Formar e cultivar comunidades de fé capazes de concretizar verdadeira cultura da acolhida em contexto urbano plural e desigual, com inúmeras formas de exclusão social, solidão e violência: eis um dos maiores desafios do Evangelho do Reino a todo cristão. Nas palavras do Papa Francisco, como concretizar uma “Igreja Samaritana”, uma “Igreja de Hospital de Campanha”, uma “Igreja de Portas Abertas”, enfim, uma “Igreja em saída”.

Vejamos a reflexão catequética de Neuza a partir do terceiro compromisso do Projeto de Evangelização “Proclamar a Palavra”, fruto da 5ª Assembleia do Povo de Deus:

 

Proclamar a Palavra como Igreja da Acolhida

A  doação suprema de acolher o Reino é viver de forma a se comprometer com a fraternidade, solidariedade, hospitalidade e partilha

A Igreja nos convoca para sermos Igreja de acolhida. Há um esforço e o desejo para que todos sejam acolhidos como irmãos.

O Acolher bem as pessoas como irmãos significa ir além do simples cumprimento, ou acolhimento em sua casa para hospedagem. No acolher bem está incluído, entre outras coisas…

  • ajudar as pessoas nos momentos difíceis;
  • dar-lhes o devido apoio nos momentos de suas incertezas;
  • estar junto e defendê-las nos momentos de injustiças ou de desamparos.

Quando acolhemos bem, rompemos com a solidão e com o anonimato desses irmãos e irmãs. E quando nos disponibilizamos para  acolher bem as pessoas, nos tornamos capazes de fazê-las felizes porque o acolher significa ser capaz de criar intimidade, aproximar do outro e, ao mesmo tempo, de respeitar e ter consideração com a pessoa.

Mas para que isto aconteça faz-se necessário  sairmos de nosso egoísmo, do comodismo, para nos abrirmos ao outro e percebê-lo com suas necessidades.

Esses comportamentos são características do agir cristão, herdados dos primeiros discípulos e discípulas de Jesus. Foi ele, Jesus, quem nos ensinou a viver a alteridade. E um dos princípios fundamentais da alteridade é que o ser humano, no seu meio social, tenha uma relação de interação e dependência com o outro. Por esse motivo, o EU, na sua forma individual, só pode existir por meio do contato com o OUTRO. Na vivência da alteridade um está sempre acolhendo o outro, a pessoa, sobretudo no que ela tem de diferente, de distinto, de próprio.  Nesse sentido: dou espaço para que a pessoa exista e esse gesto me leva a crescer, a conhecer-me mais verdadeiramente, e a descobrir que o mundo não resume ao meu modo de pensar e de viver.

A Alteridade implica a capacidade da pessoa se colocar no lugar da outra, em uma relação baseada no diálogo e na valorização das diferenças existentes. Assim, colocar-se  no lugar do outro e a serviço do acolhimento ao outro precede qualquer  ação que se possa empreender em favor do outro. É renúncia ativa a toda postura dominadora ou de exclusão.

O Acolhimento a partir dos ensinamentos de Jesus

Jesus passou toda a sua vida nos ensinando. Todo o seu caminho foi um grande abraço, foi o de acolher a nossa condição humana para nos perdoar e nos mostrar que somos muito além do que pensamos, para nos dar a liberdade de nossa origem: somos filhos de Deus. Desse modo, podemos abraçar o mundo todo.

Abraçar o mundo acolhendo Jesus e os seus ensinamentos, significa acolher  e reconhecer o Reino de Deus no meio de nós. E acolher o Reino é viver de forma a nos comprometer com a fraternidade, solidariedade, hospitalidade e partilha. É permitir ao outro incluir-se, sentir-se aceito, integrado, valorizado; é construir amizade, criar afeição. É partilhar a vida em suas várias dimensões.

Os discípulos e discípulas de Jesus foram aprendendo na caminhada e nos acontecimentos que a fé é, pois, a atitude pedida ao ser humano para que a graça de Deus possa manifestar todo o seu poder libertador. Fé e salvação caminham juntas, significando que  a salvação é verdadeira  a medida que atinge a totalidade da pessoa, o que inclui a sua dimensão religiosa. Segundo o evangelista Lucas, é possível amar  somente porque a ação de Deus transformou o coração humano.

Vários são os ensinamentos encontrados nos evangelhos. Neles, encontramos presente o mandato de Jesus de ir ao encontro do outro e juntos construirmos o alicerce para a vivência numa comunidade sadia e cuidadora, a exemplo das primeiras comunidades.

Esse mandato de Jesus é para todos os batizados e batizadas. É um chamado que o Senhor nos faz para a missão. Acolhidos/as como filhos/as através de uma atitude de amor, aceitação, valorização, somos conduzidos/as à plenitude humana. O acolhimento que fazemos uns aos outros, enquanto igreja, deve ser uma expressão desse amor recebido de Deus que é capaz de despertar sentimentos de amor no coração de quem foi acolhido.

Disse o Papa Francisco quando esteve no Brasil que

o sentir de um povo, as bases do seu pensamento e de sua criatividade, os princípios básicos de sua vida, os critérios de julgamento sobre as prioridades, as normas de atuação se fundamentam, se fundem e crescem em uma visão integral da pessoa humana. Essa visão do homem e da vida característica do povo Brasileiro recebeu a seiva do Evangelho, a fé em Jesus Cristo, o amor de Deus e a fraternidade com o próximo. A riqueza dessa seiva pode fecundar um processo cultural  fiel à identidade brasileira e fazer crescer a humanização integral e a cultura do encontro e da relação; esta é a maneira cristã de promover o bem comum, a alegria de viver”.

(Papa Francisco no Brasil).

Ser uma Igreja da acolhida: esta é também a maneira cristã de promover o bem comum em nossa Igreja particular, pois quem alimenta da seiva do Evangelho faz a experiência de seguir a Jesus ressuscitado.

(os grifos são nossos)

Neuza

Neuza Silveira de Souza

Teóloga leiga, com especialização em teologia pastoral voltada para a catequese, objeto de  sua especialização e pesquisa de mestrado. Atualmente, coordena da Comissão Arquidiocesana Bíblico-Catequética da Arquidiocese de Belo Horizonte.

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