Certas entrevistas são atemporais e, pela interpelação que seu conteúdo provoca, não devem ser esquecidas. Elas revelam o coração do entrevistado e por isso são capazes de suscitar reflexões que estimulam o desejo de maior humanização, o processo de conversão a Deus, realidade fundamental para a busca de concretização do seguimento de Jesus de frente para os desafios do contexto atual.

Para alimentar o horizonte de reflexão nessa reta final do período quaresmal, nesse contexto de perda dos direitos sociais duramente conquistados pelos movimentos populares e igrejas, vale a pena reler:

Entrevista com o Papa Francisco

(Entrevista concedida a revista Credere. Ela foi feita por Antonio Rizzuto. Foi publicada no n. 49 da revista, em 06-12-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto e divulgada entre nós pelo IHU)

Se um empresário contrata um empregado de setembro a julho, eu lhe disse, ele não faz a coisa certa, porque o despede para as férias de julho para, depois, retomá-lo com um novo contrato de setembro a julho, e, desse modo, o trabalhador não tem o direito à indenização, nem à pensão, nem à previdência social. Não tem direito a nada. O empresário não mostra ternura, mas trata o empregado como um objeto – apenas para dar um exemplo de onde não há ternura.

Se nos colocamos na pele dessa pessoa, em vez de pensar nos próprios bolsos por causa de um pouco mais de dinheiro, então as coisas mudam.

1. Padre Santo, sobre o tema do Jubileu da Misericórdia, pode nos explicar que movimento do coração o levou a destacar justamente o tema da misericórdia? Que urgência você percebe, a esse respeito, na atual situação do mundo e da Igreja?

Eu senti que há um desejo do Senhor de mostrar aos homens a Sua misericórdia. Portanto, não me veio à mente, mas eu retomo uma tradição relativamente recente, que, porém, sempre existiu. E me dei conta de que era necessário fazer alguma coisa e continuar essa tradição.
O meu primeiro Ângelus como papa foi sobre a misericórdia de Deus e, naquela ocasião, eu falei também de um livro sobre a misericórdia que me foi dado pelo cardeal Walter Kasper durante o conclave. Na minha primeira homilia como papa, no domingo, 17 de março de 2013, na paróquia de Sant’Anna, eu falei da misericórdia. Não foi uma estratégia, me veio de dentro: o Espírito Santo quer alguma coisa. É óbvio que o mundo de hoje precisa de misericórdia, precisa de compaixão, ou seja, sofrer com.
Estamos acostumados com as más notícias, com as notícias cruéis e com as maiores atrocidades que ofendem o nome e a vida de Deus. O mundo precisa descobrir que Deus é Pai, que há misericórdia, que a crueldade não é o caminho, que a condenação não é o caminho, porque a própria Igreja, às vezes, segue uma linha dura, cai na tentação de seguir uma linha dura, na tentação de enfatizar apenas as normas morais, mas quantas pessoas ficam de fora.
Veio à minha mente aquela imagem da Igreja como um hospital de campanha depois da batalha; é a verdade, quantas pessoas feridas e destruídas! Os feridos devem ser tratados, ajudados a se curar, não submetidos a análises para o colesterol. Acho que este é o momento da misericórdia. Todos nós somos pecadores, todos trazemos pesos interiores.
Eu senti que Jesus quer abrir a porta do Seu coração, que o Pai quer mostrar as Suas entranhas de misericórdia e, por isso, nos manda o Espírito: para nos mover e para nos demover. É o ano do perdão, o ano da reconciliação. Por um lado, vemos o tráfico de armas, a produção de armas que matam, o assassinato de inocentes dos modos mais cruéis possíveis, a exploração de pessoas, menores, crianças: está se cometendo – permita-me o termo – um sacrilégio contra a humanidade, porque o homem é sagrado, é a imagem do Deus vivo. Eis, o Pai diz: “Parem e venham a mim”. Isso é o que eu vejo no mundo.

2. Você disse que, como todos os fiéis, se sente pecador, necessitado da misericórdia de Deus. Que importância teve no seu caminho de sacerdote e de bispo a misericórdia divina? Recorda em particular um momento em que sentiu de maneira transparente o olhar misericordioso do Senhor sobre a sua vida?

Eu sou pecador, me sinto pecador, tenho certeza de que o sou; sou um pecador a quem o Senhor olhou com misericórdia. Eu sou, como disse aos presos na Bolívia, um homem perdoado. Sou um homem perdoado, Deus me olhou com misericórdia e me perdoou. Ainda agora eu cometo erros e pecados, e me confesso a cada 15 ou 20 dias. E, se eu me confesso, é porque preciso sentir que a misericórdia de Deus ainda está sobre mim.
Lembro-me de quando o Senhor me olhou com misericórdia. Eu sempre tive a sensação de que ele me cuidava de um modo especial. mas o momento mais significativo ocorreu no dia 21 de setembro de 1953, quando eu tinha 17 anos. Era o dia da festa da primavera e do estudante na Argentina, e eu o passaria com os outros estudantes; eu era católico praticante, ia à missa aos domingos, mas nada mais… Eu estava na Ação Católica, mas não fazia nada, era apenas um católico praticante. Ao longo do caminho para a estação ferroviária de Flores, passei perto da paróquia que eu frequentava e me senti impulsionado a entrar: entrei e vi um sacerdote que eu não conhecia vir de um lado. Naquele momento, não sei o que me aconteceu, mas senti a necessidade de me confessar, no primeiro confessionário à esquerda – muita gente ia rezar ali. E não sei o que aconteceu, mas saí diferente, mudado. Voltei para casa com a certeza de ter que me consagrar ao Senhor, e esse sacerdote me acompanhou por quase um ano. Era um sacerdote de Corrientes, Pe. Carlos Benito Duarte Ibarra, que vivia na Casa do Clero de Flores. Ele tinha leucemia e estava se tratando no hospital. Ele morreu no ano seguinte. Depois do funeral, eu chorei amargamente, me senti totalmente perdido, com o temor de que Deus tinha me abandonado.

