um mundo que passa por intensas e profundas transformações sociais, a fé é certamente um alento e aponta um horizonte, mostrando-se como luz no caminho, fazendo-se fonte de coragem na luta por um mundo melhor.

Não raro, contudo, nos grupos se fala da fé como dom ou algo inato, como uma espécie de herança familiar, reafirmada, entretanto, ao longo da vida, na forma de ação no mundo, como na narrativa de um entrevistado:

Falar de fé é complicado. Você sabe que fé, já nasce com a gente, não é? Eu nunca tive problemas com fé, meus pais, meus irmãos tudo são pessoas de fé. Meu pai tinha uma fé, minha mãe tinha uma fé; então, a fé remove montanhas. Mas não adianta a gente ter só fé. A gente tem que agir. Não adianta ficar só lá dentro de casa “eu tenho fé que Deus vai me ajudar”, “eu tenho fé que fulano vai ganhar e vai ser um presidente bom”, certo. Mas nós temos que arregaçar as mangas e trabalhar […].

É bastante frequente a visão da fé como dádiva, algo que “parte lá de dentro” relacionada à vida em abundância: “fé enquanto […] dimensão da vida. ”. Nesse sentido, sustenta-se em muitos grupos a visão de que a fé precisa ser mobilizada a favor da coletividade, na forma de busca de conhecimentos sobre a política e de elementos que facilitem a tomada de consciência. Todavia, associa-se, por vezes, à caridade em sua forma de expressão mais tradicional: as práticas assistenciais.

Há quem reconheça e afirme que o entendimento do que seja a fé também é algo que vai se modificando ao longo dos anos e da caminhada pastoral, grupal e pessoal. Tal como na narrativa de uma jovem participante de um grupo que diz de uma fé processual, que sustenta uma espiritualidade em permanente construção, na comunhão com a realidade.

Eu não sei como definir com muita clareza o que eu acho que é fé. Mas, com certeza, o meu histórico de relação com a fé começou na minha família também, com a minha criação cristã. Mas eu acho que foi prosperando e ampliando um pouco com a minha maturidade, porque, quando eu era mais nova, eu me lembro de fé como uma coisa assim puramente espiritual, relação eu e Deus. Então, ter esperança nos momentos difíceis, rezar, pedir e agradecer. Hoje em dia, eu consigo ver a fé com um pouco mais de alcance humano mesmo; […] eu consigo ver a fé muito no meu irmão, na pessoa do meu lado. Eu tenho uma relação com a fé, hoje em dia, às vezes, parece até estranho falar, mas eu consigo ver Deus muito mais no meu irmão, a minha fé está muito mais aqui, do que lá. E eu acho que é isso que me prende tanto à causa. Minha paixão tanto pela causa, tanta dificuldade que a gente tem. Eu acho que é a esperança de que aqui tem algo a ser construído, claro, com algo por trás maior, que me sustenta, que nos dá força. Mas a fé, para mim, ela está mais aqui, ela é mais humana.

Se para muitos a noção de fé é afirmada como crença transcendente em um Deus superior que fortalece, dá sabedoria e humildade, e encoraja a olhar o outro, observa-se na grande parte dos relatos a centralidade da história de Jesus Cristo como referência para a vivência prática da fé. Seus ensinamentos são vistos como a luz que ilumina e descortina o caminho a ser seguido no mundo atual. Justiça social, respeito e amor ao próximo, solidariedade e fraternidade, acolhimento e inclusão do marginalizado, são ensinamentos de Cristo com frequência destacados pelos grupos como capazes de transformar o mundo em que vivemos. Para muitos entrevistados, partir da fé buscando a justiça nada mais é do que comprometer-se com a humanidade e seguir os passos de Cristo, razão de sua esperança.

ca5d52f237f5f53871a8539e9a29dc3cc4e99a8f

Fé para mim é acreditar em um Deus, que é tudo para gente e está sempre a nos guiar. Nós temos que buscar alimentar esta fé, porque se você não alimentar vai chegar um momento que você vai perdê-la. Através da sua prática e da participação na igreja é que você vai alimentando e enriquecendo esta sua fé. Lembrando, a carta de São Tiago, a fé sem obra é morta; então, uma maneira de você fortalecer a sua fé é praticando.

