nota

A primeira Assembleia do Povo de Deus (APD) da Arquidiocese de Belo Horizonte se realizou em outubro de 1996. Ela foi resultado do amadurecimento do processo iniciado no final de 1989, com o Projeto Pastoral “Construir a Esperança”. Desde então, a Arquidiocese vem caminhando “rumo a uma nova compreensão de si mesma e das mudanças necessárias para que ela cumpra melhor a sua missão no contexto da grande metrópole”.[1]

É um caminhar lento, pois envolve a movimentação de muitas coisas e nem todos se dispõem a se mexer. Continuar com o de sempre pode parecer mais cômodo. Desde 2012, as APDs passaram a ter o papel de definir o rumo para onde caminhar, gerando as diretrizes, enquanto para estas últimas, cada uma a seu tempo, passou a responsabilidade de definir os passos concretos a serem dados, segundo as diretrizes definidas na APD.

No entanto, a metodologia seguida para a 5ª APD prevê a escolha de prioridades pastorais em cada uma das instâncias, ou seja, nas assembleias em nível paroquial, forâneo e regional. Isso, porém, torna inevitável que as contribuições vindas das bases sejam filtradas nas etapas seguintes. Assim, problemas que foram apontados mais vezes na etapa anterior tendem a passar para a próxima etapa, como prioridades, enquanto aqueles problemas que chamaram pouco a atenção tendem a desaparecer da pauta no percurso até à última etapa.

 Um exemplo claro dessa filtragem é a necessidade, manifestada no Texto-Base, que, por sua vez, se apoia na pesquisa on line [2], de ações evangelizadoras diferenciadas para as áreas rurais, na Arquidiocese. Essa não é uma prioridade para a imensa maioria das paróquias, que são urbanas e têm suas próprias demandas. Diga-se de passagem que a população residente na Arquidiocese de Belo Horizonte, com seus 28 municípios, é X% urbana e Y% rural, segundo o IBGE de 2010. Dessa forma, o problema próprio das comunidades rurais, se passar na votação em algumas assembleias paroquiais, dificilmente passará na assembleia forânea, simplesmente porque, nesta, os problemas próprios das paróquias urbanas, obviamente, recebem muito mais votos.

Além dessa inevitável filtragem, outras falhas foram percebidas nas etapas paroquial, forânea e regional da APD, comprometendo, às vezes gravemente, a qualidade do processo e dos resultados da assembleia. São elas:

  • Na ETAPA PAROQUIAL:
  1. o boicote, impedindo os leigos e leigas de participarem: uma paróquia não realizou sua assembleia;
  2. a entrega dos subsídios na última hora, sem tempo hábil para a leitura, compreensão e, sobretudo, discussão dos mesmos pelos leigos e leigas: em uma paróquia, o Texto-Base e até mesmo os outros dois subsídios – a Carta Pastoral, disponibilizada em janeiro, e o Guia contendo o texto motivador, disponibilizado em março – foram entregues na chegada das pessoas para a assembleia, em junho;
  3. a não exibição do vídeo que retoma os principais passos dados nas APDs anteriores e motiva para esta 5ª APD, perdendo-se esse elo;
  4. a não apresentação ou, pelo menos, a leitura, para todos, dos desafios apontados pelo Texto-Base, para cada uma das três dimensões da evangelização;
  5. a falta de clareza na explicação da tarefa dos grupos, sobretudo quanto à necessidade de ler e discutir o Texto-Base, embora a discussão não se limitasse a este;
  6. a pressa, nos grupos, em escolher prioridades sem discutir sua real abrangência e importância para o conjunto da Arquidiocese, limitando-se, em alguns casos, a questões muito locais, que não precisam passar pela decisão de uma assembleia arquidiocesana (por exemplo, editar o calendário paroquial com as citações das leituras da Liturgia Diária);
  7. a pressa em retornar à plenária, sem ter ainda escolhido as prioridades da última dimensão – a Inserção Social –, de certa forma querendo “empurrar” essa tarefa a uma pessoa “mais informada” no grupo;
  8. a falta de um quadro-negro ou outro recurso para dispor as prioridades apresentadas pelos grupos para facilitar a votação pela assembleia;
  9. após a apresentação dos relatores, na plenária, não houve um processo de votação das três prioridades da Paróquia, a partir do que foi levantado pelos grupos, como estabelecido na metodologia, mas pediu-se a uma pessoa “com mais experiência nesse tipo de assembleia” para fazer sua síntese do que ficou mais forte nas apresentações; os destaques percebidos por essa pessoa ficaram sendo as prioridades que a Paróquia apresentaria à assembleia da forania.
  10. faltou um lanche para os participantes, pelo menos ao final dos trabalhos, já que vários representantes vieram de comunidades mais afastadas da sede paroquial, onde se realizou a assembleia.

