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“Andou por toda parte, fazendo o bem.” (Atos 10, 38)
“Nele Deus se expressou tal como é em si mesmo.” (Hebreus 1, 3)

O Cristianismo, no passado, aliado ao poder político dominante, conseguiu imprimir, de forma ambivalente, fortes influências e concretas determinações e direcionamentos nos mais diversos processos e dinâmicas da cultura ocidental. Por fatores sociopolíticos e jurídicos, tornou-se portador de legitimidade hegemônica e quase consensual em todos os níveis de configuração e organização das sociedades. Mas, hoje, não existem essas mesmas condições favoráveis para o exercício de tal poder. Com a modernidade e seu crescente processo de secularização e laicização, com o gigantesco desenvolvimento das ciências e das novas tecnologias, com as mentalidades atualmente predominantes, reconhecemos que o Ocidente passou por profundas transformações. Tais mudanças foram estimuladas, em suas raízes mais profundas, por valores veiculados pela própria experiência da fé cristã: promoção da consciência da autonomia humana, do valor da liberdade criativa, da importância da igual dignidade e dos direitos de todos os seres humanos, da individualidade, da responsabilidade dada ao humana pelo cuidado com a  criação, dentre outros.

Depois de todas essas mudanças culturais, o Cristianismo continuará a exercer fortes influências, já que não possui as condições plausíveis para exercer, como no passado, um poder de determinação e direcionamento sobre as atuais gerações?

Acreditamos que sim, mas se, e somente se, conseguir concretizar sua presença nas sociedades de uma forma totalmente diferente do que foi e bem mais vigilante das tentações do pólo negativo constitutivo de toda realidade ambivalente. Dito de outro modo, a influência cristã não se dará mais pela lógica do poder e da imposição, mas do serviço à humanidade; não mais do centro e dos palácios, mas desde as periferias e dos pobres; não mais como fonte de dominação e de determinação, mas de inspiração nascida do testemunho coerente de uma vida nova, irradiada de quem conheceu, encheu-se de entusiasmo e deixou-se transformar pela pessoa e pela prática libertadora de Jesus de Nazaré e pela nova experiência de Deus que ele oportunizou aos/às seus/suas discípulos/as.

A nova influência do Cristianismo se concretizará pela capacidade de apresentar no horizonte da cultura atual, de tornar conhecida e favorecer o encontro das pessoas com Jesus de Nazaré. Acontecerá mais pelo reconhecimento da coerência vivida pelos cristãos, do que pela beleza de ritos emotivos ou pelo anúncio proselitista de Jesus Cristo, ainda que feito com bonitas palavras. Essa nova influência do Cristianismo, somente poderá ser concretizada se for vivenciada como patrimônio universal para toda a humanidade e, portanto, diferentes denominações cristãs ou tradições religiosas, ecumenicamente, de mãos dadas, com movimentos sociais e grupos de defesa da cidadania, da dignidade da vida, da arte, da paz e do cuidado com a casa comum. Desde essa percepção da dimensão universal veiculada pela experiência cristã, portanto sem qualquer autorreferencialidade, é que poderá exercer contagiante fascínio, autêntica fonte de inspiração, de mudança de mentalidade e de transformação de vidas. Tudo será vivenciado em vista do compromisso de, juntos, construirmos uma cultura planetária com consenso ético mínimo, capaz de acolher, reconhecer e defender a riqueza da unidade, no direito à pluralidade de sociedades, culturas e tradições religiosas singulares. A busca de todos será o compromisso com  a democracia, a liberdade, a justiça, a paz e o cuidado com a casa comum.

O Cristianismo e as demais tradições religiosas poderão oferecer espiritualidades e místicas libertadoras, pois a vida humana atual apresenta-se, predominantemente, autocentrada, urbana, agitada, envolvida constantemente por miríade de novas tecnologias. Concretiza-se, cada vez mais, centrada na busca, ainda que efêmera, da própria felicidade prometida nas seduções de consumo ditadas pelo mercado. A dinâmica da vida encontra-se, cada vez mais, seduzida ´pela busca de dinheiro enquanto fonte de acesso à essa felicidade frugal. Pensamos, cada vez menos, que o acesso a essa felicidade é prometido a todos, mas concretizável historicamente para poucos. Não nos preocupamos com os excluídos e marginalizados. Pensamos, cada vez menos, nos limites da casa comum quando concebemos essa felicidade. Não nos preocupamos com os alertas e desiquilíbrios ambientais. Embora saibamos, pela vivência com familiares e amigos e pelo processo de conquista do conhecimento, que é o tempo que perdemos, gratuitamente, doando-nos ao convívio com os outros que consolida o amor ou que é tempo que perdemos lendo um livro e refletindo as experiências vividas que consolida a sabedoria, o lema básico que determina, atualmente, o ritmo da vida de muitas pessoas tornas-se: “não perder tempo com o que não gera dinheiro”! O ritmo e o estilo de vida se tornam, cada vez mais, acelerado, competitivo, intenso e barulhento. A sensação interna de muitos se traduz no contínuo estar atrasado, atarefado, cansado e engarrafado no caótico trânsito das avenidas, calçadas e até mesmo no mundo virtual. O smartphone, a ansiedade e o stress mostram-se inseparáveis companheiros de nossa jornada. O álcool, as drogas e o sexo trivial prometem momentos de prazer, relaxamento e felicidade. As oportunidades de corrupção batem na porta de todos. A violência torna-se algo banal e ceifa inúmeras vítimas inocentes. A concentração de renda amplia, a cada dia, a profundidade do fosso que separa os mais ricos, considerados como inteligentes, espertos, bem sucedidos e abençoados, dos mais pobres, considerados como vagabundos, preguiçosos e amaldiçoados. Agiganta-se o processo de privatização, individualização e apropriação de bens e de espaços públicos. A voracidade dos desejos humanos de ter, poder e prazer agride e abala o equilíbrio da vida na Terra. Para quem perde a direção e o horizonte da esperança de vencer, o suicídio apresenta-se como caminho alternativo.