“Ação”, “prática” e “trabalho” são termos recorrentes nas narrativas sobre a fé, em um gesto que une o crer ao agir. Muitas foram as menções à Carta de São Tiago[2], na qual se declara a necessária complementaridade entre a fé e a ação, entendida nos grupos como ação ética e espiritualidade viva.

A fé, como um nível de conhecimento, de saborear realidades que são invisíveis. Nós não conseguimos ter uma constatação empírica, científica de certas coisas, mas nós nos fiamos, nós mergulhamos de cabeça. Jesus ressuscitou, venceu a morte. Então, nós vamos procurar ajudar, fazer o bem, a justiça e a paz acontecer, com fé e esperança. São duas virtudes para o tempo presente, para que a gente chegue lá definitivo no céu. Mas não é assim de empurrar com a barriga e esperar que as coisas aconteçam. A pessoa de fé é uma pessoa proativa, comprometida, não se acomoda. A fé então como um incentivo, uma forma de nós nos motivarmos para fazer o bem acontecer; a gente ter a certeza, contra todas as incertezas, de que vai dar tudo certo, tudo para a glória de Deus.

Percebem-se, por vezes, em um mesmo grupo, entendimentos distintos sobre fé, o que, entretanto, não parece gerar conflito entre os seus membros.

Para mim, vou falar primeiro para mim e não em termos de grupo. Para mim, a fé é a esperança. Para mim a fé é um saber que está ligado à mística, à espiritualidade que move para a caminhada, para a luta. Eu não faço pela minha conta simplesmente. Tenho certeza que, na minha condição de ser, eu sou instrumento, aonde for que Deus me levar para fazer as coisas, se for na política ou se for de outra forma… mas é uma coisa que move mesmo para a vida. Agora, as pessoas, no nosso coletivo, é a esperança, a justiça, fazer valer a vida. A gente estava refletindo um dia, as pessoas são católicas … por isso é difícil separar, pois a nossa ação é consequência da leitura que a gente faz do Evangelho.

Na união reflexão-ação, a ideia de fé surge referida aos momentos de oração e aos estudos bíblicos como postura necessária à existência católica e de fundamental importância para impulsionar as ações do cotidiano dos grupos, fortalecê-los na superação das dificuldades da vida e das ações que encampam. A oração é busca de iluminação do espírito que promove o discernimento sobre os caminhos a seguir.

Geralmente, nos encontros que a gente faz, a gente tem um momento para a leitura do Evangelho com o que nós vamos tratar no dia. É o momento de espiritualidade que a gente sempre busca relacionar fé com ação. Porque antigamente eles chegavam e já começavam a falar de política e nem lembravam de fazer esta ligação do Evangelho, com o que está sendo tratado.

Muitos grupos relataram a prática de momentos de espiritualidade reservados à liturgia, aos estudos teológicos e aos retiros e orações. Embora em diversos momentos a espiritualidade seja associada à oração, é importante destacar que, nas falas dos entrevistados, nem sempre “oração” e “espiritualidade” têm o mesmo sentido. Se a oração é percebida como uma prática de meditação contemplativa e a espiritualidade se associa ao modo de ser, ao modo de agir no mundo, motivados pela fé e pelo seguimento da pessoa de Jesus Cristo, esses cristãos vivem a espiritualidade na perspectiva da alteridade, como uma busca por solidarizar-se com o próximo, à procura daquilo que reafirma a vida para si e para o outro: “A minha fé tem duas dimensões, não é só minha relação com Deus, é também a minha relação com meus irmãos.”.

Vale, contudo, ressaltar que poucos grupos declararam a realização de reflexões intragrupais sobre as concepções de fé ali existentes. O mesmo ocorre com a noção de política. Nota-se que, embora a maior parte dos grupos se autodenomine de “fé e política”, debates a respeito dos termos que fundamentam sua existência são pouco ou não explorados.

