Quando acolhemos a presença da fragilidade, da ambiguidade e da imperfeição na trajetória de toda realidade humana, desenvolvemos postura de humildade aprendiz e somos chamados a cultivar além da espiritualidade do cuidado, um processo reflexivo crítico e autocrítico. A religião – como também a família, a escola, o estado e qualquer outra instituição social enquanto realidades humanas – precisa assumir a sua necessária dimensão histórica. Em busca de lucidez, importa aperfeiçoar o cultivo da memória e do contínuo processo de leitura e resignificação de sua caminhada repleta de conquistas e fracassos, acertos e erros, luzes e sombras, altos e baixos, com muitas lições a ser aprendidas em cada um de seus passos.

A eclesiologia do Concílio Vaticano II preconiza uma Igreja que precisa se assumir sempre em reforma. O papa Francisco, no mesmo espírito do último grande Concílio, desde que assumiu o ministério de Pedro, vem promovendo um amplo processo de reforma da Igreja no qual incluiu o próprio ministério de bispo de Roma. Para uma acolhida vigorosa deste pertinente dinamismo reformador em contexto latino-americano vale a pena reler a mensagem de Francisco aos bispos da América Latina:

“Não tenhamos medo de nos sujar por nosso povo. Não tenhamos medo da lama da história, a fim de resgatar e renovar a esperança”

 

O papa Francisco enviou uma corajosa carta à Assembleia do Conselho Episcopal Latino-Americano- CELAM, a primeira que se reúne desde que ele se tornou Pontífice, e que ocorre em San Salvador. Eis a profética mensagem do Papa:

Meus irmãos Bispos, reunidos na Assembleia do CELAM,

Queridos irmãos, quero me aproximar de Vocês nestes dias de Assembleia que tem como mística de fundo a celebração dos 300 anos de Nossa Senhora Aparecida. E, com Vocês, gostaria de poder “visitar” esse Santuário. Uma visita de filhos e de discípulos, visita de irmãos que como Moisés querem se descalçar nessa terra santa que sabe acolher o encontro de Deus com Seu Povo.

Assim também gostaria que fosse nossa “visita” aos pés da Mãe, para que ela nos engendre na esperança e inteire nossos corações de filhos. Seria como “voltar a casa” para olhar, contemplar, mas especialmente para nos deixar olhar e encontrar por Aquele que nos amou primeiro. Há 300 anos, um grupo de pescadores saiu como de costume para lançar suas redes. Saíram para ganhar a vida e foram surpreendidos por um achado que lhes mudou os passos: em suas rotinas são encontrados por uma pequena imagem toda coberta de lama.

Era Nossa Senhora da Conceição, imagem que durante 15 anos permaneceu na casa de um deles, e aí os pescadores iam para rezar e Ela os ajudava a crescer na fé. Ainda hoje, 300 anos depois, Nossa Senhora Aparecida nos faz crescer, submerge-nos em um caminho discipular.

Aparecida é toda ela uma escola de discipulado. E, a esse respeito, gostaria de destacar três aspectos. O primeiro são os pescadores. Não eram muitos, um grupinho de homens que cotidianamente saíam para encarar o dia e enfrentar a incerteza que o rio lhes apresentava. Homens que viviam com a insegurança de nunca saber qual seria o “ganho” do dia; incerteza nada fácil de gerir quando se trata de levar o alimento para casa e, sobretudo, quando nessa casa há crianças para alimentar. Os pescadores são esses homens que conhecem em primeira mão a ambivalência que se dá entre a generosidade do rio e a agressividade de seus transbordamentos. Homens acostumados a enfrentar inclemências com a resiliência e certa santa “teimosia” daqueles que, cotidianamente, não deixam – porque não podem – de lançar as redes. Esta imagem nos aproxima do centro da vida de tantos irmãos nossos. Vejo rostos de pessoas que desde muito cedo até um considerável início da noite saem para ganhar a vida. E fazem isto com a insegurança de não saber qual será o resultado. E o que mais dói é ver que – quase ordinariamente – saem para enfrentar a inclemência gerada por um dos pecados mais graves que, hoje, açoita o nosso Continente: a corrupção, essa corrupção que arrasa com vidas, submergindo-as na mais extrema pobreza. Corrupção que destrói populações inteiras, submetendo-as à precariedade. Corrupção que, como um câncer, vai corroendo a vida cotidiana de nosso povo. E aí estão tantos irmãos nossos que, de maneira admirável, saem para lutar e enfrentar os “transbordamentos” de muitos…, de muitos que não precisam sair. 

