O Papa Francisco fez um vibrante e apaixonado apelo à ação aos jovens de todo o mundo no último sábado, dizendo que nossos tempos incertos exigem que eles saiam do sofá e “partam em caminhos novos e desconhecidos”.

jovenscracovia

Reportagem: Joshua J. McElwee

Tradução: Isaque Gomes Correa

Em um discurso de 34 minutos para mais de meio milhão de jovens de 187 países participantes de uma vigília aqui em Cracóvia na Jornada Mundial da Juventude, o pontífice instou-os a evitar “confundir felicidade com um sofá e, em vez disso, calcem os sapatos e rumam a “abrir novos horizontes”.

Numa alocução por vezes forte, mas no geral proferida carinhosamente, o papa, com efeito,  delineou um estilo de vida novo, esperançoso para toda uma geração.

“O tempo que hoje estamos a viver não precisa de jovens-sofá, mas de jovens com os sapatos, ainda melhor, calçados com as botas”, exortou Francisco aos jovens. “Aceita apenas jogadores titulares em campo, não há lugar para reservas”.

“O mundo de hoje pede-vos para serdes protagonistas da história”, continuou. “O Senhor quer realizar um dos maiores milagres que podemos experimentar: fazer com que as tuas mãos, as minhas mãos, as nossas mãos se transformem em sinais de reconciliação, de comunhão, de criação”.

“Hoje nós, adultos, precisamos de vós para nos ensinardes a conviver na diversidade, no diálogo, na partilha da multiculturalidade não como uma ameaça mas como uma oportunidade”, completou.

“Tende a coragem de nos ensinar que é mais fácil construir pontes do que levantar muros!”, declarou quase gritando antes de acrescentar baixinho: “Sereis os nossos acusadores caso escolhamos a vida dos muros, da inimizade, da guerra”.

Olhando por sobre uma multidão que tomava conta de quilômetros de campo aberto, Francisco enfatizou este tema pedindo aos presentes que façam o que chamou de “a ponte primordial” e a darem-se as mãos.

Na medida em que a multidão – bispos de batina, irmãs de hábitos, peregrinos vestindo camisetas e bermudas entre ela – cruzava os dedos, o pontífice exclamou: “É a grande ponte fraterna, e podem aprender a fazê-la os grandes deste mundo”.

Francisco estava falando neste sábado pela manhã numa vigília que, às vezes, esteve alegre e, em outros, foi profundamente triste. Em suas falas, ele estava respondendo a testemunhos de três jovens que têm passado por situações difíceis.

Uma mulher de 26 anos chamada Natalia explicou que vive em Aleppo, na Síria, e começou a soluçar enquanto descrevia as mortes violentas de amigos e familiares. Ela pediu a Deus que conceda aos sírios e às pessoas do mundo “a graça de mostrar o toque da misericórdia e a plantar alegria no coração de cada um que está triste”.

Respondendo a Natália no começo de sua fala, Francisco pediu por orações pela Síria e disse sem rodeios: “Agora, não vamos pôr-nos a gritar contra ninguém, não vamos pôr-nos a litigar, não queremos destruir”.

“Não queremos vencer o ódio com mais ódio, vencer a violência com mais violência, vencer o terror com mais terror”, disse o papa. “Estamos aqui hoje porque o Senhor nos chamou para estarmos juntos. A nossa resposta a este mundo em guerra tem um nome: chama-se fraternidade, chama-se irmandade, chama-se comunhão, chama-se família”.

Mais tarde, o pontífice advertiu os jovens contra a paralisia que pode vir quando se pensa que os problemas do mundo são grandes demais para os enfrentarmos. Em seguida, advertiu contra o que chamou de um tipo de paralisia “ainda mais perigoso”: “Julgar que, para ser felizes, temos necessidade de um bom sofá”.

“Um sofá que nos ajude a estar cômodos, tranquilos, bem seguros”, descreveu ele. “Um sofá – como os que existem agora, modernos, incluindo massagens para dormir – que nos garanta horas de tranquilidade para mergulharmos no mundo dos videojogos e passar horas diante do computador”.

“É muito triste passar pela vida sem deixar uma marca”, acrescentou o papa. “Mas, quando escolhemos a comodidade, confundindo felicidade com consumo, então o preço que pagamos é muito, mas muito caro: perdemos a liberdade”.

“Jesus não é o Senhor do conforto, da segurança e da comodidade”, continuou. “Para seguir a Jesus, é preciso ter uma boa dose de coragem, é preciso decidir-se a trocar o sofá por um par de sapatos que te ajudem a caminhar por estradas nunca sonhadas”.

papa sorrindo

“Deus espera algo de ti, Deus quer algo de ti”, falou Francisco aos jovens ali reunidos. “Deus espera algo de ti, Deus quer algo de ti, Deus espera-te. Deus vem quebrar os nossos fechamentos, vem abrir as portas das nossas vidas, das nossas perspectivas, dos nossos olhares”.

“Deus vem abrir tudo aquilo que te fecha”, disse. “Convida-te a sonhar, quer fazer-te ver que, contigo, o mundo pode ser diferente. É assim: se não deres o melhor de ti mesmo, o mundo não será diverso”.

A vigília de sábado foi realizada a cerca de 15 quilômetros ao sul do centro de Cracóvia, num local a céu aberto especial preparado pelos organizadores da JMJ chamado “Campus Misericordiae”.

Francisco adentrou a vigília caminhando através de uma estrutura de madeira que os organizadores tinham preparado como a Porta Santa do local para o Ano Santo da Misericórdia. Ele atravessou o local junto de vários jovens, todos de mãos dadas e andando lado a lado.

Assim que atravessou a porta, o pontífice convidou os jovens a juntarem-se a ele no papamóvel para andar em meio à multidão. Mais tarde, pediu-lhes que se sentassem enquanto ele também se sentava no palco preparado para o evento.

Três testemunhos foram acompanhados por uma pequena encenação organizada por uma dúzia de jovens, trazendo cenas evocativas diferentes da vida dos jovens de hoje.

Numa das cenas, que buscava evidenciar a separação que alguns experimentam, vários jovens ficaram em caixas de vidro separados uns dos outros enquanto escreviam ou falavam em seus telefones. Uma mulher com um vestido branco moveu-se em torno deles, tirando um homem de sua caixa para dançar.

A visita de Francisco à Polônia continua no domingo com uma missa a céu aberto no mesmo local antes de voltar a Roma à tarde.

FONTE: IHU

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