Pe. Manoel José de Godoy

 

Para ser verdadeiramente uma Igreja participativa, que se aproxima das pessoas, que é profética, comprometida com a transformação social, pobre e para os pobres, que sai ao encontro dos que estão fora dela e sem burocracia precisa que o povo possa avaliar com mais coragem sua Igreja e suas lideranças e possa de fato ser protagonista da evangelização, opinando com mais profecia sobre os seus caminhos e rumos, vencendo a tendência de preferir o mais ou menos.

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I. Aproximações históricas

1. Ninguém se aproxima dos resultados de uma pesquisa de forma neutra. E é muita pretensão dos pesquisadores afirmar que os dados são meras constatações. Há ideologia tanto em quem elabora o questionário quanto em quem analisa seus resultados e em quem determina a metodologia da pesquisa. Por isso, o parâmetro pastoral e evangelizador que levamos em conta ao fazer a leitura dos resultados parciais da Pesquisa da Arquidiocese de Belo Horizonte [veja o link com os resultados da pesquisa no final deste texto], em vista da realização de sua 5ª Assembleia do Povo Deus, em outubro de 2016, é o que foi gestado pelo maior acontecimento eclesial do século XX, o Concílio Vaticano II. Mesmo com todos os percalços na sua implementação ao longo destas cinco décadas que nos separam dele, o Concílio continua a ser o nosso maior e definitivo referencial eclesial, agora revisitado criativamente pelo pontificado do Papa Francisco.

2. “Diversos paradigmas pastorais vieram à luz nos últimos anos, situando-se todos eles em relação a um modelo tradicional, que foi sendo progressivamente elaborado desde o século V, e se impôs no IV Concílio de Latrão (1215), atravessando os séculos até a nossa época”.[1] O IV Lateranense normatizou a praxe sacramentária da Igreja, moralizou as ordenações ministeriais e criou um sistema jurídico capaz de regular não só a Igreja como também a sociedade da época. Daí emergiu com força uma Igreja sacramentalista, excessivamente clerical e autocentrada. Cabe ainda destacar, desse longo período de mais de oito séculos, o paradigma tridentino que, em reação à reforma protestante, definiu contornos precisos para que a Igreja firmasse sua identidade católica, reforçando ainda mais o paradigma lateranense.

3. Esse paradigma, que emergiu com força no século XIII e que foi reafirmado no século XVI, “visava transmitir a fé como herança recebida, numa época em que esta se comunicava de geração em geração, segundo procedimento quase automático”.[2] Essa Igreja autorreferenciada, não dava espaço para outras manifestações eclesiais e deixava os leigos numa passividade mórbida, difícil de ser vencida em muitos setores da Igreja ainda hoje. Para os países de tradição ibérica, como o Brasil, o que corria um pouco por fora era o chamado catolicismo popular, com muito santo e muita reza, e pouco padre e pouca missa. Essa franja eclesial segue até hoje e é um dos poucos setores da Igreja que se mantém impermeável à avalanche carismática dos movimentos atuais.

4. Sob o paradigma da religiosidade popular por um lado e lateranense/tridentino de outro, gerações de católicos foram gestadas e sustentadas em sua fé. Porém, a cultura que favorecia a transmissão natural desse modo de crer de geração a geração foi, aos poucos, sendo substituída por outra indiferente e muitas vezes até hostil à fé. A sociedade homogênea com uma parcela significativa de cidadãos crentes e praticantes já não existe mais. Nesse modelo extinto, “a sociedade e a Igreja estavam fortemente envolvidas uma com a outra, o que poderia levar a pensar que a religião era uma função da sociedade e que a Igreja estava ao serviço desta última”.[3] Neste contexto foi forjada a cristandade, que transmitia a fé quase por osmose, mas cabe a pergunta: cristianizava realmente as pessoas e as estruturas? Basta pensarmos que sob esse regime tivemos a realização de duas grandes guerras mundiais e o surgimento de regimes totalitários, cujos líderes se apresentavam como católicos: Franco, Mussolini, Salazar, Hitler para citar os mais conhecidos.

