Evangelizar implica de modo singular o cultivo da arte de fazer memória. O próprio dinamismo da vida cristã, só consegue manter acesa a sua chama, graças ao cultivo da memória da vida de Jesus de Nazaré, os ensinamentos e atitudes do Profeta crucificado da Galileia que concretizou uma prática libertadora, reconhecida como a presença atuante do Reino de Deus no meio de nós. O Evangelho não é outra coisa que o resultado do fazer a memória perigosa de Jesus, cultivada pelos seus discípulos e discípulas ao longo da história.

Acontece que o cristianismo para realizar a sua missão depende fundamentalmente de responder ao desafio da dupla fidelidade: primeiro, a fidelidade à sua própria Tradição, segundo, a fidelidade ao contexto em que o anúncio do Evangelho é concretizado. Em outras palavras, fidelidade ao projeto de Deus e ao ser humano que recebe o anúncio do Evangelho situado em um contexto específico em cada tempo e lugar. O Evangelho só pode ser boa nova de Deus encarnado em uma realidade que suscita desafios e urgências.

Por exemplo, a Igreja de Jesus Cristo, na busca de recepção do Concílio Vaticano II, concretizou, a partir do final dos anos sessenta e início dos anos setenta, uma caminhada profética de fidelidade ao Evangelho em solo latino-americano. Diante dos graves desafios da América Latina, esse continente de tantos crucificados pela cruz da exclusão e da injusta desigualdade social, por ter ficado ao lado dos mais pobres e oprimidos, parcela significativa da Igreja deu as mãos aos movimentos populares em defesa da cidadania, na luta contra as forças opressoras e contra a ditadura militar. Consequentemente, como no tempo de Jesus, muitos discípulos e discípulas foram perseguidos, presos, torturados e mortos por defenderem, a luz do Evangelho de Cristo, a dignidade e o valor da vida. O sangue dos mártires da América Latina, como Dom Oscar Romero e Pe. Rutílio Grande, dentre tantos outros, fortaleceu e confirmou a fé na caminhada de seguimento de Jesus.

Depois de longo inverno eclesial, o braseiro da fé da Igreja dos pobres volta a se acender no pontificado do papa Francisco. As muitas iniciativas que pululam em diversos lugares estão a indicar que está acontecendo algo novo na Igreja: será uma retomada do Concílio Vaticano II? Será que a reforma da Igreja proposta pelo Papa em sua Evangelii Gaudium começa a dar frutos?

Neste horizonte de discernimento na caminhada da Igreja, vale a pena ler o artigo do Mauro Lopes:

Francisco acendeu a chama; e a Igreja-pipoca!

Não gosto de pipoca. E, por isso, sou visto como um estranho em minha família. Já me acostumei com os olhares de incompreensão toda vez que “não, obrigado, não gosto mesmo de pipoca”. Não sei, parece-me sem gosto, a textura é estranha. Não sei. Vai ver que é algum trauma da infância. Entretanto, mesmo não gostando de comer, sinto-me maravilhado toda vez que se faz pipoca em casa – e isso acontece muitas vezes por semana!

É um pequeno milagre.

No começo, não há nada, só o fogo aceso. Então uma pipoca estoura. Depois outra, mais uma, outra mais e de um instante para outro é uma profusão de múltiplas explosões. Quando se abre a panela, o que era um fundinho de grãos amarelos tornou-se uma abundância transbordante. É assim – finalmente – com a Igreja sob a liderança de Francisco.

Em 2013, Bergoglio acendeu a chama sob a panela com muitos grãos de aparência inerte, adormecidos, imóveis. Grãos mantidos guardados, trancados no armário por muito tempo. Então o calor começou a fazer efeito. Como cantou Caetano, tem pipocado aqui, ali, além. Pipoca, pipoca, até que a manhã começou a desanoitecer.

E temos de novo a Igreja-pipoca!

