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O razoar (argumentos) de amor de Francisco, para traduzir a tradição

Chegamos, assim, depois de três anos de elaboração eclesial, a Amoris Laetitia, que não diz coisas novas sobre o amor, sobre o matrimônio ou sobre a família. Ela quer, em vez disso, inaugurar uma relação nova entre magistério e experiência de amor, tendo amadurecido a consciência de que, onde há amor, a Igreja deve se pôr à escuta. Lendo o texto com esse critério, não devemos nos ocultar o fato de que, tematicamente, não poucas coisas mereceriam um tratamento diferente. Mas os temas individuais permanecem secundários em relação ao grande objetivo alcançado: ou seja, mudar de estilo, de tom, de perspectiva.

As “coisas novas” da Amoris Laetitia

Eis as principais novidades:

529419• O magistério não deve dizer tudo: esse antigo critério eclesial, que tinha sido superado com o Concílio Vaticano II, chamado, no fundo, a “dizer tudo de novo ao menos uma vez”, agora volta à tona na prática magisterial. O ministério magisterial restitui à dinâmica eclesial a “mediação da contingência”, sem pretender encaixá-la de uma vez por todas em uma “lei geral”.

• Misericórdia e justiça não estão no mesmo plano, mas a misericórdia é a origem e a finalidade da justiça. Isso tem consequências não pequenas não só sobre a “gestão das crises” matrimoniais, mas também sobre o modo de entender o fundamento e a finalidade da família. Ele não é confiado in primis aos direitos e aos deveres, mas à experiência de um dom.

• Na história da Igreja, entrelaçam-se duas modalidades de relação com as crises: uma quer excluir, a outra quer integrar. Desde o Concílio de Jerusalém, a segunda prevaleceu sobre a primeira, até fazer o próprio sentido da Igreja decorrer dessa capacidade de integração.

Uma profunda autocrítica acerca da relação da Igreja com o mundo moderno se torna – indiretamente – uma importante afirmação eclesiológica: a relação entre Igreja e mundo é recolocada não no registro negação/ afirmação dos valores (inegociáveis), mas no do reconhecimento dos “sinais dos tempos”. De uma metafísica/cognitiva/autoritária a uma lógica experiencial/afetiva/ministerial.

• Reconduzir tudo ao encontro concreto com a Palavra de Deus como lugar do discernimento, evitando entregar o juízo à linguagem abstrata de normas gerais, que se tornam “pedras” e que traem o rosto materno da Igreja, enrijecendo-o na figura carrancuda de um juiz.

• A escuta biográfica da narrativa dos sujeitos torna-se passagem obrigatória de uma tradição que quer ser viva, chamando a isso também aquela teologia moral que, ao contrário, se mostra inclinada a generalizações que, muitas vezes, ferem e traem irremediavelmente a expectativa de paz e de reconhecimento que habita os sujeitos.

Tudo isso, poderíamos dizer, está no coração da Amoris Laetitia. Pela primeira vez, de modo pleno, depois de 140 anos, o Magistério papal, depois de ter feito todo o longo percurso sinodal, depois de ter escutado, dialogado, proposto, acolhido, selecionado, diz uma palavra sobre o amor e sobre a família, saindo do estereótipo “reativo” que o catolicismo se deixou impor pela história política da Europa. Somente um papa não europeu podia sair do estereótipo. Somente o primeiro papa americano, somente o primeiro papa “filho” do Concílio podia ter a liberdade e a força de sair do “complexo de perseguição” que, sobre o matrimônio, havíamos amadurecido de Leão XIII em diante.

2. O matrimônio no último século e meio de Magistério

O matrimônio, de fato, há 140 anos, não significava, acima de tudo, “amor de casal”, mas sociedade, geração, educação. E, na época, a contenda era: quem tem a competência sobre o matrimônio? O Estado usurpador ou o Supremo legislador, único legítimo? Essa herança permaneceu mesmo 50 anos depois, quando, com Pio XI, o tema da contenda tinha se tornado: quem tem o poder de gerar? Deus, naturalmente, ou o homem, artificialmente? E isso também se somou à contenda anterior, até o Vaticano II. Sobre a família, as palavras da Gaudium et Spes, embora inspiradas nos textos anteriores, marcaram época, mas por pouco. A Humanae Vitae voltou a polarizar a tensão, com grande efeito midiático, mas com pouca eficácia prática. Por fim, chegou a Familiaris Consortio, que começou a reconhecer a sociedade diferenciada, aceitando que a comunhão eclesial podia ser diferente da comunhão sacramental. Mas ainda não tinha os instrumentos para responder a essa nova condição: ela sabia reconhecê-la, mas permanecia embaraçada sobre as formas concretas da resposta. Ela reconhecia o problema, mas respondia como se não o reconhecesse. Hoje, com a Amoris Laetitia, estamos no início de um início. A lei não é mais apenas pedagogia, a consciência se torna passagem obrigatória, a contingência não é mais abandonada à mercê de uma “objetividade” tão idealizada quanto agressiva. O início de um início nunca é fácil. Aos olhos de alguém, sempre pode parecer como o início de um fim. Um magistério que confia ao discernimento concreto a comunhão eclesial é um magistério que readquire força, porque volta ao fluxo da sua função original: servir à fé batismal, que, no matrimônio, realiza o Reino de Deus, apesar de todas as suas crises e os seus fracassos. Aceitar que o matrimônio pode fracassar não é fraqueza, mas força do sacramento e da fé. Saindo do modelo exclusivamente institucional de leitura do amor, o Papa Francisco faz uma operação de “tradução da tradição” de primeira qualidade. Mas precisará de uma Igreja que carregue a responsabilidade de não se deixar substituir pelo superior de plantão. Despojando-se de um poder objetivo e opositivo, o papa investiu a Igreja da autoridade do Espírito, como dom de misericórdia que não exclui ninguém.

Fonte:

GRILLO, Andrea, O vínculo conjugal na sociedade aberta. Repensamentos à luz de Dignitatis Humanae e Amoris Laetitia. Tradutor: Moisés Sbardelotto. Cadernos Teologia Pública, Ano XIII, Vol. 13, Nº 111, 2016, pp.

Resumo

Um repensamento do vínculo conjugal – no horizonte aberto pela Dignitatis Humanae e agora ampliado e articulado pela Amoris Laetitia – permite uma avaliação da história da teologia católica do matrimônio nos últimos 150 anos. Uma análise dos trabalhos sinodais e da exortação apostólica pós-sinodal permite identificar uma série de importantes aquisições que dizem respeito não só à compreensão do matrimônio, da família e do amor, mas também à concepção do magistério, do direito canônico e da relação entre Igreja e mundo. Uma teoria da indissolubilidade como indisponibilidade permite pensar de modo diverso e mais equilibrado a relação entre autoridade e liberdade, entre graça, natureza e cultura.

Palavras-chave: Vínculo Conjugal; Teologia do Matrimônio; Consciência; História; Reforma da Igreja.

Andrea-GrilloAndrea Grillo é pai de Margherita e Giovanni Battista. Doutor em Teologia (1994) e Mestre em Teologia (1990) pelo Instituto Liturgia Pastorale, Padova. Graduado em Teologia pela Scuola di Teologia “Ut unum sint” ligada ao Seminario di Savona. Graduado em Filosofia (1993) pela Università di Genova. Professor de Teologia, com ênfase em Sacramentos e Liturgia no Pontificio Ateneo Sant’Anselmo, Roma. Membro do Conselho Científico dos periódicos Studium e La Maison-Dieu.

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