O nosso Deus não ficou inerte, fora da história humana. Entrou nela, colocando-se ao lado dos injustiçados. Estes são os amados de Deus, mesmo nas condições tão desprezadas em que vivem. Nesta semana santa, o rosto do crucificado interpela-nos em cada um dos crucificados de nosso tempo. Urge que mudemos nossa postura: de expectadores desse sofrimento tão grande, como cristãos que assumem autenticamente a própria fé, passemos a nos manifestar contra a cultura do comodismo que permite o distanciamento dos crucificados.

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OS NINGUÉNS

As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chova ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.

Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:

Que não são embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

Eduardo Galeano

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