Não obstante as dificuldades em colocar objetivamente seu entendimento, na maior parte das narrativas e na maneira de se expressarem os entrevistados (o que em um texto escrito não se tem como reproduzir: gestos, sorrisos, olhares, etc.), apresenta-se a visão de uma fé muito viva e vinculada à ação concreta, comprometida com práticas transformadoras. Os atos vinculados à fé denotam sua clara opção pelos pobres e isso se faz no trabalho político e social, com vistas a colaborar para a construção de novas relações em um mundo mais justo, acolhedor e fraterno.

B) O que os membros dos grupos entendem por política?

LOGO-FE-E-POLITICA-1024x1024

Dita como “inerente à vida”, definida como “a busca pelo bem comum”, “a busca e a construção de uma sociedade mais justa e democrática”, a política é expressa também como “uma forma de colocar a fé em ação e buscar o bem para o outro.”.

Muitos são os que afirmam ser a política expressão da convivência e da maneira de se relacionar com a diversidade presente na sociedade, diante dos muitos e distintos interesses circulantes. A política concorre para a administração dos conflitos entre pessoas e grupos e promove a regulação do jogo do (e pelo) poder.

A política seria conhecer as pessoas com quem eu convivo, quem está próximo de mim, quem mora na minha rua. Este meio de sociedade individualista, que é enclausurada, cada um dentro do seu espaço, onde eu não sei quem é o meu vizinho, o que ele faz, que dificuldades ele encontra na vida, no dia a dia, faz com que a gente viva essa sociedade quase caótica, da violência, das dificuldades, da falta de transporte coletivo, da falta de bens públicos, da própria conservação do bem público. Na maioria das cabeças das pessoas o que é público não é de ninguém, acaba que não tem dono e eu acho que o público é de todo mundo e todo mundo é responsável pelo cuidado do que é público, porque serve para mim, serve para outras pessoas.

Política para mim é resolução de conflitos, e conflito é próprio da natureza humana, interesses diversos. Para chegar a um consenso, um denominador comum é preciso que haja diálogo, haja conversa, persuasão, que eu convença o outro dos meus interesses. Quanto mais coletivo o interesse, mais fácil é de resolver. Quanto mais individual, os interesses mais conflituosos ficam.

Muito se fala sobre a política como “ato de conviver”, de “viver em sociedade”, presente em qualquer espaço relacional. Com frequência, práticas cotidianas são referidas de modo a exemplificar o entendimento de que vivemos imersos em um contexto político.

Política, a princípio, é uma forma das pessoas conviverem, uma forma de você estar convivendo com o outro. Até dentro de casa você faz política, quando você tem que dividir o espaço, os bens ali, tem que dividir a comida.

De modo recorrente, os entrevistados sublinham a necessária distinção entre a política partidária daquela a que se dedicam — voltada para o bem comum — e lamentam que tal concepção restritiva ganhe cada vez mais espaço em nossa sociedade.

20150514_202404

Para mim, a política é tudo aquilo que a gente faz. Porque é esta forma de convencimento, de diálogo que a gente abre para chegar a um denominador comum, de modo que ela sempre seja direcionada para o bem coletivo. Distante daquela política partidária que, muitas vezes, envolve os interesses dos partidos políticos e que muitas pessoas confundem com a essência real da política.

Eu acho que política é isso, muito mais ampla do que meramente esse momento que nós estamos vivendo agora, eleitoral, esse momento de campanha: “nós vamos fazer, nós vamos fazer” ou “deixei de fazer”.

A política? Depende da política. Tem a política mesmo e a politicagem. A política mesmo é voltada para o social, para o bem-estar das pessoas e não é esta politicagem da corrupção, de falsidade, hipocrisia. Eu sei também porque eu lido com políticos. No bairro, a gente tem políticos […] a gente vê que, no fundo, é muita hipocrisia e a gente vê que no fundo não é voltado para o bem-estar do outro, é para o bem-estar próprio.

