No dia 19/02/2017, João Batista Libanio completaria 85 anos de vida. Em memória do grande teólogo; professor; escritor; conferencista; orientador de estudos; assessor das CEBs, das Pastorais, da CRB e da CNBB; religioso jesuíta, presbítero da Igreja e vigário da Paróquia Nossa Senhora de Lourdes em Vespasiano – MG, o Observatório da Evangelização publica uma série de reflexões sobre as contribuições dele para as ações evangelizadoras da Igreja.

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Retrato do teólogo João Batista Libanio                                                          Belo Horizonte MG Foto: LEO DRUMOND / NITRO

Contribuições de João Batista Libanio para a refundação das CEBs – 1ª Parte

Pedro A. Ribeiro de Oliveira

Introdução

Ninguém sabe ao certo quantas Comunidades Eclesiais de Base – CEBs – existem hoje no Brasil. Certamente são mais de 50 mil, o que não é pouca coisa. Frutos do Concílio Ecumênico de 1962-65, elas constituem a base de uma estrutura eclesial alternativa à estrutura paroquial instituída no século XVI pelo Concílio de Trento. Seu surgimento entre meados da década de 1960 e início dos anos 1970 surpreendeu muita gente que não acreditava ser possível tamanha vitalidade religiosa, social e política originar-se de dentro da Igreja católica. Passados quase 50 anos, porém, constata-se a perda de vitalidade e até mesmo a perda de identidade das CEBs, tratadas em documentos oficiais como se fossem meras “pequenas comunidades” da Igreja católica. Neste momento em que dois projetos eclesiais disputam a hegemonia – a Igreja “em saída” e a “restauração identitária” – ganha força a proposta de refundação das CEBs (1). Não se trata, é claro, que recomeçar do zero, mas de retomar os seus fundamentos para aplicá-los ao novo momento histórico. Nesse contexto, é muito oportuno fazer a memória do que foi escrito para os quatro primeiros Encontros intereclesiais de CEBs, em especial os 2°, 3° e 4° Encontros, que fundamentaram sua estrutura e as linhas de ação.

Juntamente com Leonardo Boff , que percebeu nas CEBs a nova eclesiogênese (BOFF, 1976), Fr. Carlos Mesters, que abriu as portas da hermenêutica bíblica (MESTERS, 1976), e Frei Betto, que pela educação popular apontou o caminho da política (BETTO, 1978), Pe. João Batista Libânio compôs o núcleo de assessores que ajudaram as CEBs a tomarem consciência de sua realidade.

Neste artigo destaco a contribuição de Libânio que, tendo-se dedicado à formação de agentes de pastoral, tornou-se o grande mestre na arte de articular teologicamente o eclesial e o eclesiástico. No momento atual em que se tenta dar sobrevida à paróquia idealizada como “comunidade de comunidades”, aquela produção intelectual que fundamentou a caminhada das CEBs ganha enorme atualidade diante da necessidade de refundação das CEBs e como alavanca para sua caminhada no século 21.

Neste artigo retomaremos os textos que Libanio produziu a partir dos Encontros Intereclesiais de 1976, 78 e 81 (pelo que sei, ele não publicou coisa alguma sobre o Encontro de 1975). Justifica-se esta seleção pelo fato de terem sido estes os momentos fundantes das CEBs no Brasil. Com efeito, o 1º Encontro, de 1975, foi “simples reunião de alguns bispos com assessores” (1981, 141) sem efetiva participação das bases e cujo maior mérito foi ter suscitado e organizado os Encontros seguintes. Já os Encontros realizados a partir de 1984 (5º Encontro, em Canindé — CE) ganharam dimensão celebrativa, mas perderam o teor de reflexão teológica e pastoral que marcou os anteriores.

Examinaremos aqui os textos de Libanio em ordem cronológica para depois traçar o quadro conclusivo. Para facilidade de exposição, suas citações terão apenas a referência de ano e página, posto que só constam aqui os textos publicados por SEDOC (Serviço de Documentação, Editora Vozes). Sendo ela uma revista de pequena circulação, receio que esses preciosos textos sejam pouco conhecidos. Por esse motivo, mais do que análise daqueles textos, este artigo é principalmente um resumo das contribuições mais pertinentes de Libanio para os dias de hoje (2).

