Na concepção cristã, fé, política e cidadania são distintas, mas intrinsecamente ligadas e de forma inseparável como a liga de um amálgama. De tal modo assim é que, ao cristão é impossível viver com autenticidade a sua fé sem concretizar um compromisso sociopolítico libertador em defesa da igual cidadania para todos. Vejamos a reflexão catequética de Neuza de Souza a partir do terceiro compromisso do Projeto de Evangelização “Proclamar a Palavra”, fruto da 5ª Assembleia do Povo de Deus:

 

Proclamar a Palavra: Fé, Política e Cidadania

Continuando nossa reflexão sobre as diretrizes da 5ª Assembleia da nossa Arquidiocese de Belo Horizonte, o tema de hoje é sobre Fé, Política e Cidadania. Trata-se de um tema muito importante para a formação do nosso “ser cristão” uma vez que ele tem sua fundamentação na Palavra de Deus e nos ensinamentos da Igreja.

Fé, Política e Cidadania é um compromisso pautado na promoção do bem comum e, como sinal de comunhão, revela a justiça do Reino. Sendo assim, a realização desse compromisso é ação de todos os cristãos. De mãos dadas com os movimentos sociais,  associações, cooperativas, grupos, organizações, dentre outras formas de coletivos, os cristãos são chamados a comprometer-se e a participar ativamente da construção de uma sociedade pautada pela justiça, inclusão dos marginalizados, promoção do bem comum e cuidado com a casa comum.

Importa reconhecer que todo ser humano é um ser político, pois, como ser de relações sociais ele precisa criar regras para a boa convivência. Essa dimensão política de nossa vida fica visível quando vivemos em sociedades cada vez mais  urbanas e complexas, tantas vezes marcadas pela desigualdade social, e que, portanto, precisam pensar em todas as pessoas nelas integradas. A missão da Igreja tem uma inegável dimensão sociopolítica. Mas, por mais que estimule os seus membros a desenvolver senso coletivo e consciência crítica, bem como a participar da política social e dos partidos políticos, ela mesma, enquanto instituição, não faz opção partidária, nem constitui um partido político próprio. A Igreja, ao exercer a sua missão, não pode ser neutra. Ela assume uma parcialidade ao proclamar o projeto salvífico universal. Mas a sua parcialidade somente pode ser a do Evangelho: colocar-se entre os últimos, ao lado do oprimido e marginalizado da vida digna, do empobrecido e excluído da cidadania.

Para melhor compreender a dimensão política da fé cristã, torna-se necessário explicitar o que está incluído no termo ‘política’ e – a partir da nossa realidade contemporânea brasileira de país democrático com contexto de grave desigualdade econômica – fazer uma distinção entre política social e política partidária.

A política social é o exercício do poder na sociedade a serviço da realização do bem comum. Ela acontece diariamente com nossas ações pessoais e comunitárias na família, na vivência da religião, na vida escolar, no trabalho, no trânsito, no comércio, no lazer, nos movimentos sociais ou grupos diversos que participamos. Trata-se de realidade coletiva que não deve ser apropriada ou privatizada por nenhuma pessoa, família, grupo ou partido, por mais poder que concentre, sob pena de destruir o pacto social, a dignidade dos cidadãos e o bom funcionamento da vida em sociedade pautada pela igualdade, pela justiça, pela solidariedade e pelo bem querer uns dos outros. A política social requer contínuo processo de reflexão crítica e autocrítica, além da concretização de políticas públicas que garantam o bem comum, ou seja, a dignidade da vida e o bem estar de todos os cidadãos. Nesse sentido, todos os trabalhos relacionados com a organização da saúde, a rede escolar, os transportes, os salários, tudo que diz respeito ao bem comum da sociedade tem a ver com a política social. Então, quando se luta junto com o objetivo de conseguir, para o bairro em que se mora, rede de esgoto, luz elétrica, escola, posto de saúde, é fazer política social, mesmo que ela seja feita através de um ou mais partidos políticos.