O segundo aspecto é a Mãe. Maria conhece em primeira mão a vida de seus filhos. Em crioulo, atrevo-me a dizer: é madraza. Uma mãe que está atenta e acompanha a vida dos seus. Vai onde não é esperada. No relato de Aparecida, nós a encontramos no meio do rio, cercada de lama. Aí, espera seus filhos, aí está com seus filhos, no meio de suas lutas e buscas. Não tem medo de se submergir com eles nas vicissitudes da história e, se necessário, sujar-se para renovar a esperança. Maria aparece ali onde os pescadores lançam as redes, ali onde esses homens tentam ganhar a vida. Aí está ela.

Por último, o encontro. As redes não se encheram de peixes, mas, ao contrário, de uma presença que lhes encheu a vida e lhes deu a certeza que em suas tentativas, em suas lutas, não estavam sós. Era o encontro desses homens com Maria. Depois de limpá-la e restaurá-la, levaram-na a uma casa onde permaneceu um bom tempo. Esse lar, essa casa, foi o lugar onde os pescadores da região iam ao encontro de Aparecida. E essa presença se fez comunidade, Igreja. As redes não se encheram de peixes, se transformaram em comunidade.

Em Aparecida, encontramos a dinâmica do Povo crente que se confessa pecador e auxiliado, um povo forte e obstinado, consciente que suas redes, sua vida, está cheia de uma presença que o alenta a não perder a esperança; uma presença que se esconde no cotidiano do lar e das famílias, nesses silenciosos espaços nos quais o Espírito Santo continua sustentando nosso Continente. Tudo isto nos apresenta um belo ícone que nós, pastores, somos convidados a contemplar.

Viemos como filhos e como discípulos para escutar e aprender o que é que hoje, 300 anos depois, este acontecimento continua nos dizendo. Aparecida (seja aquela aparição, como hoje a experiência da Conferência) não nos traz receitas, mas chaves, critérios, pequenas grandes certezas para iluminar e, sobretudo, “acender” o desejo de retirarmos qualquer roupagem desnecessária e voltar às raízes, ao essencial, à atitude que plantou a fé nos inícios da Igreja e, depois, fez de nosso Continente a terra da esperança. 

Aparecida quer apenas renovar nossa esperança em meio a tantas “inclemências”. O primeiro convite que este ícone nos faz, como pastores, é a aprender olhar para o Povo de Deus. Aprender a escutá-lo e a conhecê-lo, a lhe dar sua importância e lugar. Não de maneira conceitual ou organizativa, nominal e funcional. Embora esteja correto que hoje em dia existe uma maior participação dos fiéis leigos, muitas vezes os limitamos apenas ao compromisso intraeclesial, sem um claro estímulo para que permeiem, com a força do Evangelho, os ambientes sociais, políticos, econômicos, universitários.

Aprender a escutar o Povo de Deus significa nos descalçar de nossos preconceitos e racionalismos, de nossos esquemas funcionalistas para conhecer como o Espírito atua no coração de tantos homens e mulheres que, com grande resiliência, não deixam de lançar as redes e lutam para tornar o Evangelho credível, para conhecer como o Espírito continua movendo a fé de nossa gente; essa fé que não sabe tanto de ganhos e êxitos pastorais, mas de firme esperança.

Como temos que aprender com a fé de nossa gente! A fé de mães e avós que não têm medo de se sujar para conduzir seus filhos adiante. Sabem que o mundo que lhes toca viver está infestado de injustiças, em todas as partes veem e experimentam a carência e a fragilidade de uma sociedade que se fragmenta cada dia mais, onde a impunidade da corrupção segue ceifando vidas e desestabilizando as cidades.

