O período da quaresma, pelas motivações que veicula e pela tradição consolidada nas Campanhas da Fraternidade, tornou-se  um dos tempos litúrgicos que melhor favorece à conversão e ao aprofundamento da vida cristã na caminhada da Igreja do Brasil.

Ser cristão é um desafio batismal contínuo, pois exige de quem, livre e conscientemente, decidiu conformar a própria vida pelo seguimento de Jesus no confronto inquietante com a Palavra de Deus e com as questões existenciais éticas tais como:

  • O que faria Jesus ante os desafios e urgências da situação em que estamos vivendo?
  • Como concretizar a fidelidade ao seguimento de Jesus diante dos sinais do tempo?

A quarta-feira de cinzas marca fortemente o início litúrgico das reflexões quaresmais. Por isso esse dia foi escolhido para ser o  lançamento da Campanha da Fraternidade.

Em 2017, a Igreja Católica assume o desafio de provocar seus fieis, outros cristãos, como também pessoas de boa vontade a que se deixem interpelar pela temática da campanha da Fraternidade. A temática deste ano “Fraternidade: Biomas brasileiros e defesa da vida“, a partir do lema “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2.15) está inserida no hercúleo desafio ecológico contemporâneo que é de toda humanidade: diante da ameaça de desequilíbrio do sistema Terra, como repensar a nossa relação com a Casa comum e, portanto, o nosso modelo de desenvolvimento, acusado de ser o grande causador de destruição?

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Para nos motivar a entrar no espírito quaresmal, o Observatório da Evangelização disponibiliza, a seguir, a “Carta Quaresmal” de um cristão, monge e biblista comprometido profeticamente com a caminhada da Igreja dos pobres na América Latina:

“Hoje é o dia favorável para se receber a graça, çççççççççççççççççççççççççççççççççççççççççççççççççHoje é o dia da salvação” (2 Cor 6, 2).

Queridos irmãos e irmãs,

Hoje, as antigas Igrejas cristãs (Católica, Ortodoxas, Anglicana, Metodista e Luterana) começam o tempo da Quaresma. A quarta-feira de cinzas é uma celebração que ficou mais na tradição católica e parece se contrapor ao Carnaval. Em uma paróquia que conheci, o padre fazia as cinzas da quarta-feira das fantasias do Carnaval que os fieis traziam para queimar. Pessoalmente, acho de mau gosto essa contraposição entre a brincadeira do Carnaval e a severidade da Quaresma, embora digam os históricos, que o Carnaval começou como três dias de festas e brincadeiras, prevenindo o tempo mais de jejum e penitências da Quaresma. Isso pode ter sido assim na Idade Media, mas não corresponde ao espírito mais profundo desse tempo.

Nos primeiros séculos do Cristianismo, quando surgiu a Quaresma, era o tempo em que as pessoas que se preparavam ao batismo (catecúmenos) se preparavam mais intensamente para o sacramento da vida nova que receberiam na noite da Páscoa, na santa Vigília que é a mais importante de todas as celebrações cristãs.  E pouco a pouco, esse tempo da Quaresma, se tornou também o período do ano no qual, do mesmo modo que os catecúmenos esperam a Páscoa para serem batizados, os penitentes (pessoas que haviam rompido com a comunidade e desejavam voltar a ser da Igreja) se preparavam pedindo perdão e aprofundando a fé para serem reconciliados com a Igreja na quinta feira-santa e assim poderem já plenamente integrados na comunidade, celebrarem a Santa Páscoa. De todo modo, se vê que o sentido mais profundo da Quaresma é o que São Bento diz para os monges em sua regra: “esperar com alegria a Santa Páscoa”.

Como viver isso hoje em dia? De um lado, a festa da Páscoa não é apenas o rito que lembra a morte e ressurreição de Jesus. É um sacramento, isso é, um memorial que revive e nos faz atualizar em nossa vida e no mundo a energia da Páscoa de Jesus. Então, pessoalmente, considero a Quaresma e a Páscoa como um tempo de renovação da consciência, revisão profunda de vida e como um tempo no qual me proponho a dar passos novos em um jeito novo de viver e de conviver. Isso não é fácil. Por isso, preciso sim intensificar não somente nesse tempo, mas  a partir desse tempo, a leitura da palavra de Deus, a oração e a solidariedade efetiva e afetiva aos irmãos e irmãs, especialmente o meu compromisso prioritário e profundo com os pobres.

Houve uma época na qual, na Quaresma, eu fazia pequenos ou maiores gestos de renúncia (não comer doce na Quaresma, não ir ao cinema etc.). E quando acabava a Quaresma, tudo voltava ao normal. Não creio mais nesse tipo de ascese, embora compreendo o valor do autocontrole e do ser capaz de me dominar a mim mesmo naquilo que eu gosto. Mas, prefiro fazer esforço no que é essencial e que sinto que ainda preciso mudar: a capacidade de partilhar tudo o que sou e o que tenho com os outros, a capacidade de lidar bem com a fragilidade da idade que chegou e com o corpo envelhecido que a gente sente que vai caindo aos pedaços, mas que o espírito seja capaz de mantê-lo de pé e altivo até a hora em que for o caso de partir.

A Quaresma é principalmente o tempo de retomar a esperança – esperança de que eu sou sempre capaz de me converter e me tornar mais semelhante ao meu mestre Jesus e mais irmão de todas as pessoas – Que nessa Quaresma Deus me torne mais uma pessoa de comunhão – que minha espiritualidade e teologia partam do carinho e se façam sempre de ternura pelos meus irmãos humanos e por todos os seres vivos. Que essa conversão tome forma de solidariedade à natureza, no cuidado com os ecossistemas (Campanha da Fraternidade desse ano de 2017) e me faça retomar sempre a esperança da construção do reino de Deus, mesmo no Brasil do Termer e do mundo do Trump.

Aprofundarei nessa Quaresma uma contemplação de Deus como pequeno servidor da humanidade, um dalit indiano ou o que os bolivianos racistas de Santa Cruz de la Sierra costumam chamar “índio sujo da cordilheira”. Um impuro que as Igrejas das castas clericais sempre acabam rejeitando ou discriminando. E Ele ou Ela nos convida para sairmos juntos à noite e transformar nossas noites em dias. Aí sim, aceito voltar a Goiás para o Tríduo Pascal e celebrar com a comunidade que ainda se reúne ali no antigo mosteiro a vigília-mãe de todas as vigílias da Igreja. E aí sim “mesmo as trevas não são trevas para ti. A noite será clara como o dia” (Salmo 139), cântico que resume o Exsultet (anúncio feliz da nova Páscoa) que cantaremos na madrugada do domingo pascal.

Para vocês uma santa e renovadora celebração desse tempo da Quaresma e Páscoa na comunhão com os nossos biomas e toda a mãe Terra.

Um abraço do irmão Marcelo

(Os grifos são nossos!)

Com maior abertura de coração ao Espírito Santo e fidelidade ao projeto salvífico do Reino, que a motivação maior deste tempo quaresmal seja sempre a de nos tornarmos discípulos e discípulas de Jesus na busca de resposta esperançada para os desafios e urgências discernidos no contexto em que vivemos.

Edward Neves Monteiro de Barros Guimarães

Pela equipe executiva do Observatório da Evangelização

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