A espiritualidade cristã nasce do cultivo da intimidade com Deus. Foi Jesus de Nazaré quem viveu a uma vida plenamente traspassada pela luz que irradia da presença amorosa de Deus. Jesus experimentava Deus como Abbá, Paizinho querido. Por isso passou a contemplar, escutar, dizer, tocar, sentir e compreender todas as suas vivências, dúvidas e convicções, a partir dessa presença amorosa de Deus. Deus iluminava o seu caminho e fortalecia o seus passos. Tudo lhe falava de Deus e todas as vivências lhe provocava saudade de estar com Deus e com Ele dialogar. Percorreu, desde modo, um caminho que lhe tornou totalmente liberto para amar e servir.

Esse é o grande desafio dos cristãos anunciar/ testemunhar as maravilhas de viver na presença amorosa de Deus e libertar-se para amar e servir. O caminho passa pelo encontro com Jesus Ressuscitado e a contemplação da própria vida de Jesus, suas ações e palavras narradas na Palavra. Tudo isso, iluminado pelo Espírito Santo que é faz presença de Deus em nós, consolida um caminho a ser trilhado por nós.

Nesse sentido, vale a pena ler, a seguir, o relato do médico oncologista João Carlos Resende sobre seu encontro com Deus vivenciado na mediação de uma idosa goiana, com câncer, durante uma consulta:

 

“Deus resolveu me visitar”: diz médico após consulta com paciente com câncer

Semana curta e cansativa, coração agitado, mente num turbilhão. Deus hoje resolveu me visitar. Ele tinha um corpo franzino, rosto marcado pelo sol, mãos com sutil aspereza de quem trabalhou pesado a vida toda e um cheiro de lavanda misturado com as cinzas de um fogão de lenha. Ele falava de um jeito bonito e simples, arrastado e vindo lá do Goiás. Vestia a melhor roupa que tinha, colorida, bem cuidada, mas respingada da sopa que serviram antes da consulta. O sapato de algodão listrado não combinava com a blusa florida… ah, mas Ele era Deus e podia tudo. Seus olhos fugiam dos meus. Como podia Deus se fazer pequeno assim? Logo lembrei que Ele sabe muito bem fazer isso. Lembrei que Ele foi homem, é pão e será sempre grande, pequeno Deus. Parecia envergonhado, ansioso pela notícia, infelizmente não tão boa. Estava cansado da viagem, da sala de espera lotada e de anos de luta contra o câncer. Diante da grandeza à minha frente, aumentei minha pequenez para que pudesse caber na menor brecha que ousei adentrar naquela vida. A doença mudou, progrediu e voltou a judiar. Aquele remédio que tanto cansava e nauseava aqueles poucos quilos tão frágeis se faria necessário mais uma vez.

 

Mas, Dotô. Não diga isso.

 

Seu rosto se entristeceu e quanto me doeu ver Deus sendo gente ali diante de mim.

 

D. Socorro, não fica triste. O doutor aqui tem coração mole e pode chorar.

 

Olhou para mim e pude ver o brilho dos olhos sábios dizendo:

Vou chorar em casa, para o senhor não olhar.

 

Como aquilo me engrandecia. Como pode Deus me visitar assim. Ali acabou meu cansaço. Ali só coube emoção. Examinei aquele corpo pequeno. Coração forte e barulhento, pulmões que sopraram em mim o sopro da vida e contemplei o mais belo sorriso com as cócegas geradas ao palpar seu abdome. Pensava comigo o quanto eu queria, com minha mão, retirar cada um daqueles tumores e ao mesmo tempo me emocionava porque, com aquela visita, Deus retirava cada um dos meus, não físicos. Minha prescrição seria o que menos importava ali, mas assim mesmo a fiz.

 

D. Socorro, vou prescrever aquele remédio chatinho, mas para tentar controlar a doença da senhora.”

 

Humilde, respondeu:

É o jeito.

No final de tudo, depois de eternos poucos minutos de graça, Deus olhou para mim e disse:
“Dotô, o resto pode estar doente e não prestar, mas meu coração é grande e bom.”

Ah, Deus! Que coração.

Já emocionado, apenas pedi um abraço e agradeci por tudo aquilo. Ganhei mais. Ganhei uma foto, um carinho no rosto e a certeza de que Deus sempre está comigo e sempre me visita de diversas formas. Hoje Ele me visitou, me curou e me deu força para continuar. Ironicamente, saiu daquela sala e falou:

“Fica com Deus, Dotô.”

“Estive com Ele, D. Socorro.”

(Foto e contexto autorizados pela paciente)
Fonte:
Facebook do Doutor João Carlos Resende, médico oncologista do Hospital de Barretos.
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