Por Júnior Santos

O ambiente era familiar, pessoas que traziam na bagagem mais de 40 anos vividos numa espiritualidade “pé no chão”, que resistiram às diversas dificuldades encontradas ao longo desse período… O nosso objetivo ali era comum: resgatar a memória dos muitos mártires da caminhada e lutar pelos direitos dos pobres e excluídos, os prediletos do Senhor.

A Romaria dos Mártires da Caminhada é um evento realizado pela Prelazia de São Félix do Araguaia, no município de Ribeirão Cascalheira-MT, para recordar a morte do padre João Bosco, assassinado por militares quando tentava impedir que uma mulher fosse torturada na cadeia pública. Milhares de pessoas participaram da Romaria, nos dias 16 e 17 de julho, que tinha como tema “Profetas e profetizas do Reino” e, como ponto alto, a caminhada pelas ruas da cidade em direção ao santuário onde o crime foi cometido.

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Fui no ônibus das CEBs da Arquidiocese de São Paulo. Um povo cheio de alegria e comprometido com os trabalhos pastorais presentes na Igreja. Foram 30 horas para ir e 30 horas para voltar, no entanto, não me senti cansado, pois fomos tocando violão e cantando diversos tipos de músicas, sobretudo, aquelas que marcaram a caminhada dos mártires. Além disso, partilhamos as comidas, as histórias e as experiências. Um momento muito enriquecedor e necessário para solidificar as novas amizades. Cheguei às 8 horas da manhã na praça da Igreja São João Batista, onde todos os romeiros iriam chegar e se reunir.

Fomos muito bem acolhidos naquele lugar. O ambiente era familiar, pessoas que traziam na bagagem mais de 40 anos vividos numa espiritualidade “pé no chão”, que resistiram às diversas dificuldades encontradas ao longo desse período. Aos poucos, fui me enturmando com as diversas pessoas, entre crianças, jovens e adultos, pois o nosso objetivo ali era comum: resgatar a memória dos muitos mártires da caminhada e lutar pelos direitos dos pobres e excluídos, os prediletos do Senhor.

À tarde, houve uma roda de conversa entre os jovens da Pastoral da Juventude. Grande era a participação dos jovens nesta bonita romaria. Ao cair da noite, começou a mística inicial, um dos momentos mais emocionantes para mim. Estávamos todos lá, em volta da fogueira no pátio central, quando entrou Dom Pedro Casaldáliga – em sua cadeira de rodas –, para participar da oração.

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Um momento lindo! As pessoas gritavam o seu nome e eu me arrepiei ao ver aquele homem de “chinelo de dedo”, debilitado pela doença de Parkinson, mas de um espírito vigoroso, um profeta de nossos tempos. Uma energia boa tomou aquele lugar. Não tinha qualquer dúvida que era a presença amorosa de Deus. Em seguida, após uma bonita apresentação dos jovens, os índios Xavantes dançaram em torno da fogueira e acenderam-na.  Acendemos nossas velas e saímos, em procissão, rumo ao santuário dos mártires da caminhada.

A caminhada foi animada por diversos músicos, entre eles Zé Vicente, amigo e companheiro na caminhada. Por mais de três quilômetros, fomos retomando a luta dos excluídos de nossa sociedade. Primeiro, um marcante apelo de uma indígena Guarani Kaiowá que alertava acerca da necessidade da demarcação das terras indígenas, pois estavam sofrendo com os diversos ataques dos ruralistas. Em seguida, representantes dos negros, dos migrantes, dos trabalhadores, das mulheres e da juventude. Houve, durante o percurso, várias paradas para orações e rememoração dos muitos mártires presentes na caminhada: Santo Dias, Ir. Dorothy, beato Dom Oscar Romero, Padre João Bosco, entre tantos outros. Tudo isso animado pelas músicas que retomam a luta dos pobres e oprimidos do Reino de Deus.

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No dia seguinte, logo cedo, começou uma bonita Celebração Eucarística que marcou o fim do agradável evento, com a presença de alguns bispos e muitos padres, religiosos/as, seminaristas, leigos/as, representantes da Igreja Anglicana e das religiões de matriz africana. A romaria foi um momento significativo, que definiu alguns objetivos para a nossa caminhada, enquanto povo de Deus, na Igreja: acompanhar as CEBs no dia a dia; cultivar o cuidado e o respeito às diversidades de gênero, crença e etnia; lutar pelos direitos dos povos indígenas; cuidar da Casa Comum; participar dos movimentos populares; acompanhar a vida e as lutas da juventude; envolver na Campanha da reforma política.

Fui muito feliz nesses dias e aprendi muitas coisas. Após retornar de lá, trouxe comigo a certeza de qual caminho quero seguir na construção do Reino de Deus e qual espiritualidade quero cultivar em minha vida. Ademais, lutar pela justiça, paz e pelos direitos dos excluídos, pelas causas do Reino da Vida. Senti no coração a minha diocese de Caetité representada naquele encontro. Guardo essas lembranças no coração, sobretudo a de ver o Dom Pedro e espero nunca mais perdê-las e, se Deus quiser, retornar daqui há cinco anos para mais uma experiência singular na Romaria dos Mártires da Caminhada.

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Júnior Santos é jovem cristão, leigo, solteiro, graduando em Filosofia na PUC Minas. Ele é seminarista da diocese de Caetité.

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