A ideia me veio imediatamente à cabeça quando recebi a notícia de que no próximo domingo (30) haverá missa e festa em Volta Redonda, no Rio de Janeiro.  Às 17h, padre Natanael de Moraes irá presidir a celebração em homenagem a seus 51 anos de sacerdócio. Ele estará de volta à cidade 47 anos depois de ser preso e barbaramente torturado durante a ditadura militar. Padre Natanael, agora no clero da Arquidiocese de Belo Horizonte (MG) era, na virada dos anos 1960/70, religioso verbita, diretor espiritual da Juventude Operária Católica (JOC) de Volta Redonda e um dos líderes católicos ao redor de dom Waldyr Calheiros (1923-2013), bispo de Volta Redonda e Barra do Piraí.

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Dom Waldyr (à direita), num dos inúmeros depoimentos a que foi convocado pelos militares durante a ditadura.

Dom Waldyr foi um dos signatários do Pacto das Catacumbas que reuniu 40 padres e bispos durante o Concílio Vaticano II: todos assumiram o compromisso de uma vida pobre com os pobres. Ao lado de dom Hélder Câmara, dom Pedro Casaldáliga, dom Paulo Evaristo Arns e outros formou a linha de frente da Igreja Católica contra a ditadura e protagonista da Teologia da Libertação.

Ambos, dom Waldyr e padre Natanael, conheceram no final dos anos 60 Estrella Bohadana, uma jovem de 19 anos, militante da Política Operária (Polop) na resistência à ditadura. O sacerdote e Estrella reencontraram-se em 1970 nas salas de tortura do antigo 1º Batalhão de Infantaria Blindado, em Barra Mansa/RJ. Foram submetidos a torturas brutais, de todo tipo.

O sereno e firme depoimento de Estrella à Comissão da Verdade de Volta Redonda é pungente, um grito aos céus. A brutalidade e o sadismo marcaram a ditadura no Brasil, com apoio de segmentos do catolicismo conservador no país. Ela morreu em maio de 2015, carregando por anos as sequelas das torturas selvagens. No seu relato, o registro de que a Igreja estava, em Volta Redonda, no lugar certo: ao lado dos jovens, com os pobres, nas prisões, flagelada nos centros de tortura. Assista, emocione-se:

Padre Natanael e Estrella (postumamente) receberão no domingo a medalha dom Waldyr Calheiros de Direitos Humanos.

Domingo em Volta Redonda será dia de fazer memória da Igreja-pipoca. Não se trata de saudade, que evoca nostalgia de um tempo ou pessoas que perdemos. Fazer memória como atualização de experiências fundantes da Igreja, como a grande MEMÓRIA que se faz a cada Celebração Eucarística, atualização viva da experiência do Manso e Humilde com as primeiras comunidades, alimentar o seguimento de sua missão. Fazer memória, estourar pipoca.

Durante 35 anos, sob João Paulo II e Bento XVI o milho esteve trancado em armários, a sete chaves.

Sim, houve resistência nesses anos todos. Pipocou na CPT (Comissão Pastoral da Terra), no Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e outras frentes pastorais; pipocou em pequenas comunidades nas periferias e nos campos, escondidas, buscando escapar do trancamento nos armários escuros e fechados do Vaticano e sua mão longa em tantos cúmplices na hierarquia clerical.

Mas agora há fogo sob o milho-pipoca. Francisco acendeu a chama! E como esquenta! Começa a pipocar na CNBB. Os milhos estouram de novo nas periferias, em novas redes como a REPAM (Rede Eclesial Pan-Amazônica), nos sinais de um vigor renovado das Comunidades Eclesiais de Base, na reorganização ecumênica dos teólogos e teólogas ao redor da SOTER (Sociedade de Teologia e Ciências da Religião), nas ordens e congregações religiosas, em múltiplas iniciativas.

A Igreja pipoca novamente.

imagesMauro Pereira Lopes é jornalista, psicanalista, poeta e teólogo. É o autor do blog Caminho pra Casa. Trata-se de uma proposta, projeto nunca acabado de apresentar e conversar uma visão sobre a vida, o cotidiano e as questões que me atravessam a partir de um olhar particular -assentado no encontro com o cristianismo, particularmente com a Igreja Católica.

 

Fonte:

Caminho pra Casa

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