1. Uma comunidade que se redefine – o 2º Encontro Intereclesial de CEBs – 1976

O 2º Encontro Intereclesial realizou-se de 29 de julho a 1 de agosto de 1976 em Vitória – ES e seguiu um método de trabalho original. Todas as comunidades que se dispusessem a participar deviam enviar com antecedência um relato detalhado sobre suas atividades. A partir do estudo desses relatórios, peritos de diferentes áreas de conhecimento deviam produzir um texto de subsídio para as reflexões a serem desenvolvidas durante o Encontro. O texto de Libanio, como todos os demais, é portanto anterior à realização do encontro.

Tendo como fonte os relatos de 15 comunidades (3), Libanio se vê obrigado a analisá-los como na perspectiva sociológica que observa os dados com objetividade. Faz isso com maestria, apoiando-se na sociologia de Peter L. Berger, mas revela sua contrariedade logo na abertura do texto:

Uma vida não se colhe no papel, mas diretamente da fonte geradora. Assim uma reflexão sobre a CEB deveria levar-nos a viver dentro dela e aí, com o respeito que merecem as flores novas, deixar-se colher pela sua vitalidade. Entretanto o meu trabalho não pôde ser assim. A vida veio-me filtrada através da escrita. E tentarei, na fraqueza deste meio, descobrir como o dinamismo vital da CEB se desenvolve. O próprio método de ser análise de alguns relatórios indica-nos a limitação e pobreza de nosso trabalho (1976: 295).

O fio condutor do estudo é a mudança fundamental que ocorre quando as comunidades tomam consciência de si mesmas enquanto novas realidades psicossociais, eclesiais e políticas.

1. 1 Novas realidades nas comunidades

Didaticamente, como era seu estilo, Libanio inicia o estudo apresentando a descrição sucinta da realidade e ilustrando-a com exemplos tirados dos relatórios. Essa descrição apoiada nas ciências humanas ajuda-nos a entender aquela realidade e assim passar para as considerações de ordem teológica. Quase sem perceber, somos levados a teologizar juntamente com o autor.

1. 1. 1 A dimensão psicossocial

Libanio resume seu estudo da transformação psicossocial das comunidades antes e depois de sua redefinição enquanto CEBs enfatizando o estado anterior do povo das comunidades:

O «antes» da criação das CEBs, conforme os relatórios, era, portanto, caracterizado por uma passividade, desconfiança de si, falta de consciência do próprio valor e possibilidades, submissão e acatamento dos valores e normas ditados de fora, da autoridade política e religiosa. É a grande devastação que a opressão causa: afeta até o mais profundo da consciência das pessoas (1976, p. 297).

Essa realidade desperta o teólogo para a “Promessa: a Aliança de Deus com um povo. E como viver esta promessa da Aliança, se nem sequer somos povo, se nem sequer podemos constituir-nos em parceiro de Deus?” Essa parceria supõe a liberdade humana. Portanto, “condições que lhe vedam essa situação de liberdade são anuladoras da força salvífica de Deus”.

Recorrendo à fórmula tomista de a “graça supõe a natureza”, conclui Libanio: “a ‘natureza’ necessária para a ‘graça’ da comunidade eclesial é um mínimo de consciência de autovalor, de liberdade, de participação, de ‘sentir-se gente entre gente’” (1976, p. 299).

Por isso, o “agora” significa “perder o medo de falar, de emitir juízos sobre os acontecimentos e fatos e concitar outros para uma ação comum”. Trata-se aí da “passagem do saber recebido até então de fora, de modo impositivo e até mesmo opressor, para um saber descoberto, verbalizado.” É um fato tão impactante que o autor vê nele um “milagre”: gente fraca, secularmente oprimida e desprezada, que nunca teve vez nem voz, de repente assume as rédeas do próprio destino, cheia de uma força que só pode vir de Deus. Tudo isso lembra as primeiras comunidades cristãs retratadas no livro dos Atos: “lá, como certamente também aqui, acontece uma idealização” (1976, p. 300). Conclui então o teólogo:

Numa palavra, o povo faz uma experiência de liberdade e criatividade: experiência profundamente teologal, que se encontra no cerne da Boa-Nova. Onde há o Espírito, aí está a liberdade (2Cor, 7). Onde está Deus, aí está a novidade, a criatividade, a força que nenhum poder diabólico consegue dominar. Em todo esse nascer da consciência do povo nas CEBs surge lampejo de esperança. Se esperar é crer no amor, podemos crer nesse amor de Deus que se revela na fraqueza, na pequenez destes grupos eclesiais, que se despertam para assumirem juntos a própria tarefa, missão dentro da grande Igreja e no mundo. (1976, p. 300)

É sobre essa base humana constituída por pessoas que agora se sentem e se sabem gente, sujeita de direitos, que se constitui a Igreja. Esta é a tese principal de Libanio nos textos escritos para os primeiros Encontros intereclesiais.

