Nesse diálogo está em jogo a compreensão da salvação cristã, ou seja, como ela acontece e quais as consequências para a vida do pecador o fato de ser salvo em ou pela graça de Jesus Cristo. Trata-se, portanto, de um tema central da fé cristã. No seio do cristianismo é recorrente a discussão se a salvação se concretiza pela graça que nos vem da fé em Jesus Cristo, que nos faz filhos e filhas de Deus ou pelas obras da fé, ou seja, pela prática dos cristãos na vida em sociedade.

Nada melhor do que o diálogo para avançarmos na busca de compreensão, tendo como referencial a Palavra de Deus e a fé da Igreja. Se por um lado, a fé em Deus que nos salva em Jesus Cristo e pela força do Espírito Santo, sem obras, é uma realidade morta, fossilizada, insossa, ou seja, como o sal que perde o sabor e para nada serve, por outro, a salvação não pode ser entendida como resultado exclusivo do esforço humano, pois neste caso a vinda de Jesus Cristo, sua encarnação, anúncio/ testemunho fiel do Reino, morte e ressurreição perderia sentido e centralidade salvífica.

No diálogo entre as Igrejas cristãs favoreceu a percepção de um grande consenso entre elas. Isso permitiu transformar o muro em ponte, e avançar significativamente no ecumenismo. Fé e seguimento formam uma unidade na vida nova. Dito de outra maneira, a fé em Jesus Cristo e a libertação para a práxis da justiça, do amor e da misericórdia formam uma unidade na graça da salvação, no dinamismo transformador que a vida cristã é chamada a concretizar na vida eclesial, por meio de comunidade de fé e partilha de vida, e na vida em sociedade, por meio da defesa da vida e da prática da justiça, da partilha  e da paz. Não há Salvação sem encontro, fé e seguimento de Jesus Cristo, ele é Caminho, Verdade e Vida. Confira:

 

Novo passo ecumênico sobre a Doutrina da Justificação

Hoje, quarta-feira, 5 de julho de 2017, em Wittenberg, Alemanha, cidade onde nasceu a Reforma em 1517, a Comunhão Mundial das Igrejas Reformadas adere oficialmente ao consenso ecumênico já alcançado entre católicos, luteranos e metodistas sobre a doutrina da justificação (“como o pecador recebe a salvação pela intercessão ou graça de Jesus Cristo).

Uma das questões cruciais que tinha levantado o muro da separação, do desacordo, entre reformadores e as autoridades da Igreja Católica no século XVI foi resolvida. E isso permite avançar para uma maior comunhão espiritual e eclesial entre protestantes e católicos.

No evento, também estará presente o secretário do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, Dom Brian Farrell. Para ele:

Esse evento será outro marco importante no caminho para a unidade visível dos cristãos: não ainda a meta, mas uma fase significativa da viagem comum.

Segundo Dom Brian Farrel,

“o momento da Reforma, no século XVI, um ponto fundamental de controvérsia foi a questão da Justificação, ou seja, como se torna efetiva no pecador a graça de Cristo, a salvação. Então, no diálogo ecumênico, percebemos, católicos e luteranos em primeiro lugar, que temos, no fundo, a mesma visão dessa doutrina. Isso permitiu a assinatura da Declaração Conjunta sobre a Justificação, em 1999; depois, em 2006, a Igreja Metodista se associou a essa doutrina; e agora a Comunhão das Igrejas Reformadas faz o mesmo. Isso significa praticamente que a Igreja Católica e todas as Igrejas protestantes históricas têm a mesma visão teológica de como se concretiza a salvação. E, portanto, temos uma base comum para uma grande colaboração, não só espiritual, mas também eclesial: isto é, as Igrejas agora têm uma base para poder colaborar muito mais intensamente”.

Eis a entrevista.

1. As Igrejas da Comunhão Reformada dão ênfase especial à justiça: o que isso significa exatamente?

Elas enfatizam que, quando somos justificados diante de Deus pela graça de Jesus Cristo, já temos, por isso, uma responsabilidade, uma tarefa: a de trabalhar pela justiça no mundo, que é uma consequência natural da justificação. Os reformados – as Igrejas Reformadas – têm esse sentido de ter que ressaltar, no momento concreto em que vivemos, a importância desse compromisso com a justiça, desse trabalho para transformar o mundo segundo as regras do Evangelho.

2. Em termos práticos, o que isso significa?

Significa que, em nível local ou regional, católicos, luteranos, metodistas e reformados, todos juntos, podem trabalhar pela transformação da sociedade, para levar ajuda à humanidade sofredora.

3. E, também, redescobrir, em certo sentido, esse “tesouro escondido”, como é chamado, do Ensino Social da Igreja Católica.

Tornarmo-nos todos mais conscientes do fato de que, como o papa Francisco diz muitas vezes, não basta crer em abstrato, mas que a nossa fé nos leve a trabalhar, a caminhar, a mudar o mundo.

(A reportagem é de Philippa Hitchen, publicada no sítio Radio Vaticana, 03-07-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.)

Fonte:

IHU

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