5. O Concílio Vaticano II tentou enfrentar essa crise de paradigma fazendo um chamamento forte de todos para a atenção aos sinais dos tempos, para ouvir o que o Espírito está dizendo à Igreja nesse mundo conturbado da pós-segunda guerra mundial. Um dos sinais a serem levados em conta, nesse contexto, está exatamente na passagem da transmissão da fé por herança para uma apresentação da fé como proposta a cidadãos livres para a escolha. E, talvez, mais que propor a fé, seja oportuno propor o Evangelho.

6. O Papa Francisco tem feito essa proposta de maneira exuberante na sua exortação Evangelii Gaudium onde afirma que “A Igreja não cresce por proselitismo, mas por atração” (EG 14). Essa perspectiva, profundamente conciliar, combina perfeitamente com a pastoral de gestação que está sendo proposta pelos pastoralistas franceses. Segundo eles,

A palavra gestação é, portanto, rica de múltiplas conotações, que abrem perspectivas de uma grande densidade existencial: o dom da vida, a complementaridade do masculino e do feminino, a reciprocidade das trocas, o nascimento para uma nova identidade; uma atitude de acolhimento e de dom, de prazer, de alegria e também de sofrimento, aceitando o luto, a travessia do desconhecido e a surpresa frente ao imprevisível da vida”.[4]

7. Tendo essas propostas pastorais na mente, frente aos paradigmas de Latrão/Trento, religiosidade popular e Vaticano II, pode-se debruçar sobre os resultados da pesquisa, ainda que bastante limitados, e realizar algumas aproximações teóricas, na tentativa de perceber os rumos da Igreja presente na Arquidiocese de Belo Horizonte.

 

II – Leitura dos dados da pesquisa

8. Os dados contidos no documento síntese da pesquisa são referentes aos questionários preenchidos até o dia 14 de Julho de 2016. Até essa data foram preenchidos 8.827 questionários, sendo que desses apenas 6.539 estavam completos. O documento ora analisado leva em conta somente os 6.539 questionários completos. Nele não estão contempladas as opções outros.

9. Para efeito de avaliação dos últimos anos de pastoral e evangelização da Arquidiocese de Belo Horizonte o documento não é muito eficaz, pois não seguiu a estrutura arquidiocesana de Regiões Episcopais e Foranias, bem como não levou em conta de maneira esquemática as três dimensões da vida cristã contempladas nos Planos de Pastoral desde 2003, quando da realização da 2ª Assembleia do Povo de Deus: a espiritualidade, a vida comunitária e a inserção social, embora seja possível organizar as respostas de acordo com elas.

10. Sobre o perfil dos que responderam à pesquisa. Alguns elementos nos ajudam a caracterizar o perfil dos que responderam à pesquisa. Quanto ao sexo, cerca de 4.000 mulheres e 2.500 homens; faixa etária: acima de 34 anos 4.500 e abaixo de 34 anos 2.000; residência: 4.314 em Belo Horizonte, 458 em Contagem, 262 em Betim e 1500 nos outros municípios que responderam à pesquisa. Dos 28 municípios da Arquidiocese, 13 não participaram da pesquisa ou não alcançaram coeficiente de 1°, ou seja, ficaram abaixo de 66 questionários respondidos (185.317 habitantes); 07 participaram com apenas 1% (624.557).

11. Não sou estatístico e não tenho muitos parâmetros para julgar se essa amostragem é suficiente, mas quem trabalha em instituto próprio para isso afirma que é um número muito expressivo, pois para uma pesquisa em 853 municípios de Minas Gerais são suficientes cerca de 1.200 questionários para amostragem. Considerando que a Arquidiocese tem 5.040.370 habitantes dos quais 3.850.000 se declararam católicos no último senso, creio que 6.539 questionários preenchidos dá para indicar alguma tendência, ainda que com muitas limitações. É preciso também levar em conta que, na sua grande maioria, as respostas vieram de pessoas que participam de alguma atividade da comunidade, ou seja, é uma amostragem bem interna da Igreja presente na Arquidiocese e, sobretudo, de católicos de Belo Horizonte.