1. 1. 2 A dimensão eclesial

Ao fazer a reflexão acima, Libanio abre o caminho para a primeira formulação de sua tese: “É a consciência de serem chamados, ‘ekkletoi’. Experiência fundante de Igreja. Esta experiência de ser Igreja está profundamente unida à de ser povo.” (1976, p. 301). Logo depois desenvolve o tema ao qualificar o tipo de Igreja que se quer: “a CEB quer ser uma Igreja em que todo mundo se sinta bem, em que todos sejam aceitos, sem discriminação social, racial, cultural. Igreja onde o pobre tem o direito do rico, e o rico para ser da Igreja tem que ficar no mesmo nível do pobre”. E continua: “a consciência psicossocial de solidariedade nos problemas e na sua solução não se distingue na prática da consciência de ser-Igreja”. Aquilo que antes era separado – a prática religiosa na capela e o socorro a pessoas em necessidade – agora se unem como duas dimensões da mesma Igreja. Nesse momento a dimensão explicitamente teológica “cede lugar para o aspecto experiencial de ser grupo a serviço das necessidades imediatas que afligem os irmãos da comunidade” (1976, p. 302). De fato, Libanio não faz mais do que fundamentar teoricamente uma afirmação recorrente nas CEBs: “A Igreja eram quatro paredes de pedra, hoje é o povo, as pessoas”.

É claro que essa nova experiência de ser-Igreja a partir da experiência de ser-comunidade servidora dos pobres não se dá sem causar tensões com a experiência anterior de separação entre Igreja e povo. Libanio elenca e ilustra, com exemplos tirados dos relatórios, as principais tensões que na linguagem popular são chamadas de “problemas”. O primeiro é o problema do padre, que ocupava o lugar central na comunidade, dava as normas e tomava as iniciativas, e agora não é mais insubstituível. Como afirma um relatório, “Antigamente, a Igreja era os padres; hoje é a gente” (1976, p. 303). O segundo campo de tensões está no problema das celebrações e da catequese, porque o povo sente necessidade de inventar expressões mais adequadas à experiência vivida e “distingue o culto onde ele é cliente, e as expressões rituais do seu culto próprio, onde é autor” (1976, p. 303). Isso se reflete até mesmo na reinterpretação da Eucaristia porque, nos relatórios se diz que participar da Eucaristia “é receber força de Deus para melhorar na participação, é obrigação de ser uma Igreja com o povo, crescer na amizade com Deus e com todos; é participação do banquete de Jesus que faz o povo feliz; é hora de reflexão para ter mais esperança” (1976, p. 304). Assim, a liturgia é alterada: não para formas mais sofisticadas, sob a influência de “liturgos renovados”, mas para formas mais populares, especialmente para os festejos de santos. “Agora a festa é de nós pobres, tudo unido, não tem esse negócio de fila, é tudo junto. Agora estamos achando que estamos em outra vida, estamos libertos quanto a isto, somos todos os donos da festa (1976, p. 304).

Assim, conclui Libanio:

A concepção de Deus, de Religião sofre nova compreensão. De um Deus vingativo que estava nas nuvens, percebe-se agora como presente em cada um, inspirando e modificando a vida da gente; de ser distante se faz um Deus que anda conosco e Jesus é nosso irmão. Parece que estamos sentindo o povo repetir a experiência de Israel nos seus primórdios: Javé que passeava no meio do povo, que ia à frente do povo nas batalhas (2Cor 13,12). Assim uma religião, antes voltada para o espiritual, é hoje voltada para o material; o grupo percebe que sua fé mudou de qualidade, ao tomar mais consciência de sua responsabilidade social. As CEBs, assumindo responsavelmente todo um passado religioso de fé em Deus e no seu Cristo, organizam-se em função do bem-estar concreto pessoal e comunitário. O religioso perde sua face negativa da alienação, e é assumido num processo libertador, sem deixar de ser religioso. A Revelação de Deus em Cristo aparece sempre como salvação para todas as pessoas dentro de um processo histórico válido de libertação. Os sacramentos e demais atos religiosos só são tidos como agradáveis a Deus na medida em que celebram um maior engajamento comunitário e ajudam seus membros a inserir-se mais profundamente no processo histórico. Portanto, toda a mística e organização das CEBs pretendem comprometer seus membros com maior paixão e acerto nesse processo libertador. Elas encontram sua motivação e finalidade na fidelidade a Deus, manifestada no serviço a prestar ao bem-estar da comunidade. Nunca é a comunidade local para as CEBs, mas estas em função daquela (1976, p. 304).

