Para inspirar nossos passos nesta primeira semana do período quaresmal, deixemo-nos iluminar pela reflexão do papa Francisco:

Estamos no tempo litúrgico da Quaresma. E dado que estamos a desenvolver o ciclo de catequeses sobre a esperança cristã, hoje gostaria de vos apresentar a Quaresma como caminho de esperança. Com efeito, esta perspetiva é logo evidente se pensarmos que a Quaresma foi instituída na Igreja como tempo de preparação para a Páscoa, e portanto todo o sentido deste período de quarenta dias recebe a luz do mistério pascal para o qual se orienta. Podemos imaginar o Senhor ressuscitado que nos chama a sair das nossas trevas, e nós colocamo-nos a caminho para Ele, que é a Luz.

A Quaresma é um caminho para Jesus ressuscitado, um período de penitência, bem como de mortificação, mas não é um fim em si própria.

Dirigida a fazer-nos ressurgir com Cristo, a renovar a nossa identidade batismal, isto é, a renascer novamente «do alto», do amor de Deus. Eis porque a Quaresma é, pela sua natureza, tempo de esperança.

Para compreender melhor o que isto significa, devemos referirmo-nos à experiência fundamental do êxodo dos israelitas do Egito, narrada pela Bíblia no livro que tem esse nome: Êxodo. O ponto de partida é a condição de escravidão do Egito, a opressão, os trabalhos forçados. Mas o Senhor não esqueceu o seu povo e a sua promessa: chama Moisés e, com braço poderoso, faz sair os israelitas do Egito e guia-os através do deserto em direção à Terra da liberdade.

Durante este caminho da escravidão à liberdade, o Senhor dá aos israelitas a lei, para o educar a amá-lo, único Senhor, e a amarem-se entre eles como irmãos. A Escritura mostra que o êxodo é longo e tormentoso: simbolicamente dura 40 anos, isto é, o tempo de vida de uma geração. Uma geração que, perante as provações do caminho, é sempre tentada a recordar com saudade o Egito e a ele regressar; também todos nós conhecemos a tentação de voltar atrás, todos. Mas o Senhor permanece fiel e aquela pobre gente, guiada por Moisés, chega à Terra prometida.

Todo este caminho é realizado na esperança: a esperança de alcançar a Terra, e precisamente neste sentido é um “êxodo”, uma saída da escravidão à liberdade. E estes 40 dias são também para nós uma saída do pecado e um caminho para o Senhor.

Cada passo, cada esforço, cada prova, cada queda e cada retomada, tudo tem sentido apenas no interior do desígnio de salvação de Deus, que quer para o seu povo a vida e não a morte, a alegria e não a dor.

A Páscoa de Jesus é o seu êxodo, com o qual Ele nos abriu o caminho para chegar à vida plena, eterna e feliz. Para abrir este caminho, esta passagem, Jesus deve de despojar-se da sua glória, humilhar-se, fazer-se obediente até à morte e à morte de cruz. Abrir-nos a estrada para a vida eterna custou todo o seu sangue, e graças a Ele nós fomos salvos da escravidão do pecado.

Mas isto não quer dizer que Ele fez tudo e nós não temos de fazer nada, que Ele passou através da cruz e nós “vamos para o paraíso de carruagem”. Não quer dizer isto. Não é assim. A nossa salvação é certamente dom seu, dado que é uma história de amor, requer amor, requer o nosso “sim” e a nossa participação, como nos demonstra a nossa Mãe Maria e depois dela todos os santos.

A Quaresma vive desta dinâmica: Cristo precede-nos com o seu êxodo, e nós atravessamos o deserto graças a Ele e atrás dele. Ele foi tentado por nós e venceu o Tentador por nós, mas também nós temos com Ele de enfrentar as tentações e superá-las. Ele dá-nos a água viva do seu Espírito, e a nós cabe extrair da sua fonte e beber, nos sacramentos, na oração. Ele é a luz que vence as trevas, e a nós é pedido alimentar a pequena chama que nos foi confiada no dia do nosso Batismo.

Neste sentido, a Quaresma é «sinal sacramental da nossa conversão», quem faz a estrada da Quaresma está sempre na estrada da conversão, do nosso caminho da escravidão à liberdade, sempre a renovar. Um caminho certamente exigente, como é justo que seja, pois o amor é exigente, mas um caminho repleto de esperança. Aliás, direi mais: o êxodo quaresmal é o caminho em que a própria esperança se forma.

O esforço de atravessar o deserto – todas as provações, as tentações, as ilusões, as miragens -, tudo isto serve para forjar uma esperança forte, sólida, sobre o modelo daquela da Virgem Maria, que no meio das trevas da paixão e da morte do seu Filho continuou a acreditar e a esperar na sua ressurreição, na vitória do amor de Deus.

Com o coração aberto a este horizonte, vivenciemos o tempo da Quaresma. Sentindo-nos parte do povo santo de Deus, trilhemos com alegria este caminho de esperança.

Papa Francisco
Vaticano, audiência geral, 1.3.2017
Fonte:
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