12. Quanto ao perfil religioso segue a caracterização em números absolutos dos que responderam ao questionário:

1 Sou membro de um grupo pastoral da comunidade 3.138,72;
2 Sou membro de um movimento católico 1.569,36;
3 Sou membro de uma nova comunidade católica 1.96,17;
4 Atuo na comunidade, mas não sou membro de nenhuma pastoral ou movimento 719,29;
5 Sou líder comunitário 392,34;
6 Sou catequista 1.111,63;
7 Sou membro de um conselho pastoral 1.242,41;
8 Sou membro de um conselho administrativo 326,95;
9 Exerço ministério leigo 980,85;
10 Sou seminarista 65,40;
11 Sou postulante/noviço/a /religioso/a 65,40;
12 Sou membro de congregação/ordem religiosa/instituto de vida consagrada 196,17;
13 Sou ministro ordenado 457,73;
14 Frequento regularmente a missa 4.446,52;
15 Frequento a missa apenas em certas ocasiões 261,56;
16 Frequento a missa, mas não participo diretamente das atividades das comunidades 784,68;
17 Sou católico/a, mas não frequento missas 65,40;
18 Sou católico, mas não participo das atividades da Igreja 326,95;
19 Não sou católico/a menos de 65,40;
20 Tenho fé, mas não cultivo vínculo com nenhuma Igreja 65,40;
21 Morei na Arquidiocese de BH até recentemente 65,40;
22 Sou ateu/ateia ou agnóstico/a, mas gostaria de opinar menos de 65,40;
23 Não sei ou prefiro não responder 65,40.6. Vou privilegiar apenas algumas variantes: sexo, faixa etária, participante ou simpatizante. Outros itens serão considerados somente em caso de destoarem significativamente do conjunto.

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13. Quanto à inspiração da Palavra de Deus, a pergunta foi:

“Você considera que as atividades em geral, realizadas pela comunidade católica em que você vive ou frequenta/atua, estão inspiradas na Palavra de Deus?”

O resultado colhido foi: 2.420 responderam totalmente e 2.485 responderam muito; 1.112 responderam mais ou menos. A diferença entre as respostas de homens ou mulheres, de menos de 34 anos ou mais não é tão significativa. Avaliação é altamente positiva sobre a presença da Palavra de Deus em todas as atividades das comunidades.

14. Quanto aos ministros da Palavra:

A Arquidiocese de Belo Horizonte, visando dar mais centralidade à Palavra de Deus, propõe preparar e instituir Ministros Leigos(as) da Palavra, para atuarem em diversos campos, como os Círculos Bíblicos, os Grupos de Leitura Orante da Bíblia, a Catequese, as pastorais etc., além da pregação na Liturgia e em outros momentos celebrativos. Qual a sua opinião sobre essa proposta?

O resultado aferido foi: 4.904 pessoas responderam que concordam totalmente e 980 disseram que mais concordam que discordam. Pode-se concluir que a tendência é o assentimento da instituição de ministros, pois a soma dá 5.884 pessoas favoráveis. Outra vez as diferenças entre as opiniões de homens e de mulheres ou em relação à faixa etária não são significativas.

15. Quanto às atividades das comunidades:

Numa escala de 0 a 5, onde 5 representa “ótimo” e 0 representa “péssimo”, qual nota você dá para a comunidade católica em que você vive ou frequenta/atua, nos seguintes itens: qualidade das missas, qualidade das pregações / homilias, opções de grupos pastorais para os leigos atuarem, qualidade da catequese com crianças, oportunidade de momentos de cultivo à espiritualidade, qualidade da catequese com jovens, união / entrosamento com outras comunidades católicas, oportunidade de formação bíblica, oportunidade de formação litúrgica, qualidade da catequese com adultos, ações voltadas para os problemas sociais locais, para o exercício da cidadania, da transformação da sociedade, da preservação do planeta etc, oportunidade de formação teológico oportunidade de atuar no campo da Fé e Política, Ecumenismo / entrosamento com outras igrejas cristãs.

A média alcançada pelas comunidades em todas essas atividades foi de 3,3%, sendo que a qualidade das missas e das homilias alcançou os índices mais altos e a oportunidade de formação teológica e a de atuar no campo da Fé e Política e Ecumenismo/ entrosamento com outras igrejas cristãs apresentaram os índices mais baixos. Aqui o resultado da pesquisa contraria as reclamações constantes que se ouve no meio das comunidades sobre a qualidade das homilias. Foram surpreendemente muito bem avaliadas!

