O Observatório da Evangelização apresentará uma série de testemunhos de boa prática cristã, ou seja, falará sobre homens e mulheres que, em resposta aos sinais dos tempos, encarnam com atitudes concretas a boa nova de Jesus. Escolhemos, para começar esta série, uma matéria sobre o Padre Pigi do jornalista Jefferson da Fonseca Coutinho, publicada no Estado de Minas:

Há meio século, padre deixou a família rica na Itália e abraçou favelas em BH. Padre Pigi enfrentou prisões e ameaças de morte, sem jamais perder a fé.

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Na Igreja de Santo Antônio, no elevado da Rua Madre dos Anjos, tudo é muito simples e bem mais perto do céu. Da modesta casa de Deus muito bem cuidada, arejada, em pintura esverdeada, também abrigo paroquial aos fundos, é possível avistar boa parte da Região Norte de Belo Horizonte, nos limites dos bairros Providência e Primeiro de Maio. É onde o padre italiano, coordenador diocesano da Pastoral Metropolitana dos Sem-Casa, Pier Luigi Bernareggi, o padre Pigi, de 73 anos, prepara a missa de domingo:

“Da coragem de viver. Não por causa das nossas fracas possibilidades, mas por causa da força da ressurreição de Cristo”, ensina.

No Brasil desde 1964, padre Pigi abraçou a causa dos moradores de favelas e dos sem-casa, participando ativamente do assentamento e da conquista de títulos de propriedade para milhares de famílias da capital e região metropolitana. Empenho que lhe rendeu prisões, ameaças de morte e muitos desafetos.

Padre Pigi é a personificação da renúncia. Deixou o conforto da família de posses, do ramo de aço, em Milão, para viver pelos desfavorecidos mineiros. Seminarista, bastou uma oportunidade – depois de ouvir dom João Resende Costa e dom Serafim Fernandes de Araújo, em missão na Itália – para que ele e  três colegas se mudassem para o Brasil.

Dos quatro conterrâneos, apenas Pigi e Alberto Antoniazzi, falecido em dezembro de 2004, se firmaram em Belo Horizonte. Pigi conta que a grande alegria do seu grupo de estudantes, nas horas vagas, era vencer as cercas dos fundos para visitar os aglomerados:

“O mundo favelado sempre foi uma preciosidade. As favelas são um rio de humanidade que preenche a cidade todas as manhãs com o sol de seus operários”, considera.

Para o padre, aglomerados são áreas de famílias.

“Em Belo Horizonte, o tráfico está mais presente na Savassi do que nas favelas”, considera.

Na salinha mínima, feita escritório, nos fundos da Igreja de Santo Antônio, não há computador. De tecnologia, uma máquina de xerox apenas. Em evidência, uma surrada Olivetti num apoio de canto, abastecida com folha de trabalho em curso. Sobre a mesa, números:

“Não são meus. São do IBGE: em Belo Horizonte, uma pessoa em cada sete é favelada. Uma outra, também em cada sete, é sem-casa. Esses são os mais sofridos porque são invisíveis. Estão jogados nas moradias muitas vezes indignas dos pais ou sofrendo para dar conta de pagar aluguel”, diz com sotaque milanês.

Pigi tem em mãos, listados, 11 grandes terrenos, que, segundo ele, dariam para abrigar 86 mil famílias.

“Nosso déficit é de 70 mil. Mas o poder público não vai atender os sem-casa, com desculpas ambientalistas”, avalia.

Com a autoridade de quem conhece a fundo as batalhas sociais desde os anos 1960 – atualmente, ajudando na assistência a 35 mil moradores de 10 comunidades –, padre Pigi critica políticas públicas “assistencialistas” e chama de “agiota mundial” o poder econômico internacional, recorrendo ao pensamento deixado pelo Papa Pio XII: “Não haverá paz no mundo enquanto não houver um governo único”. Ele lamenta ainda o vazio cada vez maior no coração dos homens. Para Pigi, todo aquele que abandona Deus se torna carrasco dos pobres.

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Chinelas, enxadas e facões

Não se abraça causa tão complexa, com tamanha intensidade, sem fazer inimigos. No fim dos anos 1990, para proteger 3 mil famílias que sonhavam erguer suas casas em terreno pago em prestações na região metropolitana, padre Pigi conta que, “ameaçados de morte por jagunços armados até os dentes”, ele e as famílias enfrentaram autoridades e gente mancomunada. Acolhidos pela liderança de padre Pigi, os sem-casa recuaram com suas chinelas, enxadas e facões.

“Os jagunços chegaram e tomaram conta do terreno que já estava sendo pago. Foi numa segunda-feira de manhã, não esqueço. Se o dinheiro pago pelo grupo de pobres, revoltados, não tivesse sido devolvido até o fim de semana, certamente teria sido a maior tragédia da terra da história de Minas Gerais”.

Preso várias vezes, sempre à frente de desfavorecidos, o homem de fé não se abate. Avesso à tecnologia, Pigi dá valor à liberdade e reúne forças para manter seus contatos sempre ao alcance dos olhos, custe o que custar.

“Fiz questão de não aprender a usar o computador para não ser escravizado pela informática”, conta.

Diz não fazer uso de telefone celular pelo mesmo motivo. Com a saúde prejudicada, à espera de novo tratamento contra o câncer, o defensor dos pobres e oprimidos não se dá por vencido. No entanto, revela vontade frustrada no coração.

“Viemos para Belo Horizonte com o sonho de criar comunidades cristãs nas escolas secundaristas e nas universidades. Não conseguimos. As pessoas acham que não é possível criar comunidades cristãs no ambiente de estudo. Isso é um equívoco e contribui para o esvaziamento do espírito, da concepção cristã da vida”.

Pigi, sem esconder o cansaço dos males que tem enfrentado, fala com alegria sobre maio, quando vai ser iniciada uma série de encontros preparatórios para a V Assembleia do Povo de Deus. Até o fim do ano, leigos e religiosos concentram esforços em busca de novas diretrizes para os novos tempos. Para o padre, o momento é de ações ainda mais localizadas.

“Nossa paróquia atende 10 comunidades de bairros e estamos batalhando para criar comunidades de rua”, explica.

Hoje, no entorno do Bairro Primeiro de Maio, Pigi conta com o apoio do padre Cássio Ferreira Borges, de 45, responsável pela Paróquia de todos os Santos. Passado de vitórias e derrotas revolvido, de sandálias de borracha e camisa de malha furada, padre Pigi ajeita os óculos para suspirar, sorrir e encerrar a entrevista. Ao fundo, na parede da cor da esperança, reluz o retrato de belas ovelhas em pastos verdejantes.

Fonte:

http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2012/04/25/interna_gerais,290806/ha-meio-seculo-padre-deixou-a-familia-rica-na-italia-e-abracou-favelas-em-bh.shtml

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