Esse foi o momento em que me debati na misericórdia de Deus e está muito ligado ao meu lema episcopal: o dia 21 de setembro é o dia de São Mateus, e Beda, o Venerável, falando da conversão de Mateus, diz que Jesus olhou para Mateus “miserando atque eligendo”. Trata-se de uma expressão que não pode ser traduzida, porque, em italiano, um dos dois verbos não tem gerúndio, nem em espanhol. A tradução literal seria “misericordiando e escolhendo”, quase como um trabalho artesanal. “Misericordiou-o”: essa é a tradução literal do texto. Anos depois, ao rezar o breviário latino, quando eu descobri essa leitura, percebi que o Senhor tinha me modelado artesanalmente com a Sua misericórdia. Todas as vezes que eu ia para Roma, como eu me hospedava na Via della Scrofa, eu ia à Igreja de San Luigi dei Francesi para rezar diante do quadro de Caravaggio, justamente a Vocação de São Mateus. 

3. De acordo com a Bíblia, o lugar onde mora a misericórdia de Deus é o ventre, as entranhas maternas, de Deus, que se comovem a ponto de perdoar o pecado. O Jubileu da Misericórdia pode ser uma oportunidade para redescobrir a “maternidade” de Deus? Há também um aspecto mais “feminino” da Igreja que deve ser valorizado?

Sim, Ele mesmo afirma isso, quando diz em Isaías que uma mãe talvez se esqueça do seu filho, até uma mãe pode esquecer… “Eu, porém, nunca vou te esquecer”. Aqui se vê a dimensão materna de Deus. Nem todos compreendem quando se fala da “maternidade de Deus”, não é uma linguagem popular – no bom sentido da palavra –, parece uma linguagem um pouco escolhida; por isso, prefiro usar a ternura, própria de uma mãe, a ternura de Deus, a ternura que nasce das entranhas paternas. Deus é pai e mãe.

4. A misericórdia, sempre quando nos referimos à Bíblia, nos faz conhecer um Deus mais “emotivo” do que aquele que às vezes imaginamos. Descobrir um Deus que se comove e se enternece pelo homem pode mudar também a nossa atitude para com os irmãos?

Descobri-Lo nos levará a ter uma atitude mais tolerante, mais paciente, mais terna. Em 1994, durante o Sínodo, em uma reunião dos grupos, eu disse que devia se instaurar a revolução da ternura, e um Padre sinodal – um bom homem, que eu respeito e ao qual quero bem –, já muito idoso, me disse que não convinha usar essa linguagem e me deu explicações razoáveis, como homem inteligente, mas eu continuo dizendo que, hoje, a revolução é a da ternura, porque daí deriva a justiça e todo o resto.
Se um empresário contrata um empregado de setembro a julho, eu lhe disse, ele não faz a coisa certa, porque o despede para as férias de julho para, depois, retomá-lo com um novo contrato de setembro a julho, e, desse modo, o trabalhador não tem o direito à indenização, nem à pensão, nem à previdência social. Não tem direito a nada. O empresário não mostra ternura, mas trata o empregado como um objeto – apenas para dar um exemplo de onde não há ternura.
Se nos colocamos na pele dessa pessoa, em vez de pensar nos próprios bolsos por causa de um pouco mais de dinheiro, então as coisas mudam. A revolução da ternura é o que hoje devemos cultivar como fruto desse ano da misericórdia: a ternura de Deus para com cada um de nós. Cada um de nós deve dizer: “Sou um infeliz, mas Deus me ama assim; então, eu também devo amar os outros do mesmo modo”.

5. É famoso o “discurso da lua” do Papa João XXIII, quando, uma noite, ele cumprimentou os fiéis dizendo: “Deem uma carícia nas suas crianças”. Essa imagem se tornou um ícone da Igreja da ternura. De que modo o tema da misericórdia poderá ajudar as nossas comunidades cristãs a se converterem e a se renovarem?

Quando eu vejo os doentes, os idosos, a carícia me vem espontaneamente… A carícia é um gesto que pode ser interpretado ambiguamente, mas é o primeiro gesto que a mãe e o pai fazem com o bebê recém-nascido, o gesto do “eu te quero bem”, “eu te amo”, “eu quero que tu vás em frente”…

(Os grifos são nossos. Para acessar a entrevista completa clique na fonte)

Fonte:

IHU

Anúncios