Christoph Theobald

Facultés Jésuites de Paris – Centre Sèvres

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III. A mutação do ensino social da Igreja: um estilo profético e contemplativo

Consideradas as evoluções que acabo de explicitar, qual sentido o Papa Francisco dá, afinal, à expressão “ensino” ou “magistério social” da Igreja? Tudo o que antecede mostra que a expressão clássica “Ensino social da Igreja” ou “Magistério social da Igreja” mudou de significado. Embora empregue diversas vezes o termo “Doutrina Social da Igreja”, Francisco nunca dá a esse termo o sentido de “corpus doutrinal”, evolutivo certamente, mas “objetivo”, como se existisse fora de sua interpretação, de sua recepção ou de sua aplicação concreta, de certa maneira, “em posição superior” à aventura sempre concreta da humanidade.

Parece-me que o primeiro dos quatro princípios, mencionados na segunda parte, confere-lhe seu novo “status”: “O tempo é superior ao espaço”.

Este princípio permite trabalhar a longo prazo, sem a obsessão pelos resultados imediatos. Ajuda a suportar, com paciência, situações difíceis e hostis ou as mudanças de planos que o dinamismo da realidade impõe. É um convite a assumir a tensão entre plenitude e limite, dando prioridade ao tempo. Um dos pecados que, às vezes, se nota na atividade sociopolítica é privilegiar os espaços de poder em vez dos tempos dos processos. Dar prioridade ao espaço leva-nos a proceder como loucos para resolver tudo no momento presente, para tentar tomar posse de todos os espaços de poder e autoafirmação. É cristalizar os processos e pretender pará-los. Dar prioridade ao tempo é ocupar-se mais com iniciar processos do que possuir espaços. […]. Trata-se de privilegiar as ações que geram novos dinamismos na sociedade e comprometem outras pessoas e grupos 16 que os desenvolverão até frutificar em acontecimentos históricos importantes. Sem ansiedade, mas com convicções claras e tenazes (EG, 223).

“Ocupar-se mais com iniciar processos do que possuir espaços.” Além do governo pontífice de Francisco, essa fórmula designa também o status de seu ensino social que não se apresenta sob a forma de um ensino a ouvir e a aplicar, mas como uma via ou iniciação de um processo aberto que terá êxito se implicar outros sujeitos capazes de se deixar interpelar pelos acontecimentos do momento ou de maior envergadura. É, pois, a forma ou o estilo desse ensino que me parece decisivo. Três aspectos desse estilo me parecem peculiares:

1. Os dois textos do Papa Francisco propõem um caminho de conversão em que a questão fundamental é a atitude espiritual determinante da “saída de si mesmo”.

Assim inicia o percurso bíblico do primeiro capítulo da Exortação Evangelii Gaudium, que trata da “transformação missionária da Igreja” (Uma Igreja “em saída”, nos 20-23), e o último capítulo de Laudato Si’ sobre “Educação e Espiritualidade Ecológica” começa nos seguintes termos: “Sempre é possível desenvolver uma nova capacidade de sair de si mesmo rumo ao outro […]”, diz o Papa para tranquilizar seus interlocutores – não somente os cristãos. “A atitude basilar de se autotranscender, rompendo com a consciência isolada e a autorreferencialidade, é a raiz que possibilita todo o cuidado dos outros e do meio ambiente; e faz brotar a reação moral de ter em conta o impacto que possa provocar cada ação e decisão pessoal fora de si mesmo. Quando somos capazes de superar o individualismo, pode-se realmente desenvolver um estilo de vida alternativo e torna-se possível uma mudança relevante na sociedade” (LS, 208).

Para possibilitar essa conversão “espiritual”, não basta permanecer num plano intelectual ou exibir a lei; é preciso falar uma linguagem experimental e tentar alcançar o coração e a sensibilidade afetiva e já espiritual dos interlocutores. O Papa consegue isso graças à linguagem direta e aos gestos que ele adota, envolvendo-se de maneira muito pessoal. Em suma, é a “coerência” e a exigência ética e espiritual de “coerência” que são o motor das análises apresentadas e das soluções propostas. E se Francisco se dirige, a partir desse centro espiritual, à inteligência e à capacidade de análise de todos e dos especialistas desta ou daquela disciplina, é sempre com a consciência de que eles são diversos, situados dentro de uma diversidade de culturas e situações concretas, e de 17 que precisa, portanto, adaptar uma forma ou um estilo poliédrico (se assim posso dizer) para dirigir-se a eles.

