Para o filósofo italiano Gianni Vattimo “Criticam o Papa porque está certo”

Conversa com Gianni Vattimo, filósofo italiano, na qual ele analisa a emergência do Papa Francisco em nossa sociedade fragmentada, nesse mundo em constante busca de significado.

Ele destacou a importância do papado, como um ‘poder histórico’ que representa mais de um bilhão de fiéis. Mas disse que quem ocupa esse espaço de poder, pode atuar como poderoso ou como pobre e que Francisco escolheu agir como pobre. Por isso é que ele o considera como o “primeiro debilista” do mundo, ou seja, o primeiro expoente do pensamento fraco, tal como ele concebe.

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(Texto: Andrés Beltramo Álvarez , publicado em 17/03/2017, no La Stampa/ Tradução: Edward Guimarães.)

Ele se admite cristão, um católico “muito ativo”. Suas orações? O breviário, especialmente à noite. E as orações tradicionais, repetidas, quase nostalgicamente, a cada dia, como uma religiosidade “de velhinha”. Conceitos que poderiam ser normais em qualquer caminhada de um fiel. Mas que surpreendem quando temos presente quem os disse: Gianni Vattimo. O conhecido filósofo italiano, ícone do partido radical, pai do chamado “pensamento débil” e um estudioso do filósofo existencialista alemão Nietzsche. Em uma entrevista, ele disse que Francisco “é uma oportunidade” para a Igreja, para ela se livrar de estruturas  superficiais. Ele alertou que “se falam mal do Papa”, é porque ele está certo.

Nascido em 1936, como Jorge Mario Bergoglio, Vattimo revela o peso dos anos. De cabelos brancos, caminha lentamente e com uma bengala. Mas o passar dos anos não afetou sua lucidez, nem a veia polêmica de suas declarações. Quase irreverente. Sempre filósofo, brinca com o fim de seus dias. Ele diz que está escrevendo um novo livro, e imagina a possibilidade de deixá-lo inacabado. Porque “todo bom filósofo deixa algum texto inédito“.

Francisco é uma grande oportunidade para Igreja. Existem Papas que representam uma oportunidade para a  renovação e transformação. Não estou exagerando, eu entendo que um Papa é sempre um Papa, devo recordar-me frequentemente que um Papa não pode fazer tudo, apenas algumas coisas. Mas estou convencido de que Francisco tem uma boa intenção e, paradoxalmente, tem razão aqueles que o veem como uma ameaça para a Igreja porque, de fato, é uma ameaça para a Igreja tradicionalista, ele é daqueles que, no fundo, enfrenta os problemas“, disse.

Com a experiência de quem já foi parlamentar europeu, ganhador de prêmios e doutorados “honoris causa” de universidades de vários países, disse estar convencido de que diferentes setores  “falam mau do Papa” porque ele “é daqueles que cortam, que purificam um pouco, que fazem coisas não necessariamente agradáveis”.

Ao mesmo tempo, como “um fiel periférico”, ele sem mostrou preocupado. Ele espera que o pontífice seja equilibrado para ser livrar de muitas coisas obsoletas da Igreja, mas sem destruir ou arruinar a experiência de fé dos crentes.

O Papa, em seu esforço de renovação e atualização, de colocar a Igreja ao nível dos pobres, enfrenta um sério problema de equilíbrio. Ele está agindo corretamente e o que ele está faz endo não deveria escandalizar. Trata-se de um momento muito delicado de transformação na Igreja“, assinalou.

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Em outros tempos, ele disse que era “ateu graças a Deus “, mas agora mudou de opinião. Ainda que não a aceita, abertamente. Talvez porque, a sua maneira, ele nunca tenha deixado de ser se considerar católico, mesmo tendo sido sempre um ferrenho crítico da Igreja. Ou, talvez porque esteja voltando sobre seus passos.

