A humanidade tem passado por profundas transformações, suscitadas sobretudo pelas novas tecnologias que promovem maior contato, conexão e intercâmbio entre os povos, nações, tradições religiosas, grupos, famílias e indivíduos. Não há redomas ou muros capazes de impedir as reflexões críticas e autocríticas. Todos os âmbitos e dimensões da vida são afetados: culturas, tradições, costumes, conceitos, mentalidades.

No tocante a realidade familiar, a diversidade de arranjos e rearranjos é visível em nosso meio. No âmbito da Igreja Católica, diante dos crescentes problemas pastorais, para refletir sobre esta temática o papa Francisco convocou um Sínodo em duas etapas. Após debruçar-se sobre os dados colhidos numa pesquisa mundial e tendo presente as contribuições do Sínodo, o Papa publica a Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia, sobre o amor na família.

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Na 5a Assembleia do Povo de Deus da Arquidiocese de Belo Horizonte não foi diferente, entre as dez novas diretrizes encontra-se a Família.  Foi a temática que mais suscitou polêmica e reflexão teológica e pastoral na grande assembleia. Não é tarefa simples acolher, reconhecer e inserir na ação evangelizadora da Igreja a diversidade familiar. Diante dos desafios incontornáveis, o Evangelho desafia-nos a agir pautados pela misericórdia do Reino.

Há avanços significativos na redação final aprovada da QUINTA Diretriz. Confira como ficou:

  1. Família

O matrimônio, no qual mulher e homem procuram, segundo a graça de Deus, corresponder ao mais profundo de sua vocação, tem valor para a Igreja e para a sociedade, e não restringe a compreensão da existência de outras configurações familiares, oriundas de situações sociais, culturais, econômicas e religiosas diversas. Compreende-se, então, que a família é a união das pessoas na consciência do amor1, “cuja força […] reside essencialmente na sua capacidade de amar e ensinar a amar”2, constituindo um núcleo fundamental das sociedades. Como Igreja doméstica, a família precisa ser, constantemente, valorizada nas suas particularidades e pluralidades, que enriquecem a Igreja.

Por isso, devemos:

a) Nível da PESSOA

VALORIZAR, com empenho evangélico e pastoral, a potencialidade humana de formar e viver em família, percebendo a instituição familiar como o primeiro lugar para a experiência de evangelização e do despertar da fé;

b) Nível da COMUNIDADE

PROMOVER ações pastorais capazes de dialogar e de acolher todas as famílias, em suas mais diversas configurações, com respeito e zelo, a fim de que elas se sintam pertencentes, de fato, à comunidade que edificam com seu testemunho de amor. Cuide-se para que essa perspectiva inclua, também, os casais de novas uniões, os casais de não casados na Igreja, os divorciados, ofertando a todas essas famílias qualificado serviço de acolhimento. Atente-se para que, nesse mesmo horizonte, sejam acompanhadas as pessoas em suas diferentes identidades sexuais (gays, transexuais, lésbicas, travestis, transgêneros e bissexuais)3;

c) Nível da SOCIEDADE

FOMENTAR a participação ativa e missionária das famílias nas demandas sociais, que clamam por justiça e paz, como testemunhas do amor que gera práticas de solidariedade, fraternidade, igualdade e respeito.

Notas:

  1. “Durante muito tempo pensamos que, com a simples insistência em questões doutrinais, bioéticas e morais, sem motivar a abertura à graça, já apoiávamos suficientemente as famílias, consolidávamos o vínculo dos esposos e enchíamos de sentido as suas vidas compartilhadas. Temos dificuldade de apresentar o matrimônio mais como um caminho dinâmico de crescimento e realização, do que como um fardo a carregar a vida inteira. Também nos custa deixar espaço à consciência dos fiéis, que muitas vezes respondem melhor o que podem ao Evangelho no meio dos seus limites e são capazes de realizar o seu próprio discernimento perante situações em que se rompem todos os esquemas. Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las”. PAPA FRANCISCO, Amoris Laetitia, n. 37.
  2. PAPA FRANCISCO, Amoris Laetitia, n. 53.
  3. “[…] Da nossa consciência do peso das circunstâncias atenuantes – psicológicas, históricas e mesmo biológicas – conclui-se que, sem diminuir o valor do ideal evangélico, é preciso acompanhar, com misericórdia e paciência, as possíveis etapas do crescimento das pessoas, que se vão construindo dia após dia, dando lugar à misericórdia do Senhor que nos incentiva a praticar o bem possível. Compreendendo aqueles que preferem uma pastoral mais rígida, que não dê lugar a confusão alguma; mas creio sinceramente que Jesus Cristo quer uma Igreja atenta ao bem que o Espírito derrama no meio da fragilidade: uma Mãe que, ao mesmo tempo que expressa claramente a sua doutrina objetiva, não renuncia ao bem possível, ainda que corra o risco de sujar-se com a lama da estrada. Os pastores, que propõem aos fiéis o ideal pleno do Evangelho e a doutrina da Igreja, devem ajudá-los também a assumir a lógica da compaixão pelas pessoas frágeis e evitar perseguições ou juízos demasiado duros e impacientes […]”. PAPA FRANCISCO, Amoris Laetitia, n. 308.

(As palavras com letras maiúsculas e os grifos são nossos)

Fonte do texto aprovado: Vicariato Episcopal para a Ação Pastoral

Edward Neves Monteiro de Barros Guimarães

Secretário Executivo do Observatório da Evangelização

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