  • Na ETAPA FORÂNEA:
  1. algumas paróquias escolheram apenas uma prioridade em cada dimensão; isso significa um filtro mais apertado, deixando de fora coisas que poderiam ter entrado;
  2. outras paróquias escolheram cinco ou seis prioridades, ultrapassando a proposta de se concentrar em três;
  3. o resumo do Texto-Base tomou tempo demais, prejudicando os trabalhos em grupos, que acabaram não acontecendo ou tendo sua tarefa reduzida para uma breve troca de opiniões;
  4. o não conhecimento, antes da assembleia, pelos participantes, do conteúdo das prioridades indicadas pelas paróquias, dificultou a sua discussão em profundidade, tornando a votação mais baseada na frequência com que certas temáticas foram citadas do que na sua importância para efetivar as mudanças almejadas na Arquidiocese;
  5. a ausência de alguns padres, como também de leigos e leigas que, como conselheiros pastorais paroquiais e/ou forâneos, tinham cadeira cativa nessa assembleia, prejudicou a representatividade e, certamente, empobreceu a contribuição da forania para a APD;
  6. muitas prioridades refletem, na verdade, uma atividade concreta em nível paroquial, faltando uma visão mais ampla, ou seja, das grandes linhas da evangelização que darão um rosto novo à Igreja arquidiocesana.

  • Na ETAPA REGIONAL:
  1. Também nesta etapa, os participantes não tiveram acesso prévio ao conteúdo vindo das foranias, recebendo-o apenas na chegada à assembleia. A discussão dos assuntos fora programada para acontecer nos grupos, mas o atraso enorme tanto no serviço do café, antes de iniciar a assembleia, quanto no de almoço, prejudicou muito o tempo dos grupos, levando a uma escolha das prioridades sem o aprofundamento que cada temática requeria;
  2. Mesmo com a presença de inúmeros leigos e leigas praticamente todos os grupos de discussão foram coordenados por presbíteros.

Apesar de todas essas falhas, percebe-se que o resultado final das assembleias coincidiu, em grande parte, com os desafios apontados pelo Texto-Base, pelo menos na região episcopal em que estas observações foram feitas. Isso alimenta a certeza de que a assembleia arquidiocesana, na última etapa, terá em mãos temas bem calcados na realidade vivida pelas comunidades e que clamam por mudanças urgentes no modo como estão sendo tratados pela Igreja, em geral.

Tarefa interessante será verificar quais desafios apontados no Texto-Base não passaram como prioritários nas assembleias, considerando que alguns deles teriam contribuído muito para a “compreensão de si mesma” da Igreja, conforme lembrou-se no início desta reflexão. Fica para outra ocasião.

Obs.: A presente reflexão se baseia na observação direta do autor de uma assembleia em nível paroquial, três em nível de forania (grupo de paróquias articuladas territorialmente) e uma em nível regional (reunindo 10 foranias). Em respeito à caminhada de cada uma, para evitar rotulações discriminatórias, optou-se por não identificar seus nomes.

[1] Texto-Base da 2ª Assembleia do Povo de Deus, 2003, p. 11-12.

[2] Ver item 4 no Subsídio para as Assembleias Paroquial, Forânea e Regional, 2016, p. 13-14.

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Paulo Sérgio Soares

Doutor em Teologia Bíblica pela PUC Goiás

Membro da equipe de colaboradores do Observatório da Evangelização

 

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