Não é tarefa simples compreender os diversos aspectos da fé, enquanto atitude global da pessoa em comunidade diante da proposta salvífica de Deus. Comecemos com o seu aspecto existencial. A reflexão do teólogo João Batista Libanio irá nos guiar em nossa busca de lucidez:

 

“Na própria etimologia do termo “crer” está incrustrada essa dimensão existencial, de entrega, de aceitação, de acolhimento, de engajamento pessoal diante da interpelação de Deus. Crer vem do verbo latino “credere”, que por sua vez se origina da expressão “cor + dare”, i.é dar o coração (a alguém). “Credere Deo” significa, pois, entregar-Lhe o coração, colocar à sua disposição o cerne de nossa pessoa, oferecer-Lhe nossa liberdade num gesto de dádiva confiante.

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A fé implica um compromisso de vida, de existência, seja de nossa pessoa como da comunidade. É toda a comunidade que se põe em atitude de escuta diante da Palavra interpelante de Deus. E, como membros dela, nós nos dispomos, no movimento dinâmico da graça, em posição de acolhida e de compromisso. O aspecto existencial atende mais à dimensão de gratuidade de nossa parte, salienta o caráter de liberdade da fé.

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É verdade que o verbo crer se desgastou muito na linguagem comum. Oculta um matiz de incerteza e insegurança. Assim quando não estamos absolutamente certos de que alguém venha, dizemos:  creio que ele virá (pode ser que não venha). Há indícios de que venha, mas quem sabe pode falhar. Crer neste sentido é uma forma escassa de saber.

Mas de outra parte, sobretudo já influenciados pela maré existencialista, personalista, o verbo crer cresceu muito de valor na nossa linguagem. Quando digo a alguém: “creio em você”, exprimo uma relação profunda pessoal. Ela é fruto de um duplo movimento. Um desprender-se da posse de si , do referir o outro-a-si, do crer somente no pré e autoplanejado. O racionalmente calculado, o risco previamente medido, a garantia da resposta do outro anteriormente assegurada devem ser abandonados numa dinâmica de saída. O crer-no-outro significa, pois, fundamentalmente um esvaziar-se de si, um esquecer-se de si, um superar o desejo de só dar um passo em terreno pré-conhecido e sem riscos… Ela é o reconhecimento do valor do outro como sujeito, como dignidade, como liberdade, como valor em si mesmo, como humanidade. Crer em alguém  é dar-se a um Tu, cujo último motivo é esse mesmo Tu. Crer em alguém é nascer para esse alguém. É gratuidade radical na dádiva de si, sem cálculo, sem ter que recorrer a uma certeza prévia ou a uma verificação racionalmente feita…

Quando esse Tu é Deus, a fé é uma entrega radical, uma gratuidade de dom de nosso ser, numa saída e desprendimento de nós mesmos, em direção ao Ser de Deus por ele mesmo… Quando “digo” que a última realidade, aquilo que em última instância me concerne de modo incondicional, é Deus, comprometo toda minha existência com essa realidade. Digo com a totalidade do meu ser. Portanto, envolve minas decisões concretas, marca a orientação de minha vida, afeta todos os meus atos. Esse é o caráter existencial da fé.

O homem do Antigo Testamento, quando queria exprimir sua fé em Deus, usava a imagem de firmar-se em algo sólido… “O Senhor é minha rocha, meu baluarte e meu libertador. Meu Deus é rochedo em que me abrigo. Meu escudo, minha força salvadora, minha cidadela e meu refúgio, meu salvador” (2 Sm 22, 2-3)… Fé em Deus significa encontrarmos  nele uma base sólida em que colocar todo nosso ser frágil. Nele fundamos nossa existência, como uma casa sobre a rocha. A palavra hebraica mais próxima do que chamamos de fé é a raiz “amen“, que entrou na nossa liturgia. Crer é dizer “amen” a Deus, em ato de liberdade e responsabilidade, cuja última origem é o próprio Deus.

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O Novo Testamento prolonga tal intelecção. Os evangelhos sinóticos nos apresentam um Jesus pedindo, aos que se aproximavam dele na expectativa de um milagre, um movimento de saída de si – deixando a autoconfiança – para confiar na forca de Deu, na presença do Reino… A fé significava nesse contexto saber-se incapaz de sair por si mesmo de tal situação, colocando na força de Deus sua única salvação, entregando-se a Ele sem condição… Esse aspecto existencial da fé revela a dimensão de criaturalidade do fiel, sua radical impotência, sua fraqueza profunda. E, sem desesperar-se de tal condição, entrega-se ele ao ser de Deus, reconhecendo-se envolvido por ele.”

LIBANIO, João Batista, Fé e política. Autonomias específicas e articulações mútuas. São Paulo: Loyola, 1985, p. 18-21

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