1. 1. 3 A dimensão política

Ao analisar o que dizem os relatórios sobre mudança de consciência em nível político, Libanio é obrigado a partir da constatação de que este é “o nível mais fraco nas CEBs. Descobrem-se como grupo, como gente, como Igreja, mas ainda ficam pouco conscientes do significado político de tal descoberta” (1976, p. 305). Encontra, é claro, alguns exemplos de mudanças de consciência e de atitude diante do poder, mas são exemplos esparsos e pouco convincentes. Apesar disso, conclui essa parte do estudo com uma metáfora carregada de esperança:

Abrir clareira em matagal inóspito costuma ser duro e o terreno só se torna transitável depois de muito tempo, quando muitos passarem por aí. As veredas estão sendo abertas. É de esperar que a força da floresta não as feche antes de que outras sejam abertas, de modo que dentro em pouco haja um verdadeiro caminho transitável (1976, p. 306).

 

1. 2 A pedagogia da mudança

Embora utilize instrumentos sociológicos de análise, Libanio não tem a pretensão de oferecer a explicação cabal do processo de mudança em curso nas CEBs, mesmo porque ela teria que partir do “fator mais importante da ação do Espírito Santo”. Contenta-se, então, em detectar a insatisfação das comunidades em sua situação anterior e “a incidência de fatores que provoquem a redefinição” (1976, p. 307). Vejamos rapidamente o tratamento dado à situação de insatisfação, para concentrar a atenção sobre a pedagogia.

É óbvio que alguma insatisfação está na origem de qualquer processo de mudança social. “Um grupo humano, vivendo uma situação de dominação, de carência humana profunda, de espoliação de seus grandes valores humanos e culturais, nunca poderá estar plenamente satisfeito”. Os relatórios referem-se a sofrimentos, humilhações e desprezo sentidos pelos pobres, que se viam impotentes para se libertarem de tais situações. Apesar disso, as forças profundas do coração e a percepção da inteligência humana clamam por uma reação contra aquela situação. Elas confluem para a pedagogia libertadora inspirada no método da Ação católica: ver, julgar e agir (1976, p. 307). Neste texto o mestre Libanio traça suas primeiras contribuições para a pedagogia das CEBs, que será depois desenvolvida.

O ponto de partida mais frequente é a leitura da Bíblia:

Lê-se a Sagrada Escritura, no culto ou fora dele. Dela tiram princípios, pensamentos, ideias, inspiração. Debatem juntos sobre essas lições tiradas da Bíblia, em confronto com o drama de sua vida humana cotidiana e assim se opera a primeira revolução pentecostal, fundamental: cada qual passa de um saber recebido a um saber descoberto (1976, p. 307). (4)

Evidentemente, nem sempre a leitura da Bíblia tem essa propriedade pedagógica. Há grupos onde se faz “uma reflexão espiritualista, longe de ter repercussão na realidade”, pois essa pedagogia que parte das realidades do povo em confronto com os relatos bíblicos requer “tempo para se fazer um método de trabalho (…) e nem sempre este método chega até ao fim com seus efeitos” (1976, p. 308).

Outro ponto de partida para a conversão e redefinição da autoconsciência comunitária é a reflexão surgindo da ação da comunidade. Ao analisar seus sucessos e fracassos, o grupo descobre a necessidade de organizar-se melhor ou de levar a luta para campo mais favorável. Ao fazê-lo, passa a

controlar o processo da ação. Torna-se mais sujeito da própria história e cada vez menos manipulado. A Bíblia vem iluminar a ação, dar-lhe sentido. Mostra que Deus não é o culpado das situações de injustiça, mas os homens. A própria ação vai unindo os membros da CEB, aumentando o nível de solidariedade, de participação, de responsabilidade comunitária, de engajamento, de compromisso com o meio (1976, p. 309).

