“Religião e política, pouco a pouco, retomam o pacto para que o Velho Mundo não perca definitivamente as suas raízes civilizatórias.” “O grande desafio do Ocidente é reconhecer e favorecer, na atualidade, a riqueza das diferenças que se integram para desenvolver uma nova ordem sistêmica, sem negar suas características históricas.”

O CRISTIANISMO E A CULTURA OCIDENTAL

Por Matias Soares

A narrativa sobre as raízes cristãs do Ocidente foi lembrada nos pontificados de João Paulo II e Bento XVI com muita ênfase, tendo em vista os valores que foram sendo desenvolvidos como marca da identidade ocidental. Há um intento de mostrar a importância do Cristianismo como pai e guardião desses elementos culturais. Tornou-se uma pretensão cada vez mais absolvida, não só pelos ensinamentos papais, com a preocupação de tutelar a importância institucional da Igreja, como também pelas lideranças políticas, com a finalidade de frear a entrada, sobretudo na Europa, de uma corrente do Islamismo, com sua postura teocrática e fundamentalista, em países de tradição democrática. Religião e política, pouco a pouco, retomam o pacto para que o Velho Mundo não perca definitivamente as suas raízes civilizatórias, principalmente naquilo que foi uma realidade marcada pelo que fora construído através da razão grega e da tradição judaico-cristã.

O presidente dos Estados Unidos, o senhor Trump, tornou-se um grande paladino da importância da religião cristã para os americanos. Pode-se dizer, talvez, que é um aliado de uma “religião cristã”, não da fé cristã, já que uma de suas grandes preocupações é a defesa do capital americano, ainda que para isso construa muros e favoreça a poluição e aquecimento do mundo, matando pouco a pouco o Planeta.

Já nos anos setenta, Michel de Certeau, historiador e sacerdote jesuíta, falava da apropriação do Cristianismo, na França, para servir de arcabouço ideológico para fortalecer outras estruturas existentes. A política abarca as tradições do Cristianismo e joga com estas para poder dinamizar o discurso ideológico de diversas facções partidárias. O Cristianismo foi engolido pelo que ele próprio engendrou. Aqui está a grande conquista do Iluminismo. A sua preocupação com a autonomia foi o que o levou a ter êxitos anti-eclesiais, mas também destrutivos do que era normativo. O sujeito maduro é aquele que não tem mais referenciais institucionais. Com isso, também há a relativização dos valores e princípios comuns.

Na época moderna, relendo teologicamente a situação do homem contemporâneo, Karl Rahner, outro sacerdote jesuíta, com a sua teoria dos cristãos implícitos, ou anônimos, fundamenta a pré-existência cristã, antes mesmo do conhecimento do Evangelho pelas vias explícitas. Existe um primado da graça, que não relativiza a fé em Jesus Cristo, mas torna-se condição imprescindível para que haja o sentido da urgente ação missionária da Igreja e o seu constante anúncio do Reino de Deus. No humano existe a condição transcendental. Aqui, cabe a pergunta: será que, atualmente, na Cultura ocidental já não existe uma presença significativa de cristãos anônimos, ou seja, pessoas que mesmo não conhecendo o Evangelho e os meios explícitos da graça de Deus, não vivem um modo periférico de Cristianismo? Será que o Cristianismo ocidental não se tornou mais folclórico e cultural do que um autêntico evento de salvação, graças aos mistérios da Encarnação e da Páscoa, para aqueles que foram educados nesta cultura da Cristandade?

O grande desafio do Ocidente é reconhecer e favorecer, na atualidade, a riqueza das diferenças que se integram para desenvolver uma nova ordem sistêmica, sem negar suas características históricas. Neste sentido, o Cristianismo precisa ser visto como algo que vai além de uma construção simbólica. A partir do Evangelho, o Papa Francisco, não faz ruptura, mas universaliza na simplificação do essencial, o que era pensado pelos seus predecessores. Fala da urgência de se construir pontes entre as pessoas, religiões, nações, e não muros. Denuncia que o Mundo vive uma guerra em pedaços. Mostra a necessidade da misericórdia e do diálogo para a construção deste Mundo, onde as diferenças se encontram. Mostra a necessidade da cultura do encontro; pois, através dela há o reconhecimento da dignidade do Outro.

Esse tempo de crises e mudanças precisa de um conteúdo que o guie e que seja sua alma. A nossa Era necessita de um suporte que diga aos Seres Humanos quem de fato eles são. O Cristianismo, se continuar a ser mais um pedaço dentre tantas ideologias, não será Cristão, nem promoverá a dignidade de cada Pessoa Humana, seja ela cristã implícita ou explícita, como tão profundamente foi teologizado. Só o encontro com a pessoa de Jesus Cristo pode nos confirmar quem é o Cristão e como ele pode ser um sinal de transformação da Cultura, em todos os Povos. Assim o seja!

 

Pe. Matias 1

 

PADRE MATIAS SOARES PERTENCE À ARQUIDIOCESE DE NATAL

-RN. ATUALMENTE MORA NO PIO BRASILEIRO, EM ROMA, E FAZ MESTRADO EM

TEOLOGIA MORAL NA PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE GREGORIANA. COLABORA COM O OE ENVIANDO-NOS ARTIGOS DE OPINIÃO.

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