O desafio da Igreja ao evangelizar é encarnar profeticamente em seu agir os critérios que emergem da prática libertadora de Jesus, ao lidar com as situações concretas da vida humana, seja no interior da Igreja, seja na dinâmica da vida em sociedade. Para isso importa confiar na graça de Deus, na presença amorosa e dinamizadora do Ressuscitado, Deus conosco até o fim, na força vivificadora do Espírito Santo, e dedicar-se de todas as maneiras na formação de cristãos adultos:

  • Homens e mulheres libertados pelo encontro transformar com Jesus Cristo, capazes de discernir com liberdade e responsabilidade, a luz dos valores do Evangelho e da centralidade da graça salvífica, do perdão e da misericórdia, os caminhos para a prática do bem possível;
  • Homens e mulheres capazes de concretizar uma Igreja samaritana, sacramento vivo do Reino de Deus, que caminha pela fé confiante no Deus da vida e integra as fragilidades uns dos outros a partir da experiência do amor gratuito de Deus que nos liberta para a prática da misericórdia, do amor e da justiça;
  • Homens e mulheres que não caiam na tentação maniqueísta do falso moralismo dos puros e da condenação dos pecadores, mas, ao contrário, capazes de acolher a realidade de que todos somos pecadores, luzes e sombras, trigo e joio e comprometer-se com a procura diária do “viver em Cristo”.

 

A teologia moral depois de “Amoris laetitia”

 

Não escapou às consciências mais críticas e atentas, o fato de que a exortação não enfoca apenas um campo específico do agir moral, embora importante, mas engendra uma revisão decisiva do próprio arcabouço da teologia moral em seus fundamentos e em sua totalidade.

Diante de um entendimento da moral (sexual) que objetiva o sim ou o não, segundo a lógica do permitido/proibido, o papa, além de declarar que o Magistério não pode ter respostas para tudo, transfere a discussão para um plano mais fundamental em que a busca do bem vem antes da obrigação, a atração por uma plenitude de valor tem prioridade sobre a declinação normativa e disciplinar.

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Stefano Zamboni, professor na Academia Alfonsiana e Pontifícia Universidade Lateranense

Eis o artigo

Mais de cem anos atrás, o papa Bento XV, em sua primeira encíclica Ad beatissimi apostolorum (1914), escrevia:

Nas discussões é preciso fugir de todo excesso de palavras, porque podem decorrer graves ofensas para a caridade; cada um livremente defenda a sua própria opinião, mas faça-o com respeito, e nem pense que é possível acusar os outros de fé suspeita ou de falta de disciplina pela simples razão de que eles pensam de forma diferente“.

Na época eclesial atual, quando o papa Francisco convida para enfrentar as discussões com parrésia evangélica, as palavras de seu predecessor resultam particularmente oportunas em relação ao acalorado debate que tem acompanhado a celebração dos dois sínodos, primeiro o da família e, depois, a exortação Amoris laetitia.

Mudança de perspectiva

Não escapou às consciências mais críticas e atentas, o fato de que a exortação não enfoca apenas um campo específico do agir moral, embora importante, mas engendra uma revisão decisiva do próprio arcabouço da teologia moral em seus fundamentos e em sua totalidade. ‘Amoris Laetitia. Um ponto de inversão para a teologia moral?’ é a pergunta que é posta em discussão por um grupo de teólogos alemães em um livro recentemente traduzido também para o italiano (San Paolo, 2017).

Em sintonia com essa perspectiva, a Atism (Associação Teológica Italiana para o Estudo da Moral), organizou em Alghero (3-7 de julho de 2017) o seu décimo seminário de estudo com o tema “A teologia moral depois de Amoris Laetitia“.

Em primeiro lugar o objetivo foi de compreender o contexto do discurso do Papa. Diante de um entendimento da moral (sexual) que objetiva o sim ou o não, segundo a lógica do permitido/proibido, o Papa, além de declarar que o Magistério não pode ter respostas para tudo, transfere a discussão para um plano mais fundamental em que a busca do bem vem antes da obrigação, a atração por uma plenitude de valor tem prioridade sobre a declinação normativa e disciplinar. Nesse sentido – como destacado pela apresentação de Giacomo Rossi – a impostação de Francisco abandona a perspectiva racionalista da modernidade para retomar a valência sapiencial do discurso bíblico.