16. Espaço para atuação dos leigos:

Quanto você considera que os leigos e leigas encontram espaço para participarem nas diversas atividades da comunidade católica em que você vive ou frequenta/atua?

De acordo com as opções apresentadas pela pesquisa, 2.354 pessoas responderam que muito; 1.308 disseram que o espaço é total; 1.700 mais ou menos; 700 pouco; 131 nada e 327 não responderam. Somando os que estão bem satisfeitos com o espaço que as comunidades oferecem aos leigos alcança-se a cifra de 3.662, 56% do total, com uma pequena variante entre os que têm menos de 34 anos, que avaliam para baixo em relação aos que têm mais de 34 anos. Se levarmos em conta os insatisfeitos, são cerca de 40%, o que pode nos levar a repensar nossas estruturas de participação laical na Igreja.

17. Espaço dos leigos nas instâncias de poder:

Quanto você considera que os leigos e leigas têm espaço para participarem nas decisões da comunidade católica em que você vive ou frequenta/atua, sobretudo através dos Conselhos Pastorais?

Neste quesito podemos perceber alguma diferença. Os que responderam muito somam 1.700; já os que afirmam totalmente são 850; os que opinam mais ou menos 1.700; pouco 1.112; nada 524 e não responderam 720. Somando os de tendência mais negativa alcançam a cifra de 2.356. Dá para perceber a tendência de que há uma insatisfação quanto ao espaço de participação nas instâncias de poder na Igreja. Aqui a variação de opinião entre homens e mulheres e entre os de faixa etária menor ou maior de 34 anos é insignificante. Os descontentes se concentram mais em Belo Vale, Sabará e Pedro Leopoldo e entre os que não são participantes ativos na Igreja.

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18. Oportunidade para avaliar as lideranças:

Quanto você considera que os leigos e leigas têm oportunidade para avaliarem o trabalho das lideranças, inclusive dos padres e bispos, na comunidade católica em que você vive ou frequenta/atua?

O que emerge com mais força aqui são os que acham que pouco, nada ou não quiseram opinar, somam 3.205 pessoas. Os que avaliaram muito positivo somam 1.766 e os que preferiram opinar mais ou menos 1.635. A tendência dos números nos leva a dizer que há uma parcela significativa de pessoas que afirmam não ter possibilidade de avaliar as lideranças religiosas. Essa tendência é bastante semelhante entre homens e mulheres e jovens e idosos. Percebe-se uma visão um pouco mais crítica nos de faixa etária entre os de 25 a 34 anos. Também entre os insatisfeitos se destacam Belo Vale, Sabará, Pedro Leopoldo e Lagoa Santa e entre os que não participam da Igreja.

19. Comunidade e relacionamentos:

Numa escala de 0 a 5, onde 5 representa “ótimo” e 0 representa “péssimo”, qual nota você dá para a comunidade católica em que você vive ou frequenta/atua, nos seguintes itens: atendimento na Secretaria Paroquial, atendimento do padre às pessoas, transparência no uso do dinheiro da comunidade, satisfação dos fiéis com o andamento da comunidade, valorização das demais comunidades ou setores da Paróquia, não centralizando as atividades sempre na Matriz ou Sede, flexibilidade nas normas, sem posturas rígidas, participação e envolvimento dos jovens, união entre os membros da comunidade, articulação das comunidades ou setores da Paróquia em rede.

A média de satisfação é de 3,5%, portanto muito boa, sendo que as maiores notas alcançaram os itens referentes ao atendimento na secretaria, atendimento do Padre às pessoas e a transparência no uso do dinheiro nas comunidades. As menores avaliações ficaram por conta da participação dos jovens, da união entre os membros da comunidade e da articulação das comunidades, mas não tão abaixo da média. Dentre as demais variantes não há nenhum índice que mereça destaque. Aqui também a pesquisa contraria o dito comum contra o atendimento das secretarias de paróquias e, sobretudo, dos padres, que são sempre alvo de muitas críticas.