Em suas falas acerca do que é política, os entrevistados, por diversas vezes, fazem referência a Leonardo Boff e à Teologia da Libertação[3]. Assim, em suas narrativas, discorrem, por um lado, sobre a política percebida na perspectiva dos poderes de Estado e ao exercício da democracia representativa e suas vicissitudes. É quando se referem ao exercício de cargos públicos, à atividade legislativa e partidária e seus dilemas éticos; por exemplo, frequentemente mencionam práticas corruptas no âmbito governamental.

Nesse contexto, reconhecendo sua versão, indissociável, da participação popular, destacam a política praticada pelos grupos como exercício de cidadania ativa que se realiza no acompanhamento e controle social dos poderes. Tem-se aí a política entendida como conjunto de regras e atores sociais; como funcionamento institucional e organização social; mas também como posicionamento crítico, ético e democrático decorrente de participação popular.

Por outro lado, são recorrentes as referências à política que se faz tendo por horizonte a construção de uma sociedade mais justa e fraterna, responsabilidade de todo o conjunto da sociedade.

A política é o que é público, o que é de todos, é onde todos participam de todas as decisões que a gente tem de tomar além do “eu”, que envolve o “nós”, é uma ação política. E isso, para mim, agora estou entendendo muito claro como a gente está distante disso ainda porque a maioria das pessoas espera que a administração venha de cima mesmo. É claro que tem os representantes que estão lá para realmente fazer acontecer, com o poder que eles têm para isso, mas eu acredito que a gente precisa dessa parceria, com a nossa consciência, de quem tem fé vá fazer também. Se a gente quer alguma coisa, depende realmente desta política entre a gente, essa relação entre a gente, para a gente realmente conquistar uma parceria com o poder público, maior.

Percebe-se nas falas que tanto em meio aos grupos quanto em meio às comunidades em que desenvolvem seus trabalhos, a política partidária encontra-se desgastada e sem credibilidade, e não são poucos os que afirmam sua descrença. Na voz dos grupos, um pouco mais de “conscientização” sobre essas diferentes “políticas” ajudaria a ampliar a participação e o envolvimento das pessoas não apenas nos grupos de fé e política e nos movimentos sociais de modo mais amplo, mas no exercício de cargos públicos.

Em todos os grupos, nota-se a preocupação com o compromisso social pela democracia. Presente nas narrativas como imprescindível às situações consideradas problema ou que demandam mudanças, a política aparece não somente como instrumento na busca de resolução de problemas, mas na forma de organização e participação individual ou grupal na sociedade.

Política não é só época de eleição, os candidatos, as campanhas. Política é a vida toda. É o que nós temos que colocar para o pessoal ou dentro da comunidade: a luta quando se falta água, é a luta pelo asfalto das ruas, uma luta para o lazer, para o lazer sadio, festas. […].

A política é também identificada por muitos como respeito às diferenças e como convivência familiar e comunitária. Assim, ela “é o diálogo orientado para a vida em plenitude na experiência da comunidade cristã.”.

Tendo a comunidade como espaço privilegiado para a ação política, os grupos apontam a importância de uma tomada de consciência individual e coletiva e colocam-se como agentes dessa conscientização.

A política é quando você vê a necessidade de fazer a transformação social, de conscientizar o outro de que ele também faz parte do mundo, e que ele é peça fundamental na transformação do mundo, porque nós não estamos na política por interesse próprio […]. Eu cresço quando eu chego lá em cima e olho para baixo e não consigo titubear perante o grupo. […]. Teve uma coisa que eu guardei na minha mente, foi em 97, uma palavra do Arcebispo, quando ele disse (foi na Praça da Estação, tinha, mais ou menos, umas duas mil pessoas, no dia do Grito dos Excluídos): “A política é a arte de fazer o povo feliz.” […].essa consciência de que política se faz unificando os interesses de todos: seja pobre, seja rico, seja preto, seja branco, mais ou menos… Fazer política é pensar grande.

Em suas falas, os entrevistados fazem severas críticas aos recorrentes episódios de corrupção no campo da política institucional divulgados pela mídia, o que é também apontado como fator de descrença e recusa à participação ativa.

