A ação evangelizadora da Igreja no contexto atual, mais do que em qualquer outra época, implica a concretização de um urgente e criativo processo de resgate da comunhão e da sinodalidade na dinâmica eclesial. Isso significa recuperar o espírito impulsionado pelo Concílio Vaticano II, recebido em Medellin-Puebla-Aparecida e revigorado no projeto de reforma eclesial do papa Francisco. Sem concretizamos profunda conversão pastoral das atuais estruturas eclesiais, excessivamente centralizadoras, em vista da criação de mecanismos que garantam e favoreçam capacitação e participação de lideranças e agentes de pastoral não avançaremos na consolidação de rede de comunidades de fé, formada por corresponsáveis discípulos/as missionários /as que assumam a missão eclesial.

 O 4º Congresso Missionário Nacional que acontecerá em setembro de 2017 assume o desafio de pensar sobre essas questões. Em fevereiro deste ano, aconteceu em Brasília, em preparação para o Congresso Missionário, o 6º Simpósio de Missiologia. Leia, a seguir, sobre o que foi discutido neste evento:

Simpósio de Missiologia resgata sinodalidade e comunhão na Igreja

“Ao falar da sinodalidade como alegria de caminhar juntos e viver em comunhão falo de uma maneira implícita também da alegria da missão, da encarnação, do diálogo e da misericórdia”

por Jaime C. Patias

As reflexões do 6º Simpósio de Missiologia que aconteceu em Brasília (DF), giraram em torno de três eixos:

  1. alegria do Evangelho;
  2. sinodalidade e comunhão;
  3. testemunho e profetismo.

As temáticas fazem parte do Texto-base do 4º Congresso Missionário Nacional (4º CMN) a ser realizado nos dias 7 a 10 de setembro de 2017, em Recife (PE).

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Prof. Paulo Suess, doutor em missiologia.

Na programação do Simpósio, o eixo da “sinodalidade e comunhão” foi apresentado pelo teólogo Paulo Suess. A abordagem foi feita à luz do magistério do papa Francisco em uma das conferências na quarta-feira, 22/02/2017.

O anúncio do Evangelho no mundo atual pode ser e é a causa da nossa alegria”, afirmou Paulo Suess para, em seguida, elencar cinco alegrias:

  1. a Missão como alegria de ser enviado e convidado a encontros e descobertas;
  2. a Encarnação como a alegria da proximidade;
  3. o Diálogo como alegria da comunicação com o diferente;
  4. a Misericórdia como alegria de acolher e ser escolhido;
  5. a Sinodalidade como alegria de caminhar juntos e viver em comunhão.

Para o prof. Paulo Suess:

Essas cinco alegrias são interligadas e ao falar da “sinodalidade como alegria de caminhar juntos e viver em comunhão falo de uma maneira implícita também da alegria da missão, da encarnação, do diálogo e da misericórdia”.

O teólogo recordou que, “sinodalidade e comunhão” é um conceito síntese que retoma e desenvolve as reflexões feitas nas conclusões de Puebla (1979) e de Aparecida (2007). Segundo ele:

“No centro de Puebla (563-1120), está a evangelização na Igreja da América Latina descrita como ‘comunhão e participação’. Podemos compreender a sinodalidade, o caminhar junto, como um aspecto central da participação em comunhão. Sem caminhar junto não pode haver ‘participação’. E sem ‘participação’ nas decisões, nas liturgias, na articulação das doutrinas e nas práticas pastorais, não pode haver sinodalidade”. 

No Documento de Aparecida percebe-se a predominância de uma “eclesiologia de comunhão que lembra Puebla, em suas reflexões sobre ‘comunhão e participação’. O prefixo da comunhão concreta é a espiritualidade de comunhão. Aparecida recomenda essa espiritualidade a todos”. Além disso, em Aparecida se encontra “uma visão explícita da Igreja como comunhão e uma visão mais implícita da Igreja Povo de Deus. A comunhão é missionária e a missão é para a comunhão”.

A missão como “Igreja em saída” e a sinodalidade como “prática da comunidade missionária” receberam impulsos decisivos do papa Francisco, que retomou as inspirações do Concílio Vaticano II (1962-1965) e de Aparecida (2007). Segundo Paulo Suess:

“Uma Igreja sinodal é uma Igreja da escuta. Francisco pratica essa escuta ao citar como fontes de seus escritos muitas Igrejas locais e também o magistério científico dos teólogos”.

Da comunhão e participação à sinodalidade

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Foto do 6º Simpósio de Missiologia

De acordo com a Conferência de Aparecida, observou Paulo Suess,

“a eclesiologia de comunhão do Vaticano II aponta para o caminho sinodal. Coube ao magistério do Papa Francisco dar à ‘eclesiologia de comunhão’ seu verdadeiro sentido de sinodalidade, porque os Sínodos pós-conciliares simularam uma participação sinodal, mas, na realidade, a impediram”.

Na avaliação do professor,

“temos uma eclesiologia de comunhão, realizamos sínodos, mas não avançamos. Permanece uma centralização excessiva, que complica a dinâmica missionária. A eclesiologia de comunhão permitiu pensar a unidade da Igreja na diversidade, mas não pode ser pensada sem participação e sinodalidade”.

O teólogo ainda lembrou que, a sinodalidade como caminhar junto,

“não é somente um método, mas é também conteúdo da evangelização. Assim nasceu a missão de caminhar juntos, com alegria e misericórdia”.

Aparecida pensou a operacionalização da “natureza missionária” da Igreja em três círculos concêntricos como:

  1. missão paroquial;
  2. missão continental;
  3. missão ad gentes.

Sendo os três interligados no “caminhar juntos”. Também a Evangelii Gaudium considera que numa Igreja sinodal se distingue três níveis:

  1. as Igrejas particulares;
  2. as Províncias e Regiões Eclesiásticas;
  3. os Concílios Particulares, de modo especial, as Conferências Episcopais, que permitem uma “salutar descentralização” (Cf.: EG 16 e 32).

“Como se pode perceber, a sinodalidade toca em pontos sensíveis e discutidos em nossas comunidades: ministerialidade, colegialidade, ecumenismo, magistério partilhado, autoridade como serviço, exercício do papado e de sua conversão”.

Ampliando o horizonte, Paulo Suess observou que

“a sinodalidade tem um grande valor não somente para a Igreja, mas também para o mundo. O que vale para os líderes das nações, vale também para as pequenas comunidades que precisam zelar pela participação e a transparência, pelo anúncio do essencial e pela comunhão na caminhada”.

Em sua missão, a Igreja está a serviço de um mundo para todos. E finalizou dizendo que:

“A comunhão com os irmãos potencializa o compromisso com a sociedade. Sinodalidade e comunhão são um convite permanente à nossa conversão e à transformação de estruturas no mundo e da Igreja”.

O Simpósio reúne no Centro Cultural Missionário (CCM), dias 20 a 24, cerca de 70 pessoas entre teólogos, missiólogos, pesquisadores, representantes de instituições missionárias, agentes de pastoral de todo o Brasil. O evento é promovido todos os anos pela Rede Ecumênica Latino Americana de Missiólogos e Missiólogas (Relami), o Centro Cultural Missionário de Brasília (CCM), as Pontifícias Obras Missionárias (POM).

Fonte:

www.pom.org.br

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