No último domingo, dia 13 de março, completaram-se três anos da eleição de Francisco à frente da Igreja. O Papa traz como cerne de seu magistério: viver o Evangelho e anunciá-lo com a própria vida:

“O Evangelho é possível porque toca o centro da nossa humanidade. Há uma correspondência profunda entre o centro da nossa humanidade e o centro da humanidade de Cristo, entre o mistério da existência e o mistério da salvação.”

E por buscar referir-se continuamente à práxis de Jesus de Nazaré é que Francisco deseja que a Igreja viva de acordo com o mandato das bem-aventuranças: pobre e humilde, pois, a

“humildade das Escrituras, de fato, é a renúncia a existir fora de Deus. E sentir que tudo vem de Deus e da Sua graça é o único caminho que permite que a Igreja ainda seja credível, atraente e próxima das pessoas deste tempo.”

Três anos de Francisco

Gianfranco Brunelli

Esperava-se uma referência. Mas não. Houve de menos e houve de mais. No domingo passado, em que caía o terceiro aniversário da sua eleição, o Papa Francisco não disse nada sobre si. Mas, no fim da recitação do Ângelus, fez com que se distribuísse à multidão dos fiéis presentes uma cópia do Evangelho de Lucas (que é lido neste ano durante a liturgia), intitulado: “O Evangelho de Misericórdia de São Lucas”, com as obras de misericórdia corporais e espirituais apresentadas no apêndice.

O Evangelho e a misericórdia. Esse, o gesto. Essas, as palavras.

Recém-eleito papa, há três anos, pareceu claro desde logo que três eram as questões (os desafios) que, vindo do seu estilo pessoal, logo dariam forma ao pontificado e à Igreja. Tudo derivava da escolha do nome: Francisco. Uma escolha inédita, disruptiva, epocal.

No entanto, Bergoglio parecia, desde já, apoiar essa escolha tão arriscada com simplicidade, naturalidade, como se esse nome fosse realmente seu. As questões eram (e são) estas: a relação entre profecia e instituição; a reordenação simbólica da Igreja e o seu fundamento teológico; o efeito comunicativo e o risco do seu possível desgaste.

É inútil dizer que as três questões ainda estão em aberto. E assim vão permanecer por muito tempo. Mas pressionava e pressiona com urgência o Papa Francisco o fato de abrir processos, sabendo muito bem que não pode fechá-los.

Ele teorizou sobre o primado do tempo sobre o espaço. É preciso muita humildade, fruto de uma espiritualidade profunda, radical, que se confia totalmente a Deus e não confia nada nas próprias forças ou capacidades para fazê-lo. É preciso estilo (o estilo de Cristo) como forma de vida, mais do que a certeza de um princípio como forma de verdade.

A escolha de Bergoglio como papa e a sua escolha de assumir o nome de Francisco vinham depois da renúncia ao pontificado de Bento XVI, outra escolha de grande humildade e disruptividade, que atestava inequivocamente a profundidade da crise institucional (como crise de autoridade) da Igreja Católica, ou seja, o limite, o esgotamento de uma longa fase histórica na qual a abordagem dogmática tinha sido o pilar da forma da instituição eclesiástica.

A dialética profecia e instituição caracterizou e, talvez, sustentou toda a história da Igreja, em um processo de distinção quando não de contraposição. O Papa Francisco encarna simbólica e programaticamente ambas as dimensões. Uma por vocação, a outra por papel. E isso é inédito. Não mais apenas uma oportuna acolhida, mas a convicção de que só a profecia pode salvar a instituição. Ele percebeu tanto a mudança profunda em que desembarcou o mundo globalizado, quanto a crise do cristianismo, especialmente no Ocidente.

A escolha de Francisco é a de assumir até o fim o conceito de tradição e recuperar a escolha da Igreja das origens. Entre os séculos I e IV, a Igreja operou a escolha cultural e política (expressada teologicamente) de passar do querigma ao dogma. Do coração do anúncio evangélico aos princípios orientadores como forma da fé, em si imutáveis uma vez codificados, porque modificar a sua forma significa atacar a sua substância.