2. Francisco caracteriza esse estilo também, e, sobretudo, em termos “proféticos e contemplativos”, nunca um sem o outro; e, primeiramente, como “profético”, desde que não se usurpe esse adjetivo, que o Papa aplica, por exemplo, como vimos, à Declaração do Rio sobre o meio ambiente e o desenvolvimento.

Não preciso insistir nesse aspecto bastante crítico, pois já foi amplamente tratado na minha primeira referência ao vocabulário estilístico e à maneira “alternativa” de inserir o Evangelho em nossos estilos de vida.

O fato de considerar o Evangelho como um “recurso” vital na crise atual não impede de levar em consideração o seu potencial crítico e alternativo. Ao contrário, é no exercício dessa crítica a um antropocentrismo desviado que descobrimos que o Evangelho é primeiramente um “recurso” de bondade radical já operante nas sabedorias humanas. É por essa razão que o profetismo formulado pela Laudato Si’ não se reveste de um tom catastrofista ou “apocalíptico”. Por certo, o insustentável nunca é negado ou atenuado, mas a denúncia é imediatamente posta a serviço de uma esperança inalienável que repousa na criação como “dádiva” (LS, 76): “[…] os seres humanos, capazes de tocar o fundo da degradação, podem também superar-se, voltar a escolher o bem e regenerar-se, para além de qualquer condicionalismo psicológico e social que lhes seja imposto” (LS, 205 e 61).

3. Esse ato de esperança anuncia o terceiro aspecto do estilo cristão, que não se reduz jamais à denúncia profética, mas se expressa primeiramente e em última instância através de um olhar contemplativo “capaz de gerar profunda alegria sem estar obcecado pelo consumo” (LS, 222).

A unidade última do ensino social reside nessa capacidade de perceber a profundidade das relações vitais que nos constituem como seres criados que se põem eventualmente à escuta do Evangelho do Reino de Deus, e o terreno privilegiado da contemplação cristã se constitui por nossa relação cordial com o que é mais frágil, com todos os pobres e com a terra. Nos dois textos, Francisco atravessa todas as camadas profundas do real, concentrando sempre, contudo, o seu olhar no que é mais concreto. Termino citando um exemplo, dentre muitos outros, que ilustra perfeitamente o que caracteriza a abordagem estilística do Papa: um “senso” contemplativo do essencial da vida e uma consciência apurada e crítica de sua complexidade:

Dada a relação entre os espaços urbanizados e o comportamento humano, aqueles que projetam edifícios, bairros, espaços públicos e cidades precisam da contribuição dos vários saberes que permitem compreender os processos, o simbolismo e os comportamentos das pessoas. Não é suficiente a busca da beleza no projeto, porque tem ainda mais valor servir outro tipo de beleza: a qualidade de vida das pessoas, a sua harmonia com o ambiente, o encontro e ajuda mútua. […] É preciso cuidar dos espaços comuns, dos marcos visuais e das estruturas urbanas que melhoram o nosso sentido de pertença, a nossa sensação de enraizamento, o nosso sentimento de «estar em casa» dentro da cidade que nos envolve e une. É importante que as diferentes partes duma cidade estejam bem integradas e que os habitantes possam ter uma visão de conjunto em vez de se encerrarem num bairro, renunciando a viver a cidade inteira como um espaço próprio partilhado com os outros. Toda a intervenção na paisagem urbana ou rural deveria considerar que os diferentes elementos do lugar formam um todo, sentido pelos habitantes como um contexto coerente com a sua riqueza de significados. Assim, os outros deixam de ser estranhos e podemos senti-los como parte de um «nós» que construímos juntos (LS, 150 e 151). (8)

Aqui termino, esperando ter conseguido mostrar que os dois textos do Papa Francisco mudaram a partir do seu interior o próprio conceito de ensino social da Igreja:

1. por sua unificação teológica, graças à sua inscrição na globalidade de nossas Escrituras;

2. pela maneira de lhe conferir admissibilidade universal;

3. e, por fim, por sua capacidade já efetiva de iniciar “processos” de conversão social, em vez de propor uma síntese definitiva (cf. LS, 121).

Resta-nos, portanto, a indagação: como tornar possíveis, de nossa parte, esses processos, tanto na sociedade francesa como em outras?

Notas:

(8) Ver também LS, 44 e seguinte (degradação das cidades); EG, 71-75.

Fonte: IHU

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