Não apenas sabem disso… vivem-no. E elas são o claro exemplo da segunda realidade que nós, como pastores, somos convidados a assumir: não tenhamos medo de nos sujar por nossa gente. Não tenhamos medo da lama da história, a fim de resgatar e renovar a esperança. Só pesca aquele que não tem medo de arriscar e se comprometer pelos seus. E isto não nasce da heroicidade ou do caráter kamikaze de alguns, nem é uma inspiração individual de alguém que deseja se imolar. É toda a comunidade crente que vai em busca de Seu Senhor, porque só saindo e deixando as seguranças (que muitas vezes são ‘mundanas’) que a Igreja se centra. Só deixando de ser autorreferencial é que somos capazes de re-centrarmos Naquele que é fonte de Vida e Plenitude.

Para poder viver com esperança é crucial que nos re-centremos em Jesus Cristo, que já habita no centro de nossa cultura e vem a nós sempre novo. Ele é o centro. Esta certeza e convite ajuda a nós, pastores, centrarmos em Cristo e em seu Povo. Eles não são antagônicos. Contemplar a Cristo em seu povo é aprender a nos descentrar de nós mesmos, para nos centrar no único Pastor. Re-centrarmos com Cristo em seu Povo é ter a coragem de ir para as periferias do presente e do futuro, confiantes na esperança de que o Senhor segue presente e Sua presença será fonte de Vida abundante. Daqui virá a criatividade e a força para chegar aonde são gestados os novos paradigmas que estão pautando a vida de nossos países e poder alcançar, com a Palavra de Jesus, os núcleos mais profundos da alma das cidades onde, cada dia mais, cresce a experiência de não se sentir cidadãos (Cf. EG 74). É certo, não podemos negar, a realidade se apresenta a nós cada vez mais complicada e desconcertante, mas a nós é pedido vivê-la como discípulos do Mestre, sem nos permitir ser observadores assépticos e imparciais, mas homens e mulheres apaixonados pelo Reino, desejosos de impregnar as estruturas da sociedade com a Vida e o Amor que conhecemos. E isto não como colonizadores ou dominadores, mas compartilhando o bom odor de Cristo: que seja esse odor aquele que siga transformando vidas. 

Volto a lhes reiterar, como irmão, o que escrevia na Evangelii Gaudium (49):

prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído à rua, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada em ser o centro e que acabe presa em um emaranhado de obsessões e procedimentos. Se algo deve nos inquietar santamente e preocupar nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz e o consolo da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida. Mais que o medo de errarmos, espero que nos mova o medo de nos fechar nas estruturas que nos dão uma falsa contenção, nas normas que nos tornam juízes implacáveis, nos costumes onde nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta e Jesus nos repete sem se cansar: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mc 6, 37).

Isto ajudará a revelar a dimensão misericordiosa da maternidade da Igreja que, a exemplo de Aparecida, está entre os “rios e a lama da história”, acompanhando e animando a esperança para que cada pessoa, ali onde está, possa se sentir em casa, possa se sentir filho amado, buscado e esperado. Está visão, este diálogo com o Povo fiel de Deus, oferece ao pastor duas atitudes muito lindas a cultivar: coragem para anunciar o Evangelho e resistência para lidar com as dificuldades e os dissabores que a própria pregação provoca.

Na medida em que nos envolvemos com a vida de nosso povo fiel e sentimos a profundidade de suas feridas, podemos olhar sem “filtros clericais” o rosto de Cristo, ir a seu Evangelho para rezar, pensar, discernir e nos deixar transformar, a partir de Seu rosto, em pastores de esperança. Que Maria, Nossa Senhora Aparecida, continue nos conduzindo a seu Filho para que, Nele, nossos povos tenham vida… e em abundância. E, por favor, peço-lhes que não se esqueçam de rezar por mim. Que Jesus os abençoe e a Virgem Santa os proteja.

Fraternalmente.

Francisco

Vaticano, 8 de maio de 2017

(Os grifos e destaques são nossos)
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