[…] até o fato de você não querer saber de política, é política. Só que o cara não põe isso na consciência. E isso é triste, né? É uma política negativa isso aí. É muito violento o cara não querer saber de nada. Quando um entrar no poder lá, deita e rola, porque não tem ninguém cobrando dele nada, fica à vontade.

Veem-se aí os efeitos corrosivos de uma tradicional cultura de corrupção, que enfraquece o agir ético e a disposição para o exercício político em prol do bem comum, situação frequentemente assinalada pelos entrevistados.

Assim, em muitos grupos, sob a constatação do uso perverso do poder político, do mau exercício da função pública, alegam que as pessoas nas comunidades encontram-se fortemente descrentes com a política e pouco se empenham no envolvimento coletivo em prol das questões sociais, porque passaram a crer que, em última instância, a corrupção e a politicagem — entendida como prática corrupta e perversa daqueles que se utilizam de uma posição de poder para impor vontades pessoais e agir em proveito próprio— desvirtuariam as causas coletivas e colocariam a perder todo esforço e trabalho depreendido na base, nos grupos e em suas práticas cotidianas, que visam a mudanças conjunturais e estruturais.

Desse modo, na voz dos grupos, muitas pessoas assumem posturas apáticas, de indiferença e mesmo de rejeição ante a política, sobretudo partidária. Esse comportamento, para os grupos, denota evidente rejeição à corrupção, e não, nos termos empregados por eles, à “verdadeira política”, entretanto incompreendida por boa parcela da população. E nessa linha de pensamento muitos entrevistados insistem em reafirmar a dificuldade de, no interior da própria paróquia, encontrar pessoas que comunguem da noção de que fé e política não se separam.

Notas:

[1] Os entrevistados se referiram notadamente a documentos que compõem a Doutrina Social da Igreja, a documentos da CNBB e a outros materiais de estudo e formação produzidos pela Igreja.

[2] Atribuída a Tiago Menor, é uma das chamadas “Cartas Católicas”. Seu conteúdo aponta com veemência a importância de não se reduzir a fé a simples declaração e sublinha a necessidade de se expressá-la concretamente em obras e ações, tendo em vista o bem de todos. Ressaltando um cristianismo concreto e prático, propõe que a fé se realize no plano da vida, no amor ao próximo e no compromisso com os pobres.

[3] Entre outros autores, Boff teve, por exemplo, um de seus textos publicado na revista produzida pelo Movimento Nacional de Fé e Política referente ao Encontro Nacional realizado na cidade de Ipatinga, Minas Gerais, em 2009. Boff distingue dois tipos de política: a social e a partidária. Sobre a política social, ele afirma: “É tudo que diz respeito ao bem comum da sociedade; ou então é a participação das pessoas na vida social. Assim, por exemplo, a organização da saúde, da rede escolar, dos transportes, a abertura e a manutenção de ruas, de água, de esgoto etc., tem a ver com política social. Lutar para conseguir um posto de saúde no bairro, se unir para trazer uma linha de ônibus até o alto do morro, participar de uma manifestação no centro da cidade pela reforma agrária, pelo solo urbano, contra a violência policial. Essa política visa ao bem comum de todos ou de um grupo, cujos direitos estão sendo desrespeitados. Definindo de forma breve podemos dizer: política social ou Política com P maiúsculo significa a busca comum do bem comum. ”. Em relação à política partidária, Boff a define da seguinte maneira: “Significa luta pelo poder de Estado, para conquistar o governo municipal, estadual ou federal. Os partidos políticos existem em função de se chegar ao poder, seja para mudá-lo (processo revolucionário), seja para exercê-lo assim como se encontra constituído (governar o Estado que existe). O partido, como a palavra diz, é parte e parcela da sociedade não toda a sociedade. Cada partido tem por trás interesses de grupos ou de classes que elaboram um projeto para toda a sociedade. Se chegarem ao poder de Estado (governo) vão comandar as políticas públicas conforme seu programa e sua visão partidária dos problemas. ”. (BOFF, 2009, p.16)

 

Fonte:

Núcleo de Estudos Sociopolíticos – NESP

Anúncios