Para evangelizar é preciso conhecer, com profundidade, a vida de Jesus de Nazaré e os desafios e urgências de nosso tempo. Trata-se de um dinamismo histórico processual e transformador, inspirado pelo Espírito Santo, que visa humanizar este mundo. As comunidades cristãs, formadas pelos/as seguidores/as de Jesus, buscam testemunhar a vida nova como fermento que transforma esse mundo pela prática da justiça, da misericórdia e do amor fraterno. Os cristãos são chamados a participar, junto com os movimentos populares, das ações em defesa da dignidade da vida e da construção de outra sociedade possível.

A prática libertadora de Jesus, ao ser repensada e compreendida no contexto atual, inspira, entusiasma e oferece critérios éticos de discernimento para as ações evangelizadoras.

Para melhor conhecer o núcleo central da vida de Jesus, fonte para as ações evangelizadoras, vale a pena ler o artigo do teólogo espanhol Pe. José Maria Castilho:

 

“O núcleo central na vida de Jesus não foi a religião, mas a missão de humanizar este mundo”. Artigo de José María Castilho

 

“Mais do que com a religião, deveríamos nos preocupar com a saúde, a alimentação e as relações humanas”

 

A teologia, que rege o pensamento da Igreja e orienta as decisões da Igreja, é mais importante que o Papa, os cardeais, os bispos, os clérigos, os teólogos, os fiéis, as leis, os ritos, os costumes e todo o resto que existe na Igreja. A teologia, no final das contas, diz a todos nós o que Deus quer e o que nos ordena. De forma que o Papa (seja quem for) diz o que a teologia lhe indica. Por isso a teologia é tão importante.

O problema está em que, para um número significativo de cristãos, a teologia não importa praticamente nada. Não sabem muito de teologia. O que é compreensível. Porque a teologia, essa que se costuma ensinar (onde ela é ensinada), utiliza uma série de palavras, conceitos e critérios, inventados pelos gregos da Antiguidade, mas que, atualmente, a maioria das pessoas não sabe nem o que quer dizer esse vocabulário, nem para que serve.

O núcleo, o eixo e a chave da teologia cristã não é o pensamento dos sábios gregos da Antiguidade. Menos ainda os mitos religiosos anteriores ao judaísmo, que na Bíblia lemos como “Palavra de Deus”.

A teologia cristã deveria ter como núcleo, eixo e chave o que é a origem e o princípio determinante do cristianismo: aquele humilde artesão galileu, que foi Jesus de Nazaré – sua forma de viver, o que fez, o que disse, o que lhe interessou e preocupou, o que viram nele as pessoas que o conheceram e a “memória perigosa” que aquele homem tão singular nos deixou.

Esta “memória perigosa” de Jesus ficou escrita no Evangelho, que foi resumida e reunida em quatro coleções de relatos, os quatro Evangelhos, ou seja, a “teologia narrativa”, resumo determinante de toda possível teologia que pretenda chamar-se “cristã”. O núcleo da teologia cristã não pode estar fora do Evangelho. Nem pode ser teologia cristã se não entranhar uma “memória perigosa”.

Pois bem, lendo e relendo a teologia narrativa que os Evangelhos nos apresentam, o que nesse conjunto de relatos fica imediatamente claro, é que as três grandes preocupações que ocuparam e monopolizaram a vida de Jesus, são:

  1. a saúde dos seres humanos: relatos de curas, expressadas no “gênero literário” dos milagres;
  2. a alimentação repartida: as refeições das quais tanto se fala nos Evangelhos;
  3. as relações humanas: sermões e parábolas;

 

A fé, a relação com o Pai, os sentimentos pessoais mais profundos… tudo, na vida de Jesus  gira em torno destas três preocupações. E estas preocupações foram tão fortes que Jesus as colocou na frente das normas impostas pelos mestres da lei, das observâncias dos fariseus, da autoridade dos sumos sacerdotes. A tal ponto que isso lhe custou a vida.

Jesus fez tudo isso porque alegava que quem via a ele via Deus (Jo 14, 7-9). Ou seja, identificou-se com Deus.

O núcleo central na vida de Jesus não foi a religião. Foi humanizar este mundo tão desumanizado. Não deveríamos ficar tão preocupados com o diálogo das religiões. Deveríamos nos preocupar com o que é preocupação de todos os seres humanos: a saúde, a alimentação partilhada, as melhores relações humanas. Os três pilares de toda possível religião. É o que centrou a vida de Jesus: humanizar esta vida. Nisso está o caminho da esperança que nos leva a Deus.

(Publicado por Religión Digital, 06-07-2017. Traduzido por André Langer. Os grifos são nossos.)

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Pe. José María Castillo é um renomado teólogo e escritor espanhol. Dentre sua vasta produção teológica destacamos: Jesus, a humanização de Deus; A religião de Jesus;  A Igreja e os direitos humanos; Espiritualidade para insatisfeitos.

 

Fonte:

IHU

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