Eu mesmo vivo um cristianismo muito de ‘velhinha’, faço as orações tradicionais e, à vezes, eu me pergunto se isso se derivada de uma certa nostalgia pela Igreja tradicional” reconheceu em sua fala. E seu entusiasmo por Francisco é uma contradição com seu passado de opositor à autoridade do Papa como representante de Deus.

Um pouco depois, ele explicou que esse ateísmo decorre de sua recusa em acreditar no “deus dos filósofos”, o “Deus moral”, suprema garantia da ordem no mundo capitalista. “A nós, que nos interessa desse Deus capitalista?”, questionou.

E continuou. “A Igreja durante muitos séculos, especialmente na Europa, foi uma espécie de instrumento de conservação, mas agindo assim, acabou por conservar seus próprios privilégios.  Isso é algo que o Papa está deixando para trás. Neste momento, a tarefa dos cristãos deveria ser a de deixar ‘as quantidades’ da Igreja, por exemplo seu excessivo patrimônio. Veja bem, eu não quero dizer que se deva vender os museus do Vaticano, não exageremos. Certamente desfazer-se de certas coisas não lhe trará qualquer dano, muito pelo contrário.”

Assim, Vattimo se mostrou aberto aos matizes  Não foi nada radical. Embora não deixou de enfatizar a convicção pessoal de que é necessário a Igreja se reduzir em muitos aspectos, o que não significa postular seu desaparecimento. Isto porque reconhece que sem o cristianismo, ele jamais teria contato com o Evangelho. Até se pôs como exemplo:

Não posso pensar que Igreja seja reduzida além de certo limite de presença porque, caso contrário, quem  anunciará o Evangelho? Quem fará conhecer a Jesus Cristo? Mas as duas coisas conciliáveis. Desse modo, sobretudo, poderia concretizar a apresentação da pessoa de Jesus muito mais coerente com a imagem que ele próprio quis dar de si mesmo“, precisou.

Não somente disse isso, ele procurou oferecer uma espécie de interpretação teológica para esta redução do cristianismo. Segundo ele, na história do Cristianismo, “o enfraquecimento religioso  tem um caráter ou uma dimensão providencial”. E se explicou: “Uma religião forte, poderosa, como frequentemente podemos observar na história, fica do lado dos colonizadores, dos poderosos, da ordem pública e das ditaduras. Que, agora, exista, de fato, um movimento de redução da força do cristianismo, creio que esteja no plano divino de salvação“.

Ao mesmo tempo, ele ressaltou a importância do papado, enquanto “potência histórica” que representa mais de um bilhão de fiéis. Mas esclareceu que quem ocupa esse espaço de poder, ele pode agir como poderoso ou como pobre e que Francisco escolheu agir como pobre. Por isso, ele o considerado como o “primeiro debilista” do mundo. O primeiro expoente do pensamento débil, como ele o concebe.

Os poderosos estão muito atentos, porque eles perceberam que (o papa) tem uma certa ´veia comunista´. É isso que o salva (risos). Eles preferem adotar a atitude de sempre quando os Papas pregam sobre a pobreza: deixá-lo dizer enquanto este não lhes perturba muito. Mas o papa Francisco está puxando a corda, tanto quanto possível, e agindo de uma maneira diferente. Estou feliz porque graças a ele eu agora tenho orgulho de ser católico, enquanto em outros tempos confesso que  eu cheguei até a sentir vergonha de ser“, afirmou.

O processo de renovação iniciado por Francisco será duradouro? Aqui, ele foi muito realista. Respondeu assim: “Eu honestamente não sei. Eu desejaria que sim, mas para ser bem realista,  parece-me bastante compreensível que surja na Igreja movimentos no sentido contrário. Ainda assim, certos passos que ele está dando não poderão ser anulados. Consideramos sempre que o Papa não pode transformar cem por cento da Igreja, mas quem sabe cinquenta por cento e, sobre o restante, provocar um grande refluxo? Mas, resumindo, muitas coisas ainda permanecerão“.

Fonte:

http://www.lastampa.it

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