A equipe do Observatório da Evangelização recebeu com tristeza e profunda indignação ética e cristã a grave denúncia sobre a violenta ameaça de morte ao Frei Gilberto Teixeira –  OFM. Frei Gilberto tem se colocado ao lado das vítimas deste sistema que mata, porque coloca a sede de lucro acima do respeito à pessoa humana, e junto com os movimentos populares de defesa da dignidade da vida tem levantado a voz na defesa dos direitos humanos e do cuidado com a Casa Comum. A fé e a esperança da Igreja tem como alicerce maior a prática libertadora do Messias Crucificado, aquele que, sustentado pelo Espírito Santo e por sua foi fidelidade até as últimas consequências ao Reino, foi ressuscitado por Deus. A fé da Igreja é trinitária e não teme ameaça de morte. Por isso estamos solidários e em prece para que Frei Gilberto e todas as lideranças cristãs comprometidas com o Evangelho do Reino tenham a mesma coragem e fidelidade de Jesus de Nazaré.

Eis a solidária carta de Dom José Eudes, bispo da Diocese de Leopoldina, que confirma que  Frei Gilberto Teixeira não está sozinho e a Igreja, por sua missão, não se amedrontará diante de ameaças de morte:

No último dia 19 de fevereiro, domingo, o nosso querido Frei Gilberto Teixeira, Administrador Paroquial da Paróquia de Santo Antônio, em Belisário, distrito de Muriaé, sofreu um atentado por ameaça de morte, com a exibição de arma de fogo. Foi abordado quando, encerrada a missa dominical com sua comunidade, entrou, sozinho, na casa paroquial. O bandido fez questão de lhe informar que o acompanha em todos os seus atos e movimentos, nos últimos tempos. Impôs-lhe que se calasse em todos os pronunciamentos sobre os direitos dos seus paroquianos, para não ser morto. E que era o último aviso.

Frei Gilberto, em sua função missionária, como deve ser, vem prestando assistência e apoio aos pequenos agricultores de sua comunidade, na luta contra a espoliação de suas terras e a degradação das áreas de lavouras familiares. Em nosso País, como temos assistido com muita dor, os ditos “grandes empreendimentos” não suportam argumentação que contrarie seus planos, sabedores de que sempre sairão vitoriosos. Pelo que, ignoram qualquer bem-estar ou direito dos fracos. Se entender necessário, desprezam até mesmo a vida humana dos contraditores. Irmã Dorothy é uma das nossas mais recentes e dolorosas memórias…

Diante deste monstruoso atentado, a Diocese de Leopoldina não pode nem vai se calar, enquanto a questão for a segurança, o direito e o bem-estar de nosso Clero e das nossas comunidades. Frei Gilberto fazia o que toda a nossa Diocese faz e fará sempre. Temos compromisso com o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, na sua milenar opção pelos mais sem-voz e sem-vez e, nestes últimos tempos, acompanhando o Santo Padre, o Papa Francisco, no “Cuidado com a Casa Comum”, na recomendável leitura de sua Carta “Laudato SÌ”. A vida de nosso povo e o meio-ambiente saudável não são questão secundária para a nossa Igreja. “Que todos tenham vida e a tenham em abundância” – como o Senhor Jesus proclamou.

Tornamos público que todas as medidas necessárias à segurança pessoal de Frei Gilberto estão sendo tomadas e que as autoridades foram devidamente acionadas para que se investigue e que o autor, e o mandante se for o caso, sejam criminalmente responsabilizados.

Assim, esperamos que o mandante retire suas sentenças e que as autoridades constituídas venham em socorro imediato daquelas comunidades, para que se assegurem os sagrados direitos às suas pequenas propriedades, à proteção aos saudáveis e ricos mananciais de água potável de extraordinária qualidade que ali nascem. E, por fim, que os serviços de evangelização e expressões religiosas não venham jamais ser amordaçados. E que nunca o valor econômico-financeiro se sobreponha ao sagrado valor da vida humana!

Leopoldina,23 de fevereiro de 2017

Dom José Eudes Campos do Nascimento – Bispo Diocesano

Pedro Lopes Lima – Chanceler do Bispado

(Os grifos são nossos)

O Evangelho de Jesus é fundamentalmente o anúncio de uma boa notícia para os mais pobres, indefesos e desesperançados: alegrem-se, pois, o Reino de Deus chegou e está no meio de nós! A prática libertadora de Jesus tornou o dinamismo do Reino visível e atuante em nossa história. Deus se revela como aquele que escuta o clamor dos sofredores e o Deus da vida, aquele que quer a vida plena para todos. Somos todos filhos e filhas de Deus.

Deus suscita profetas e profetisas, e envia o seu próprio Filho para nos mostrar o caminho a seguir. Não há evangelização sem uma postura clara de defesa da justiça, da partilha e da fraternidade. O Evangelho do Reino veicula uma teimosa esperança de vida plena para todos desde os mais pobres e excluídos da mesa da dignidade.

Como não poderia deixar de ser, no centro da ação evangelizadora da Igreja está a defesa esperançada da dignidade e do valor da vida. Por isso ela é chamada a colocar-se sempre ao lado dos mais vulneráveis e excluídos e içar a bandeira da igual cidadania para todos. A Igreja é chamada pela sua índole estruturante de sacramento do Reino a denunciar toda forma de injustiça, opressão e exclusão social. Na Palavra de Deus facilmente se pode reconhecer que quando o Reino de Deus é ameaçado pelos poderosos desse mundo, Ele suscita profetas e profetisas, homens e mulheres que, por fidelidade ao chamado de Deus,  são capazes de dar a própria vida na defesa do Reino. Frei Gilberto não se calará. As lideranças cristãs não se calarão.

O chão de nossa história latino-americana está fecundado pelo sangue e pela memória dos mártires da caminhada da fé em defesa da vida. Dom Oscar Romero, Pe. Rutílio Grande, Pe. Josimo, Pe. Ezequiel Ramin, Pe. João Bosco, Ir. Adelaide, Ir. Dorothy, Chico Mendes, Margarida Alves, Marçal Guarani são apenas alguns mártires entre tantos outros que deram a sua vida para que “outra sociedade possível” pudesse surgir. Se calarem a voz dos profetas…

Na fé em Jesus Cristo, somos todos solidários e caminharemos de mãos dadas com Frei Gilberto e com todos os homens e mulheres, movimentos populares que levantarem a bandeira da justiça e da paz.

Edward Neves Monteiro de Barros Guimarães

Secretário Executivo do Observatório da Evangelização – PUC Minas

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