20. A Igreja de Francisco:

A lista abaixo reflete alguns traços, apontados pelo Papa Francisco, do modo como a Igreja deve ser nos dias de hoje. Em sua opinião, em que medida a comunidade católica em que você vive ou frequenta/atua revela esses traços? a) uma Igreja participativa; b) uma Igreja que se aproxima das pessoas; c) uma Igreja profética, comprometida com a transformação social; d) uma Igreja pobre e para os pobres; e) uma Igreja que sai ao encontro dos que estão fora; f) uma Igreja sem burocracia.

Aqui há a possibilidade de o entrevistado optar pela variante “mais ou menos”. Não deu outra, foi a mais votada em todas as questões. Se levarmos em conta a nossa cultura onde mais ou menos se aproxima de ruim, pode-se afirmar que a tendência dos entrevistados é dizer que a sua comunidade precisa melhorar em todos os quesitos. É mais ou menos assim: é participativa, próxima das pessoas, profética, pobre e com os pobres, vai à busca dos afastados, sem burocracia, mas precisa melhorar em tudo. Dá para entender? Mesmo assim, 30% de índice como pouco e nada de Lagoa Santa e Sabará pode ser um sinal de alerta. Outro ponto que também chama a atenção e se contradiz com a avaliação com outros pontos da pesquisa, sobretudo com a avaliação das secretarias paroquiais, é o alto índice de reclamação da burocracia: quase 4.000 pessoas dos 6.539 que responderam à pesquisa se dizem insatisfeitas.

21. Quanto aos MCS:

Quanto você considera que os Meios de Comunicação da Arquidiocese estão contribuindo para as atividades abaixo? a) propagação e fortalecimento da fé cristã, b) conhecimento e valorização da doutrina católica, c) difusão dos valores cristãos, d) formação sociopolítica, de forma crítica, numa linha de transformação da sociedade.

Nos três primeiros itens o grau de satisfação supera os 50% e somente quanto à formação política a avaliação pende mais para o negativo, cerca de 60% afirmam que os MCS da Arquidiocese não contribuem para isso. É mais um dado que aponta para o movimento centrípeto da Igreja, com pouca tendência para uma atuação fora de suas fronteiras, pois gostam dos conteúdos que reforçam o que já veem em suas comunidades. Porém, percebem que os MCS não os habilitam para uma atuação fora do campo eclesial, uma vez mais constatam um meio voltado para a Igreja autorreferenciada.

22. Quanto à transformação das pessoas:

Os católicos que você conhece, em geral, estão se tornando pessoas mais humanas, misericordiosas e acolhedoras, por frequentarem a Igreja?

Em números absolutos, 2.350 pessoas acreditam que a frequência na Igreja tem transformado as pessoas em mais humanas, misericordiosas e acolhedoras; já para 4.054 pessoas a frequência na Igreja não tem ajudado as pessoas a serem melhores. Neste quesito, os abaixo de 34 anos são mais otimistas que os acima de 34, sendo 1.400 para os primeiros e 915 pessoas mais idosas. O que chama a atenção também é que a opinião é compartilhada entre os habitantes das grandes e pequenas cidades, pois nestas se supunha que a importância da Igreja fosse maior e influenciasse mais na vida das pessoas. Porém, a variação entre elas é bem pequena. O mesmo fenômeno, ou seja é uma opinião compartilhada, pode ser observado entre os que são comprometidos com as atividades das comunidades e os que não o são. Ora, pelo conjunto da pesquisa se pode dizer: a Igreja está muito bem, mas não interfere tanto na vida das pessoas. Creio que esse é um dado ainda mais preocupante, pois se refere ao núcleo duro da missão eclesial, ou seja, atuar na formação das consciências, impregnando-as de valores evangélicos. Infelizmente, a pesquisa aponta que isso não acontece.

23. Quanto à atuação dos Santuários:

Você considera que as atividades nos Santuários da Arquidiocese estão conseguindo fortalecer a vida cristã pessoal e comunitária, fazendo com que os romeiros e peregrinos tornem-se membros participantes de uma comunidade?

Somando o parecer de quem opinou positivamente e os que tenderam a avaliar negativamente, a opinião pareceu bem dividida: 2.812 sim e 2.943 não. Uma vez mais os otimistas estão entre os que têm menos de 34 anos. E dentre os municípios, os mais otimistas se situam em Belo Horizonte, Brumadinho, Caeté e Esmeraldas. Dentre os mais pessimistas se destacam Lagoa Santa, Nova Lima e Contagem. O que chama a atenção aqui é que entre os mais pessimistas estão os que frequentam muito pouco a Igreja, mesmo nas missas, pois era de se esperar que os frequentadores de Santuário fossem exatamente desse estrato de católicos.