A proposta magisterial de Francisco pede para levar muito a sério a questão do discernimento.

Sabatino Majorano, mostrando uma notável coincidência de enfoque com a moralidade afonsiana, observa que é necessário voltar a confiar na consciência, livrando-se daquela suspeita a seu respeito que de certa forma permaneceu na origem do surgimento da própria moral moderna. “Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las” (AL 37). Disso decorre a importância do discernimento como resposta ao Espírito. Para o crente, as situações não são algo que atrapalha o discernimento, mas o lugar do kairós a ser compreendido e acolhido. Então, o bem em direção ao qual a pessoa orienta-se, é o bem possível. Falar do bem possível não significa legitimar uma proposta em um patamar inferior, mas significa direcionar-se ao que há de mais prático, mediante a graça que nos foi antecipada.

O “princípio da misericórdia”

Na audiência com os membros da Atism por ocasião do 50º aniversário de fundação, o papa Francisco convidou os teólogos italianos a “compartilhar o pão da misericórdia.”

É um convite que Basílio Petra, presidente da associação, leu sob a ótica da AL 310-312. Nestes parágrafos há um convite para assumir de forma decidida a perspectiva da misericórdia como pilar que suporta a vida da Igreja, chamada a ser, portanto, não como uma alfândega, em que os ministros são os controladores da graça, mas como a casa paterna, onde há espaço para cada um com sua vida cheia de complicações. Nesse sentido, o ensinamento da teologia moral, mesmo sem negligenciar o cuidado pela integridade do ensino moral da Igreja, deve deixar emergir “a primazia da caridade como resposta à iniciativa graciosa do amor de Deus”. Disso decorre a necessidade de superar “uma moral fria burocrática” que julga a partir do exterior, à luz de princípios abstratos, para que se possa elaborar uma moralidade que faça parte da vida das pessoas, que assuma uma escuta participativa, que acompanhe com confiança. A misericórdia, de fato, para citar as palavras de James Keenan, é a “vontade de entrar no caos do outro”.

Uma moral que assuma o “princípio da misericórdia” deve estar ciente de uma mudança de paradigma, que pode ser expressa na passagem da centralidade da norma para a centralidade da condição de pecadora da pessoa.

O episódio da mulher apanhada em adultério pode ser icônico, pois explicita dois elementos: a semelhança da mulher com todos os outros protagonistas da cena é justamente na condição de pecado (“quem dentre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra”); o pecado é superado pela misericórdia salvífica de Jesus. Não mais: “temos uma lei, e de acordo com esta deve ser julgada”, mas o pecado torna-se com Jesus uma “porta para a graça”.

Integrar a fragilidade

A partir dessa referência é que se originou a palestra de Martin Lintner “Integrar a fragilidade“. Da fragilidade humana pode ser tirada uma nova possibilidade: aquela de escapar à tentação de autorredenção, a fim de confiar na primazia da graça divina. Eis porque a necessidade de um novo olhar sobre a fragilidade. É o olhar de Jesus (Metz falava em “olhar messiânico”), direcionado prioritariamente não ao pecado, mas ao sofrimento da pessoa pecadora. É esse olhar que a Igreja, hospital de campanha, deve assumir. A isso corresponde a responsabilidade do discernimento (pastoral, pessoal, disciplinar) na lógica daquela integração que já a Familiaris Consortio propunha, mas que não conseguiu garantir até o fim.

Discernir, acompanhar, integrar: é esse o recado do Magistério do papa Francisco para toda a Igreja e, nela, para a teologia moral. Apenas a partir do primado da misericórdia, ela poderá responder de maneira convincente e produtiva.

(Artigo publicado por Settimana News, 10-07-2017. Tradução de Luisa Rabolini. Os grifos são nossos)

Fonte:

IHU

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