Não é simples e nem fácil ser cristão autêntico em contexto de desigualdade social. Trata-se de um desafio ético fundamental, um verdadeiro aguilhão na consciência, que exige dos cristãos muito estudo, reflexão, discernimento e busca de lucidez. E isso tanto em nível pessoal, quanto comunitário e social. Em vista de que a concretização de nossas posturas seja coerente com o Evangelho e o seguimento de Jesus e que promova, de fato, a transformação desta perversa situação de pecado estrutural.

Uma coisa é certa: não dá para ficarmos indiferentes porque a indiferença nos faz cúmplices e omissos. A indiferença nos leva a corrupção. Veja o que nos diz o papa Francisco:

 

Papa: a indiferença para com o pobre é corrupção

Há um ponto, há um momento, há um limite a partir do qual dificilmente volta-se atrás: é quando o pecado se transforma em corrupção.

O papa partiu do Evangelho do dia – tirado de Lucas – em que o Senhor conta a parábola do rico e do pobre Lázaro para enfatizar que, ainda hoje, devemos nos cuidar de nos fechar em nós mesmos, ignorando os pobres e os sem-teto das nossas cidades.

O Papa Francisco desenvolveu a sua homilia movendo-se a partir das palavras da antífona Provai-me, ó Deus, e conhecei meus pensamentos: vede se ando pela vereda do mal e conduzi-me no caminho da eternidade e, dirigindo a atenção ao trecho do Livro de Jeremias, evidenciou que “o homem que confia no homem põe na carne o seu sustento”, isto é, nas coisas que ele pode gerir, na vaidade, no orgulho, nas riquezas, e a partir daí decorre um “afastamento do Senhor”.

Francisco destacou:

a fecundidade do homem que confia no Senhor e a esterilidade do homem que confia em si mesmo”, no poder e nas riquezas. “Essa estrada – advertiu – é uma estrada perigosa, é uma estrada escorregadia, quando eu confio apenas no meu coração: porque ele é traiçoeiro, é perigoso”.

 

Quem vive em meio às riquezas não vê o pobre

“Quando uma pessoa vive no seu ambiente fechado – acrescentou o papa – respira aquele ar próprio dos seus bens, da sua satisfação, da vaidade, de se sentir seguro, e confia apenas em si mesmo, perde a orientação, perde a bússola e não sabe onde estão os limites.”

É exatamente o que acontece com o rico de que fala o Evangelho de Lucas, que passava a vida fazendo festas e não se preocupava com o pobre que estava na porta da sua casa:

“Ele sabia quem era aquele pobre: ele sabia. Porque, depois, quando fala com o pai Abraão, diz: ‘Envia-me Lázaro’. Ah, ele sabia até como ele se chamava! Mas não lhe importava. Era um homem pecador? Sim. Mas pode-se voltar atrás em relação ao pecado: pede-se perdão, e o Senhor perdoa. A este, o coração o levou por uma estrada de morte, a tal ponto que não se pode voltar atrás. Há um ponto, há um momento, há um limite a partir do qual dificilmente volta-se atrás: é quando o pecado se transforma em corrupção. E este não era um pecador, era um corrupto. Porque sabia das tantas misérias, mas ele estava feliz lá, e não lhe importava nada.”

 

O que sentimos no coração quando vemos um sem-teto na rua?

“Maldito o homem que confia em si mesmo, que confia no seu coração”, ressalta o papa recordando o Salmo 1. “Nada é mais traiçoeiro do que o coração, e ele dificilmente se cura.” Quando você está naquela “estrada de doença, dificilmente você se curará”. A partir daí, o Papa dirige uma pergunta a todos nós:

“O que sentimos no coração quando caminhamos pela rua e vemos os sem-teto, vemos as crianças sozinhas que pedem esmola… ‘Não, mas estes são daquela etnia que rouba…’. Eu sigo em frente, faço isso?

Os sem-teto, os pobres, aqueles abandonados, também aqueles sem-teto bem vestidos, porque não têm dinheiro para pagar o aluguel porque não têm trabalho… O que eu sinto?

Isso faz parte do panorama, da paisagem de uma cidade, como uma estátua, o ponto de ônibus, a agência dos Correios, e também os sem-teto fazem parte da cidade? É normal, isso?

Fiquem atentos. Fiquemos atentos. Quando essas coisas, no nosso coração, ressoam como normais – ‘sim, a vida é assim… eu como, bebo, mas, para tirar um pouco do meu sentimento de culpa, faço uma oferta e sigo em frente’ –, a estrada não vai bem.”

 

O corrupto está fechado em si mesmo

O Papa reafirma a necessidade de perceber quando estamos na estrada “escorregadia do pecado da corrupção”.

“O que eu sinto – pergunta-se – quando, no telejornal” vejo que “caiu uma bomba lá em um hospital, e muitas crianças morreram”, a “pobre gente”? Faço uma oração e, depois, continuo vivendo como se nada tivesse acontecido? “Isso entra no meu coração” ou eu sou como aquele rico ao qual “o drama deste Lázaro, do qual os cães tinham mais piedade, nunca entrou no coração?”. Se for assim, eu estou em um “caminho do pecado à corrupção”.

“Por isso, peçamos ao Senhor: ‘Provai-me, ó Deus, e conhecei meus pensamentos: vede se a minha estrada é equivocada, se eu estou naquela estrada escorregadia do pecado à corrupção, da qual não se pode voltar atrás’. Habitualmente, o pecador, se se arrepende, volta atrás; o corrupto, dificilmente, porque está fechado em si mesmo. ‘Provai-me, ó Deus, e conhecei meus pensamentos’: que essa seja hoje a oração. ‘E fazei-me entender em que estrada eu estou, em que estrada eu estou andando’.”

(Reportagem: Alessandro Gisotti, Sítio Radio Vaticana, 16-03-2017. Tradução: Moisés Sbardelotto.)

Fonte:

IHU

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