Já a política partidária, embora envolvida na dinâmica política social, é diferente. A sociedade – pelo fato de ser formada por classes socioeconômicas distintas e uma grande diversidade de grupos culturais e religiosos, cada qual com seus interesses e ideologias – suscitou a necessidade da formação de partidos políticos. Cada partido é organizado em torno de ideologias que concebem, de modo próprio, a organização da sociedade e o exercício da política social. A partir disso, elabora suas estratégias e seus planos para a conquista, nas eleições, da gestão, em nível federal, estadual e municipal, do poder executivo (ocupar a cadeira de presidente, de governador ou de prefeito) e legislativo (ocupar as cadeiras de senador, deputado federal, deputado estadual, vereador). Nesse sentido, cada partido representa interesses de classe ou de grupos com suas ideologias. Como no Brasil há muitos partidos e uma perda de identidade e clareza ideológica dos partidos, os cristãos, como os demais cidadãos, devem redobrar a atenção e ficar atentos para não serem enganados. Além disso, devem criar mecanismos de fiscalização e participação para que seus interesses e valores sejam respeitados e representados. Daí a importância da presença e participação dos cristãos na política. Veja o que disse o papa Francisco: sobre a participação do cristão na política.

A Igreja, com sua doutrina social, contribui com critérios eco-éticos e sociais para uma boa participação dos cristãos na política. Ela é chamada a colocar-se a serviço da formação dos cristãos para que estes contribuam e participem da construção da sociedade justa, cidadã e ecológica. As paróquias são camadas a constituir e apoiar uma pastoral de Fé e política para que, em conjunto com as demais pastorais sociais, respondam aos desafios e urgências de nosso tempo. Há na Igreja uma vocação profética, da qual todos os seus membros participam, para denunciar toda forma de ameaça a vida, sobretudo, dos mais pobres.

Nesse sentido, essas atividades entram no conjunto da ação evangelizadora da Igreja constituindo-se também como tarefa da catequese.  Desde criança somos convidados a cuidar, proteger e melhorar a nossa comunidade.

Todos somos chamados a participar e exigir que os que ocupam a gestão do poder executivo e legislativo, mas também do judiciário, cumprem a sua missão de cuidar do bem comum, com atenção preferencial para os mais vulneráveis e excluídos da mesa da cidadania.

Como anda a nossa Arquidiocese na prática da boa Política Social?

A partir de pesquisa elaborada pelo grupo de Fé e política da Arquidiocese de Belo Horizonte, foi constatado que a maioria dos grupos que se colocam a serviço da concretização da dimensão sociopolítica da fé cristã, encontra-se muito concentrada no centro da Capital e em seu entorno, revelando a ausência ou a quase inexistência dessa prática pastoral nas áreas mais distantes da sede da Arquidiocese.

A leitura desses dados torna-se relevante para o contexto reflexivo em torno do plano de ação pastoral de cada comunidade, paróquia, forania, região episcopal, vicariato e da da catequese, na busca de concretizarmos esse compromisso de nosso Projeto de Evangelização Proclamar a Palavra.

Olhando para os evangelhos percebemos as implicações sociopolíticas dos ensinamentos e gestos de Jesus. Preocupado com o Reino de Deus e a sua justiça, a prática libertadora de Jesus chama a atenção para o cuidado com os sofredores e oprimidos, o amor ao próximo, a caridade, a justiça, a vida em comunidade, a partilha… Seus ensinamentos e gestos proféticos encontram-se pautados  pela necessidade de cuidar daquilo que afeta a vida do povo, principalmente a dos mais pobres. Ele subverte a ordem dominante: o poder não pode ser exercido como dominação de uns sobre os outros, mas pela lógica do serviço.

Jesus de Nazaré ficou conhecido como o profeta da Galileia, pois deixou-se pautar pelos ensinamentos dos sábios, líderes e profetas, de seu povo. No Antigo Testamento, podemos perceber que as questões sociopolíticas estão muito presentes na realidade da vida do povo. Moisés e seus companheiros lutaram em nome da fé no Deus da vida pela libertação do povo oprimido no Egito. Os profetas, por exemplo, denunciaram as situações políticas injustas que oprimiam a vida do povo.  Amós, Oséias, Isaías, Jeremias, dentre outros, mesmo sendo perseguidos, denunciaram a corrupção, a desigualdade e questionaram a elaboração de projetos iníquos carregados de normas que propunham a negação da justiça ao oprimido e a fraude no direito dos pobres.

Nesse sentido, colocando-se em atitude de escuta e busca de cumprimento da “Palavra proclamada”, os cristãos são chamados a se colocar frente às exigências do Evangelho e a assumir suas responsabilidades nas questões sociopolíticas, sendo “sal na terra e luz no mundo”.

(os grifos são nossos)

Neuza

Neuza Silveira de Souza

Teóloga leiga, com especialização em teologia pastoral voltada para a catequese, objeto de  sua especialização e pesquisa de mestrado. Atualmente, coordena da Comissão Arquidiocesana Bíblico-Catequética da Arquidiocese de Belo Horizonte.

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