24. Quanto à atuação das Instituições da Arquidiocese:

Numa escala de 0 a 5, onde 5 representa “ótimo” e 0 representa “péssimo”, como você avalia o serviço prestado pelas seguintes instituições da Arquidiocese de Belo Horizonte? a) Rádio América; b) TV Horizonte; c) Projeto Providência; d) PUC Minas; e) Providência Nossa Senhora da Conceição (ação social e política); f) Colégios Santa Maria; g) Gráfica e Livrarias Fumarc; h) Hospital Nossa Senhora de Lourdes (Nova Lima).

A média alcançada foi de 3,7%, sendo que a mais bem avaliada foi a Rádio América com 4,1%e a menos foi o Hospital Nossa Senhora de Lourdes com 3,5%. É claro que são realidades bem diferentes, pois uma tem abrangência muito maior em toda a metrópole belo-horizontina e a outra é muito regional. Importante ressaltar a força da rádio, mas se pergunta: quem mesmo escuta rádio ou vê TV hoje em dia? Costumo dizer que quando a Igreja Católica chegou à TV, os jovens já tinham saído da sala. A avaliação da Rádio e da TV não diferencia em nada nas faixas etárias, o que chega a ser surpreendente e nos leva a perguntar: que jovem respondeu a essa pesquisa?

25. Investimento da Arquidiocese:

Quanto você considera que o investimento nas atividades abaixo favorece a Arquidiocese de Belo Horizonte a cumprir melhor sua missão evangelizadora? a) Modernização de seus Meios de Comunicação; b) Promoção da religiosidade popular; c) Promoção de eventos ligados à cultura em geral; d) Construção de igrejas, salões, salas etc.; e) celebrações de curas, exorcismos etc.; f) foco na prosperidade financeira das pessoas.

Aqui as diferenças são mais expressivas. De todos os itens que ofereceram a opção mais ou menos foi o que apresentou índice mais baixo dessa opção. O investimento nos MCS foi escolhido como o meio mais eficaz alcançando a expressiva cifra de 5.100 pessoas. Já as missas de cura tiveram a aprovação de 1.112 contra a rejeição de mais de 3.500 pessoas; e o investimento no foco na prosperidade financeira foi rejeitado por 4.250 pessoas, sendo aprovado apenas por 1.050 participantes da pesquisa. E nesses dois últimos itens, missa de cura e foco no financeiro, tivemos também, somados, os mais altos índices de abstenção: 2.680 pessoas. Esses dois itens também tiveram a aprovação maior entre os da faixa etária menor de 34 anos. Aqui a pesquisa é bastante fiel ao que se constata, ou seja, a presença muito maior de jovens em tipos de eventos como missa de cura, “Cerco de Jericó” ou “Rebanhão”. E quanto aos municípios, esses dois itens foram mais bem avaliados por Brumadinho e Esmeraldas.

26. Sugestões de temas para a 5ª APD:

Além dos assuntos abordados nas questões anteriores, você pode sugerir outros 3 assuntos que considera prioritários para serem tratados na 5ª APD. Escolha-os na lista a seguir ou escreva-os, em poucas palavras, na(s) caixa(s) de texto, mais abaixo. a) Acolhimento aos casais que não se casaram na Igreja; b) Diminuição constante do número de católicos; c) Acolhimento à diversidade sexual (comunidade LGBT); d) Evangelização nas Vilas e Favelas; e) Atuação e papel das mulheres na Igreja; f) Evangelização no meio rural.