Libanio deixa claro que, para serem eficazes, essas pedagogias – a que parte da reflexão bíblica incidindo sobre a vida e a da ação que requer reflexão – requerem a contribuição de agentes externos à comunidade. Essas pessoas merecem especial atenção nesta análise da pedagogia libertadora. São sacerdotes, religiosos, religiosas e agentes de pastoral leigos que “têm ajudado as comunidades a fazerem o processo de redefinição psicossocial, eclesial e eventualmente política”. As CEBs “nascem da atividade pastoral da Igreja e não em oposição ou contestação a ela”. Esses agentes de pastoral têm a função de conscientização da comunidade e quando a exercem acertadamente a transferem a membros da própria comunidade. “Fica sempre o risco de que esses ocupem o lugar do padre, não superando a estrutura clerical. Mas, em geral, é-se consciente de tal processo, e os vigários vão aos poucos deixando que o povo vá assumindo sua tarefa e eles partem para novas experiências”. Há “uma condição indispensável para que estes agentes possam suscitar CEBs: sua proximidade do povo. É importante conviver com o povo, visitar famílias, participar de sua vida, trabalho, aprendendo com eles a ser também povo, visitar famílias, participar de sua vida, trabalho, aprendendo com eles a ser também acolhedor na própria casa” (1976, p. 310).

 

1. 3 Ameaças às comunidades

A CEB tem “estrutura leve”, mas a necessidade de suporte institucional pode vir a sufocá-la. Nessa tensão entre sua “simplicidade estrutural” e a sua inserção na institucionalidade eclesiástica reside a principal ameaça às CEBs: “Como o seu ‘ser’ é muito simples, de modo mais fácil tanto pode nascer como morrer. Não carrega o peso de instituições que, mesmo mortas, se arrastam ainda por anos na inércia de seu aparato” (1976, p.312). Por isso, a hipótese é que

o futuro das CEBs dependerá muito da sua plausibilidade diante da grande Igreja. Serão os cristãos das diferentes Igrejas locais, a posição da hierarquia, a reflexão da teologia, a abertura dos canais administrativos da Igreja que, com sua compreensão, apoio, criatividade e participação, apostarão nesta experiência nascente. Se todo este apoio faltar e as CEBs forem entregues à sua pequenez, fica difícil que elas resistam durante muito tempo. Esta é a enorme responsabilidade da grande Igreja diante da fragilidade da raizinha que começa a medrar em terrenos de nossa Igreja (1976, p. 313).

Sem o apoio da grande Igreja poucas CEBs rurais conseguem resistir a impactos sociais e econômicos como o êxodo rural e os baixos salários de companhias agroindustriais. Como diz um relatório, “este é o deserto eclesial, onde outrora floresceram as CEBs”. Vê-se aí “o problema fundamental do conflito social de interesses. As CEBs representam a união e a vida dos pequenos, cujos interesses, na perspectiva capitalista, devem estar subordinados aos dos grandes. E quando não o querem, arriscam ser esmagados” (1976, p. 314).

Face a essa realidade ameaçadora, Libanio procura meios para defender esse broto tão promissor da antiga e grande Igreja católica. Sua premissa é que a “CEB é uma redefinição da consciência eclesial”. Trata-se então de reforçar a plausibilidade dessa nova concepção, e esta é a missão da teologia: demonstrar sua validade para que conquiste o consenso que lhe garanta o suporte social. “O consenso social se torna fundamental para que a experiência continue bem sucedida” (1976, p. 315). Assim, o autor retira da leitura crítica dos relatórios a estratégia de criação do consenso eclesial que assegure a existência das CEBs.

1. 4 Estratégia de defesa das comunidades

Para a formação do consenso o conhecimento do senso comum é mais importante que sofisticadas elaborações teóricas. Por isso “a melhor e mais relevante legitimação da CEB deve vir da consciência do simples fiel que vive na CEB e do cristão que se defronta com esta realidade nascente na Igreja”. Na expressão “a gente começa a sentir-se gente” Libanio vê a base de legitimação psicossocial da CEB como “lugar de personalização” (1976, p. 316). Desenvolvendo esta ideia, diz ele:

Num mundo de opressão e de discriminação racial e cultural, seja nas regiões rurais como nas periferias urbanas, encontrar um lugar, onde se pode sentir-se gente, onde se pode falar, onde se percebe respeitado, onde a própria voz tem importância de deliberação e ação, justifica-se altamente. O desumano da sociedade, que nos circunda, sobretudo para aqueles que sempre “levam ferro”, legitima a existência de grupos, onde o relacionamento primário exerce forte atrativo. Além disso, essas comunidades se abrem a outras, num intercâmbio de experiências, tornando-se um lugar mais amplo de enriquecimento. As diferentes caminhadas, os sucessos e fracassos, as lutas e sofrimentos, as vitórias e derrotas, são estímulo para a caminhada e fonte contínua de crescimento (1976, p. 316).

Na medida em que autoridades eclesiásticas valorizam a criatividade artística popular onde encenações, composições musicais e poesias trazem sua maneira de expressar as “sementes do Verbo”, as comunidades se sentem legitimadas. “Esta legitimação fáctica e já formulada de modo simples pelo fiel é a mais decisiva” (1976, p. 317). Isso não significa, contudo, que a legitimação propriamente teológica seja dispensável. Ela é fundamental para dar à CEB a proteção que só a grande Igreja pode oferecer. Libanio traça então, em grandes linhas, o que é essa teologia:

A teologia subjacente a esta nova visão de Igreja, que a legitima, é de que a Igreja somos nós. Frase que lemos em diversos relatórios. A Igreja é descrita (como uma comunidade), não através de um estudo teológico e livresco, mas através da própria experiência. Daí que esta verdade se impõe com força enorme. Mais. Igreja é uma realidade que nasce do povo e não é uma estrutura que desde fora é imposta ao povo. Esta consciência aparece, quando certas CEBs falam da “Igreja que a gente quer”. Pouco a pouco, está surgindo uma eclesiologia nova, de um lado expressão da vivência das CEBs, de outro sua justificação teológica. Na medida em que esta teologia sobre a Igreja for ganhando cidadania no mundo teológico mais amplo e na consciência dos fiéis e pastores, nesta mesma medida as CEBs vão recebendo maior consistência. Comunidade, que nasce do povo e a que a gente quer ser, numa linha de compromisso histórico na região, parece ser o cerne desta nova eclesiologia (1976, p. 317).

Aí está uma concepção de Igreja viva, participada, engajada, popular e de todos. Aí reside sua força mas também sua fraqueza. “Força, enquanto suas raízes se estendem até onde está o povo e é difícil arrancar uma árvore de raízes bem espalhadas pelo solo”. Fraqueza porque lhe falta o elemento “estrutural, de estabilidade” que só a grande instituição pode oferecer. Por isso, as CEBs requerem a presença do “elemento ministerial e sacerdotal”, porque “não basta que nós nos digamos que somos Igreja. É importante que se nos diga o mesmo” (1976, p. 318). O bispo, é claro, é o grande legitimador da catolicidade das CEBs e seu reconhecimento é recebido com enorme gratidão. Na sua ausência, a visita do padre e de agentes de pastoral suprem essa necessidade das bases de sentirem-se em comunhão com a grande Igreja. Muito importantes são os encontros com outras comunidades e, de modo especial, as assembleias diocesanas em que representantes de todas as comunidades se reúnem com os e as agentes de pastoral, o clero e o bispo.

Essa experiência de Igreja tem por base a fé na Palavra de Deus:

A certeza da presença de Deus, a promessa de sua Aliança e fidelidade, lida e experimentada na meditação da Escritura, sobretudo em grupo, garantem aos membros da CEB ânimo para prosseguir. Os embates adversos encontram na Palavra de Deus uma barreira protetora. Aliás, é uma experiência que aparece frequentemente nos salmos. De um lado a fraqueza humana, do outro a força do inimigo, o salmista colocado no meio, volta-se para Deus na certeza de sua proteção (1976, p. 320).

Libanio chega então à conclusão de seu estudo explicitando os problemas que percebe “de modo velado” nos relatórios (1976, p. 323). Para não nos alongarmos demais, focaremos aqui apenas três.

 

1.5 Problemas a serem trabalhados

No contexto sóciopolítico de opressão e dominação que marca a existência das CEBs, é necessária “uma reflexão mais alentada sobre a relação entre o cerne do Evangelho e a problemática da liberdade, da possibilidade de ser povo a fim de ser capaz de responder em livre responsabilidade ao chamado de Deus a uma aliança”. Libanio retoma a tese de “a experiência de ser-Igreja encontra um pressuposto humano na possibilidade de ser-povo” e pergunta até onde essa libertação política se identifica com a libertação “de que fala o Novo Testamento como fruto messiânico e da presença do Espírito” (1976, p. 324).