E a pessoa de Jesus, uma vida situada há 2000 anos atrás, que tem a dizer ao ser humano no contexto atual? Para além do culto cristão, que reflexões ou interpelações para a vida do homem contemporâneo emergem da pessoa de Jesus?

A nosso ver, da pessoa de Jesus, de seus ensinamentos e práticas, irradiam a beleza e a sedução de quem encarna, com simplicidade e coerência, a sensibilidade e a compaixão, a leveza de quem se tornou livre para amar e servir e, sobretudo, a rebeldia de quem recusou, com clareza, a vida medíocre e a indiferença social. Por isso são contagiantes a liberdade e a fidelidade de Jesus, até as últimas consequências, ao projeto salvífico de Deus. Ele teve uma curta vida pública, geralmente, dedicada a anunciar e testemunhar, como boa notícia, sobretudo, para os pobres, excluídos e sofredores, a presença do Reino de Deus no meio de nós como horizonte de sentido. O Reino para Jesus significou, concretamente, a percepção e a consequente confiança, na proximidade amorosa e atuante de Deus na dinâmica dos acontecimentos. Sem qualquer intervencionismo divino, capaz de ferir a legitima  autonomia humana e a seriedade dos processos históricos, o Deus da vida interpela a todos que se abrem e acolhem a sua presença. Experimenta-se um chamado a assumir um compromisso: libertar-se de todo egoísmo, acreditar no caminho da justiça e do amor fraterno e defender da vida digna para todos. Por sua coerência e liberdade de colocar-se a serviço do Reino, o profeta da Galileia atraiu discípulos/as e admiradores/as. Por causa de seus ensinamentos e ações proféticas foi visto como subversivo agitador, por isso preso, julgado e condenado, na calada da noite, torturado e executado de forma brutal. Temos depois de sua morte, seus/suas discípulos/as anunciam, teimosamente, que ele vive e que ele foi ressuscitado por Deus. Afirmam que Jesus atravessou vitorioso o túnel da morte e que conquistou a plenitude da “vida nova e plena” na comunhão com Deus. Tal acontecimento revelou e continua a revelar, para os cristãos, a presença amorosa e atuante de Deus na história como fonte de esperança e confiança. A vida de Jesus apresenta-se como fonte de valores e uma boa nova de Deus para toda a humanidade. Percebem nela um “Caminho” de libertação para vivermos de modo novo, livres para servir e praticar justiça, misericórdia e amor, confiantes que o sentido último da vida está na comunhão amorosa com Deus.

Por maior que seja o impacto do brutal desfecho trágico da vida de Jesus, por mais interessante que seja a proposta da fé cristã,  reconhecemos ser outra a principal fonte de encantamento a jorrar da pessoa de Jesus. Ele revelou-se alguém profundamente descentrado de si. Não havia egoísmo, vaidade ou arrogância em seu jeito de ser e agir. Mostrou-se alguém totalmente livre diante do ter, do poder e do prazer, com gigantesca autonomia para amar e colocar-se a serviço dos mais pobres e sofredores. Sua pessoa despertava admiração e reconhecimento pela coerência e fidelidade ao projeto de vida escolhido. O cultivo de intimidade com Deus, a quem ele chamava Abba (Pai querido), fez com que Jesus percebesse e acolhesse cada pessoa como alguém amado, gratuita e infinitamente, por Deus como filho. Dessa forma, Jesus captou a centralidade do amor como fonte de sentido para a vida humana.

Além disso, ao perceber que organização sociopolítica, econômica e religiosa de seu tempo não favorecia a vida digna para todos, posicionou-se de forma crítica e escolheu colocar-se ao lado dos oprimidos e a serviço da libertação de todos para a práxis da justiça, da misericórdia e do amor. Os/as discípulos/as da primeira hora narram as atitudes e palavras de Jesus. Estas são melhor compreendidas quando inseridas no contexto dessa experiência concreta e da livre decisão de colocar-se disponível para despertar nos outros a consciência da dignidade, o desafio da fraternidade e o desejo de buscar vida plena para todos, começando-se pelos últimos. Por viver descentrado de si, foi capaz de amar em profundidade e de entregar-se ao anúncio e testemunho do amor universal de Deus, especialmente para os pobres, doentes, pecadores/as, estrangeiros/as, mulheres e crianças. A pessoa de Jesus irradiava, e continua a irradiar, ternura, cuidado, atenção e compaixão para com os sofredores e excluídos. Se a vida de Jesus apresenta-se como interpelação ética para o ser humano, importa passar da ênfase na centralidade de ritos religiosos para a práxis do seguimento como compromisso com outra sociedade possível. Eis o culto agradável a Deus!

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Edward Neves M. B. Guimarães

Secretário Executivo do Observatório da Evangelização

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