Para essa questão a tabulação levou em conta apenas o percentual de aparecimento do item. Desta forma, o que mais foi citado é o do acolhimento de casais que não se casaram na Igreja com 4.381 referências e o menos citado foi a evangelização no meio rural com 720 referências. Pergunta-se: dentre o universo dos casais que não se casaram na Igreja devemos considerar os de segunda união? É diferente você perguntar sobre uns e outros, pois os de segunda união que não se casaram na Igreja, muitos não o fizeram por proibição canônica, sendo que os outros por opção. Também bem citado foi o acolhimento à diversidade sexual (comunidade LGBT). Fica difícil a análise, considerando o perfil dos entrevistados revelado pelo corpo da pesquisa: pessoas mais idosas, voltadas para o interno da Igreja e com pouca expressão crítica. A interpretação pode ir a duas perspectivas: desejo real de enfrentar tais temas durante o processo da 5ª APD para se ter uma resposta mais definitiva da Igreja fechando a questão ou para realmente acolher essa parcela de cristãos e cristãs que se encontram nessas situações.

III. Conclusão.

27. No geral, a atuação da Igreja presente na Arquidiocese foi bem avaliada pela maioria dos participantes da pesquisa. Volto a repetir que será preciso voltar aos dados da pesquisa muitas vezes para ir percebendo certas nuanças que fogem de uma primeira leitura. Seria importante cada segmento pesquisado fazer o seu recorte para poder se aproximar do que pensam os catequistas, os ministros leigos e ordenados, os membros de conselhos, os que frequentam somente as missas, os católicos esporádicos e assim por diante. Não contemplei essa perspectiva por saber que não teria o tempo suficiente para apresentar tal resultado.

28. Outra abordagem que valeria a pena ser feita é a da comparação dos dados desta pesquisa com os resultados do Censo de 2010, já cotejados pelo CEGIPAR (Centro de Geoprocessamento de Informações e Pesquisas Pastorais e Religiosas), organismo da PUC Minas, sobretudo para o município de Belo Horizonte. Neste trabalho emergia uma realidade bastante instigante para o processo evangelizador da Arquidiocese. Demonstrava-se aí que há uma concentração maior de católicos nas zonas mais ricas da cidade, que coincidia com pessoas mais bem preparadas academicamente e também mais idosas. Considerando que o meio usado para a atual pesquisa exigia saber lidar com a internet e até mesmo ter acesso a ela, e que os participantes da pesquisa são na sua maioria do município de Belo Horizonte, pode-se pensar que uma parte significativa dos pesquisados tenha um perfil aproximado destes católicos detectados pelo Censo.

29. Apesar de que o número de participantes (6.539) possa parecer para um especialista em pesquisa uma amostragem muito acima da média, comparando com as pesquisas de intenções de voto, por exemplo, que tira suas conclusões a partir de números muito mais inferiores, para quem é de dentro da instituição, o resultado não parece ser tão colado à realidade que se vivencia. Há muitos dados que contrariam a realidade vivida no seio de nossas comunidades, sobretudo dos pobres das vilas, favelas e aglomerados.

30. Enfim, o parâmetro pastoral e evangelizador de uma Igreja voltada para si mesma, uma Igreja autorreferenciada como afirma o Papa Francisco, presente em Latrão e Trento, e o mais descentrado, missionário, identificado com o Vaticano II, continua sendo um sinalizador para avaliar por onde caminha a Igreja presente na Arquidiocese de Belo Horizonte. Para isso, é preciso ouvir mais pessoas que tenham uma distância um pouco maior ou que não sejam tão de dentro. Pelos dados, emerge uma pesquisa feita junto aos que estão bem felizes com sua participação na Igreja. Em todo o caso, surpreende a porcentagem das respostas que optaram pelo mais ou menos, ao invés de uma tomada de posição mais definida frente a questões tão importantes para o processo evangelizador.

31. Para ser verdadeiramente uma Igreja participativa, que se aproxima das pessoas, que é profética, comprometida com a transformação social, pobre e para os pobres, que sai ao encontro dos que estão fora dela e sem burocracia precisa que o povo possa avaliar com mais coragem sua Igreja e suas lideranças e possa de fato ser protagonista da evangelização, opinando com mais profecia sobre os seus caminhos e rumos, vencendo a tendência de preferir o mais ou menos.

godoiManoel José de Godoy é presbítero, pastoralista e membro da equipe de colaboradores do Observatório da Evangelização. Este texto foi apresentado em agosto de 2016 no seminário promovido pelo Vicariato Episcopal para Ação Pastoral.

[1] Confira aqui o pré-relatório da 5ªAPD: Pré-relatório da 5ª Assembléia do Povo de Deus

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