Outro problema são os novos ministérios. “Nova consciência de comunidade significa que a extensão de sua vida através dos ministérios deve também ser nova”. Sabe-se que “é a própria vida que inspirará estes ministérios” que devem estar inseridos “no seio de uma Igreja, única e universal”. A tensão entre catolicidade que “não pode ser abolida, como também não deve abafar o surto vital, encerrando-o numa uniformidade estéril”, é bem concreta e vital. A esse problema relaciona-se a questão vital da criação e liberdade litúrgicas:

De fato, a liturgia toca imediatamente a vida diária de uma comunidade. É uma realidade bem próxima e muito sensível. Os problemas neste campo não se fazem esperar. São, em geral, os primeiros conflitos com as autoridades de cunho mais legalista. Criatividade ou abuso: eis os epítetos que facilmente se substituem. Até onde se pode falar de liberdade criadora da CEB, sem que se lhe lance a pecha de abuso? (1976, p. 325).

Finalmente, há o problema da pedagogia libertadora. Os passos até agora dados apontam o “longo caminho a trilhar”. Como concretizá-la nos difeferentes lugares, seja no campo como nas periferias urbanas. Essa pedagogia “tem que enfrentar exatamente o problema de morar, dentro do coração do oprimido, um opressor em potencial. E quando historicamente esta potencialidade se atua, temos assistido a tristes exemplos, em que tais ‘libertos’ são os piores opressores” (1976, p. 325). E essa pedagogia não combina com a pressa: em contraste com a força do sistema, a “fragilidade das CEBs com sua imensa lentidão de caminhada, é chocante. Sentimo-nos impotentes e portanto céticos diante de qualquer ação que no fundo não altera o grande jogo. Que adianta bater bola atrás do gol, se os tentos só são válidos feitos de dentro do campo?” Daí a necessidade da paciência histórica, que não é acomodação. “Apostar nas CEBs é acreditar na paciência histórica e na lentidão do povo, em oposição à rapidez de ação de grupos vanguardistas, elitistas” (1976, p. 326).

E Libanio conclui seu texto com a frase lapidar: “fica-nos sempre a esperança de que surja uma verdadeira Igreja bem próxima ao povo simples e marginalizado, ajudando-o no seu movimento e processo de libertação” (1976, p. 326).

Notas:

1. Para a análise sociológica dessa luta interna pela hegemonia, cf. OLIVEIRA (2014). A ideia de refundação inspira-se na política, quando se fala de “refundar” o partido parece que sofreu algum trauma grave, para que ele retome com novo vigor a delidade a seus princípios do tempo em que foi fundado.

2. As normas de redação acadêmica obrigam a diminuir o espaço e o tamanho da letra nas citações maiores do que 4 linhas, prejudicando sua leitura. Recomendo então ao leitor ou leitora que use uma ferramenta de aumento para melhor aproveitar seu conteúdo, que é de grande valor.

3. A apresentação do documento nal refere-se a 17 comunidades, mas só constam da lista os relatórios vindos de: ltabira (MG), Bauru (SP), S. Mateus (ES), Jales (SP), Mogeiro (PB), Acre, Goiás, São Félix (MT); Barreirinhas (MA), Tacaimbó (PE); Linhares (ES), Tauá (CE), Volta Redonda (RJ), Itacibá (ES) e São Mateus (MA).

4. Negritos do autor deste artigo.

Referências:

LIBANIO, J. Batista: Uma comunidade que se rede ne. SEDOC, Petrópolis, 1976, p. 295-326.

 

Sobre o autor:

Pedro A. Ribeiro de Oliveira. Nascido em Juiz de Fora – MG. Doutor em Sociologia pela Universidade Católica de Louvaina (1979). Foi professor nos Programas de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora e da PUC-Minas. É membro da Equipe do ISER-Assessoria. Desde 1976 tem assessorado as CEBs no Brasil. Endereço: Sítio Tarumã – Barro Floresta 36072-090 Juiz de Fora – MG. E-mail: pedror.oliveira@uol.com.br

 

Fonte:

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