No centro de nosso ser
não somos nós,
mas Outro.
Se o ferro do meu sangue
é o mesmo dos trilhos,
meu cálcio o dos alcantilados,
onde está Deus meu
este eu meu que Te ama?
Parte de Tua ternura, eu sinto,
são estas partículas que eu tenho.
Doçura de saber que Tu me fizeste.
Deus dos números absurdos,
do dementemente grande
e do dementemente pequeno.
Se é infinito
também será infinita loucura,
espontaneidade infinita.
Que um dia Tu e eu nos acariciemos
como o fazem com olhos cerrados
gemendo os amantes,
num lugar infinito
e numa data eterna,
mas tão real como dizer
esta noite às 8.

Fonte:

Ernesto Cardenal. Cântico Cósmico. São Paulo: Hucitec, 1996, p. 389.

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