De uma abordagem cumulativa, preocupada em dar razão sempre, em todos os pontos da enunciação e da comunicação, do conteúdo dogmático da fé cristã a uma concepção processual e relacional, centrada na oferta do Evangelho de Deus: essa é a escolha histórica do Papa Francisco.

No centro do seu magistério, está isto: viver o Evangelho. Anunciá-lo com a vida. O Evangelho é possível porque toca o centro da nossa humanidade. Há uma correspondência profunda entre o centro da nossa humanidade e o centro da humanidade de Cristo, entre o mistério da existência e o mistério da salvação.

O anúncio da fé deve ser ressoado novamente, como se fosse a primeira vez, indo além das formas culturais predominantes que até aqui o expressaram. O forte impulso do magistério de Francisco à saída da Igreja de si mesma, da própria certeza de centralidade também mundana, configura talvez a única forma possível hoje com a qual a instituição pode renovar (e conservar) a si mesma.

O papa está convencido disso. Não basta conservar o passado nas formas do passado. Essa não é a tradição. O princípio não é o que sabemos e que nos permite explicar (e julgar) a história. Ele deve recuperar a “verdade” do Evangelho como “caminho” e como “vida”. Não nos salvamos como instituição. Não basta a reorganização do sistema.

Por isso, a Igreja, segundo Francisco, deve ser humilde e pobre em espírito, de acordo com o mandato das Bem-aventuranças. A humildade das Escrituras, de fato, é a renúncia a existir fora de Deus. E sentir que tudo vem de Deus e da Sua graça é o único caminho que permite que a Igreja ainda seja credível, atraente e próxima das pessoas deste tempo.

A partir dessa escolha, decorrem outras escolhas: uma Igreja pós-ideológica, distante do poder e próxima de todos, começando pelos mais pobres. Uma Igreja livre para poder anunciar um Deus de misericórdia, que reconhece a historicidade das coisas, a precariedade das condições existenciais, mas que sabe dizer que se pode recomeçar, que está aberta a porta da renovação, apesar das falhas.

Uma Igreja que pode viver como povo de Deus, sujeito comum da fé e da evangelização. Quando o bispo de Roma, recém-eleito, pede que o povo reze e o abençoe, reconhece a sua subjetividade crente e orante. A eclesiologia do Papa Francisco, como eclesiologia de comunhão, agindo sobre a renovação do princípio sinodal, reequilibra a relação entre bispos e Pedro, entre Igreja local e Igreja universal.

Não menos difícil é o desafio da relação com a mídia. Não pondo entre si e a comunicação qualquer barreira ou qualquer filtro, o Papa Francisco, por vezes, corre o risco do mal-entendido e da superexposição, ou daquela que ele chama de “francisquite”, uma espécie de consenso fácil, de aplauso muitas vezes acrítico.

Mas ele não parece se importar muito nem com um nem com o outro risco. Ele está convencido de que as pessoas o compreendem mesmo assim, graças à (e apesar da) mídia.

Francisco aceitou e propôs um desafio enorme, que certamente acelera a crise da instituição eclesiástica e que deve ser recomposta com a reforma da própria instituição. Mas ele não é um papa da instituição, é um pastor. Cinquenta depois do Concílio Vaticano II, um papa de nome Francisco, retomando o tema do primado da pastoral, retoma e implementa o estilo do Vaticano II, que não tinha nem simplesmente o caráter da doutrina dogmática sempre válida, nem o da disposição canônica, mas sim o de uma diretriz pastoral.

Ele pediu à Igreja, a todas as Igrejas que o sigam nessa renovação. Aumentarão as resistências e as dissimulações. Mas não parece haver outro paradigma.

A opinião é de Gianfranco Brunelli, diretor da revista italiana Il Regno, do Centro Editorial Dehoniano de Bolonha. O artigo foi publicado no jornal Il Sole 24 Ore, 15-03-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Fonte:

IHU

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