Agronegócio, enfim, desafiado

Os povos indígenas são espoliados, massacrados, dizimados seguidamente há séculos por aqui. Disso todos sabemos. Mas por uma estranha razão, nós que nos chocamos profundamente diante de outras tantas injustiças, fechamos olhos, mente e coração frente ao que ocorre todos os dias em nosso país: jovens indígenas se matam, líderes desses povos são sistematicamente assassinados até por aqueles que deveriam proteger suas vidas, crianças doentes, famintas lutam para sobreviver. As condições de vida dessas pessoas são péssimas e há mesmo casos de latifundiários que pulverizam suas aldeias com pesticidas, quando não conseguem expulsá-las de sua terra sagrada, berço de sua etnia e morada de seus ancestrais.

A grande mídia não divulga a tragédia que se tornou sua existência. E se a grande mídia não noticia, então – para grande parcela da população – o fato não existe.

Essa é a razão para o estranhamento da voz profética que se prepara para ecoar retumbante em pleno carnaval carioca deste ano. Evento visto mundo afora, o desfile da Marquês de Sapucaí vai, certamente, provocar bem mais que a perplexidade usual… A escola de samba Imperatriz Leopoldinense traça uma crítica social há muito distante das passarelas do samba e dedica seu desfile deste ano às tribos do Xingu, em Mato Grosso.

Segundo o periódico El País (15/01/2017) “o senador Ronaldo Caiado (DEM-GO), da bancada ruralista, propôs a criação de uma comissão temática para discutir o assunto, o que incluiria convocar integrantes da escola e investigar suas fontes de financiamento.” Para ele, a escola denigre o agronegócio e difama “quem deveria ser enaltecido”. As reações ao enredo são fortíssimas. É que será difícil calar a repercussão que o tema traz à baila.

Por sua vez, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB – se manifesta em gratidão e solidariedade à Imperatriz Leopoldinense. Em belíssimo artigo publicado no site do CIMI (Conselho Indigenista Missionário) lê-se:

Para a Apib, a letra do enredo não inventa a história, faz apenas justiça ao tornar pública a verdade de que até hoje os invasores roubam de fato as terras dos povos originários e praticam esbulho e destruição, devoram mesmo, através dos grandes empreendimentos (como Belo Monte) os bens naturais, matam as matas e secam os rios, pensando apenas nos seus lucros, por isso que não pouparam esforços para ajustar a seus interesses o Código Florestal e outros instrumentos jurídicos que visam dar legalidade a suas atrocidades contra os povos e a Natureza.

A nós, cristãos, aprendizes dos povos da floresta que tanto zelam pela Criação, cabe unirmos nossas vozes ao seu clamor por equidade, justiça, beleza. Pelo direito de viver!

Tânia Jordão.

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